quinta-feira, 19 de abril de 2018

O recolhimento e as virtudes

Parece que se pode afirmar, sem medo de erro, que há pouca virtude no mundo, porque há pouco recolhimento também. Onde não há virtude, há, forçosamente, o contrário, pois a alma não pode conservar-se neutra, ou sem direção. Ou se apega às coisas de Deus, ou às coisas do mundo. Ou olha para o céu, ou olha para o lodo.


Não havendo virtude, há fraqueza ou defeitos, pecados ou vícios. Ora, tudo isso é feio e reprovável, não só aos olhos da fé, como também aos olhos da razão.
"Como é feio - dizia o célebre aviador e cristão profundo Jacques D'Arnoux - aquela senhora que mente, aquele cidadão que come e bebe demais, aquele rapaz sem compostura. Outros falam mal do próximo, elogiam-se a si mesmos, têm modos ríspidos, são indelicados, geniosos, egoístas, para não citar coisas piores".

Pois é no recolhimento que a alma descobre tudo isso e muito mais. A sós consigo e com seu Deus, no silêncio e na solidão, ainda que momentâneos, quanto se enxerga! E como tudo, então, toma outras proporções. Já não parecem apenas faltinhas que se bebem como um copo de água, ou que se purificam, com o sinal da cruz. Vê-se, como tudo isso é feio, ridículo, até abominável, às vezes.

De outro lado, a virtude toma feições novas, atraentes, encantadoras. Compreende-se, então, que ela não é tão inacessível, e que, com esforços, se poderá consegui-la.

Entra-se em intimidade com os santos do céu e da terra, e vai-se tomando os seus modos, as suas maneiras. E mais depressa do que se imaginava, se vai alcançando o seu feitio.

Será possível, uma alma recolhida deixar-se levar, habitualmente, pela ira ou impaciência?

De modo algum. Pois impaciência e rispidez são faltas de domínio próprio e o recolhimento, adquirido com tanto esforço, às vezes, é domínio de si mesmo, é equilíbrio, é força de vontade, e de tudo isso, para a paciência e mansidão verdadeiras, é um passo muito pequeno. Louva-se tanto a mansidão proverbial de Francisco de Sales, mas é bom não nos esquecermos de seu recolhimento angélico que se percebe, em seus escritos e em todas as situações de sua vida: era o ambiente próprio de sua paciência inalterável, heróica tanta vez. Para ele não havia surpresas; porque, como o salmista e todo homem recolhido, sua alma estava, sempre, em suas mãos.

Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus. Ora, é a alma recolhida que não somente vê a Deus, através de sua fé, mas o goza, tendo a túnica da pureza, sem a qual ninguém se aproxima do Altíssimo.

Demais, o recolhimento é abnegação, é penitência, pois é cortar com mil coisas exteriores, é renunciar a mil curiosidades e distrações. Ora, não é este o caminho da pureza verdadeira?

Luiz Gonzaga permanecerá sempre o modelo de pureza, o anjo de carne, mas sabemos até que ponto (que nos poderia parecer exagero) ia o seu recolhimento heróico, não só nos colégios da Companhia de Jesus, mas também em Castiglione ou nas côrtes da Espanha e Itália, onde viveu sem se queimar, como os três moços na fornalha ardente.

O orgulho, a vaidade, a soberba são próprias da cabeça que não pensa. Quem somos nós? Que valor possuímos? Qual é a nossa importância? Nada somos, nada, nada. É a pura expressão da verdade. Não há exagero algum.

Ora, se há alma compenetrada desta verdade, mas que não desanima nem se atrofia, pois sabe que "em Cristo tudo pode", é a alma recolhida que, no silêncio e na solidão, vê claramente, os seus valores e quando são reais, canta como Maria o Seu "Magnificat", atribuindo tudo a Deus Nosso Senhor, conservando-Se, sem fingimentos, na Sua pequenez.

Não foi neste ambiente fechado do santo recolhimento que um grande Agostinho ou Tomás de Aquino ou Boaventura aprenderam a falar, com tal profundeza, sobre a sublime humildade, onde se conservaram toda vida, ainda que rodeados de fama, de louvores, de elogios, que não os atingiam?

"O humilde entra na galeria dos grandes", dizia Madalena Sofia Barat, a santa que soube levar, tão bem, as suas suas filhas ao recolhimento do Coração de Jesus.

Então, compreende-se como as almas recolhidas sabem sofrer. Elas vêem a provação e a dor, seja física seja moral, de outro ponto de vista. E numa aparente fraqueza ou ingenuidade, realizam heroísmos. As almas dissipadas, exteriores, apenas sofrem, logo correm a divulgar as suas dores, mendigando, de todo  modo, consolo e compaixão, quando não espalhando descontentamentos e revoltas.

A alma recolhida se domina. Expande-se perante Deus. Guarda para si o seu segredo doloroso e isso já é princípio de consolo e ânimo que Deus não deixa de enviar, pelos Seus anjos, como no deserto, depois da tentação de Jesus Cristo.

A alma recolhida em Deus é forte e sabe sofrer. Sabe também que é ilusão momentânea a distração que tantos e tantos procuram nas criaturas.

"Saiam as visitas, por favor; leia-me, Padre, a Imitação de Cristo" - dizia-me um doente ilustre. O ambiente se transformava e ele sabia sofrer, no recolhimento admirável, que esse livrinho de ouro sabe despertar.


Convençamo-nos: o recolhimento é a atmosfera própria onde cresce e se desenvolve toda a virtude cristã. E ninguém o duvidará, lembrando-se de que o virtuoso, de verdade, é homem de Deus. Ora, o homem de Deus em Deus vive. 

(Recolhimento, por D. Fr .Henrique Golland Trindade, O.F.M, bispo de Bonfim)
Fonte: A Grande Guerra

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Esquecer de si para maior gloria de Deus


Aquele que se entrega a Deus já não se pertence. Deixa de existir aos seus próprios olhos, não vive em si mesmo, mas nAquele a quem se entregou, e não tem outros interesses a não ser os do Mestre.

Esquecer-se de si próprio, por amor, eis a grande lei de toda a vida espiritual. Esquecer-se é excluir das ações, sofrimentos e orações todo o cálculo humano, toda a sombra se amor-próprio ou intenção egoísta.



Esquecer-se é aceitar simplesmente da mão de Deus todas as responsabilidades, todos os deveres, todos os sofrimentos, todas as contrariedades, sem queixumes, sem pretender sobressair por isso, sem examinar a duração e a natureza das próprias penas ou sacrifícios, tal como se eles tivessem atingido outra pessoa.

Esquecer-se é moderar a procura de satisfações pessoais, fugindo das ilícitas e só escolhendo das outras as que a Providência tiver preparado.

Esquecer-se é avaliar-se pelo seu justo valor, isto é, como um mísero pecador; é afastar da memória própria e alheia as qualidades e obras pessoais; é mesmo evitar um olhar ansioso e demorado sobre as próprias fraquezas.

Esquecer-se é desaparecer aos próprios olhos, por um ato de vontade, para não ver em si e nos outros, nas pessoas e nas coisas, senão Jesus e a Sua santa vontade.

Aquele que quiser vir após Mim, diz Jesus, renuncie a si mesmo. Quem desejar ter parte na Ressurreição de Jesus, consinta primeiro em morrer com Jesus; quem quiser com Jesus levantar-se glorioso do túmulo, desça primeiro aí com Ele; quem quiser salvar a sua vida, comece por perdê-la.

O esquecimento próprio é, pois, a renúncia, a humildade, a morte de si mesmo; é o desapego universal.

Quem se esqueceu de si mesmo perdeu tudo. Já não é senhor de sua vontade e sentimentos, nem do seu tempo, nem da sua saúde. Nada lhe resta. As aspirações, gestos e aptidões, tudo o que constitui a riqueza e o orgulho dos outros é posto ao serviço do Senhor.

E a alma compraz-se nesta entrega, regozija-se por se ver roubada a si mesma; receia recuperar a posse de si e pede a Jesus que nunca lho consinta. Divina loucura! Senhor, ensinai-me o esquecimento de mim mesmo.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. José Schrijvers)

terça-feira, 10 de abril de 2018

Imodéstia nas Igrejas diante de Jesus Sacramentado


Vão-se agravando mais as ingratidões dos Católicos para com Jesus Sacramentado. Porque se é excessiva a dos negligentes em assisti-l'O, qual será a daqueles que vão à Sua casa, a Seus templos, mais para ofendê-l'O que para adorá-l'O; e em Seu próprio Palácio, diante de Seus olhos, estão maquinando contra Sua vida, e, o quanto está de sua parte, dão-Lhe afrontosa morte. Quem seria tão desumano que, com a mesma mão que recebe um benefício, executa uma traição? O crocodilo é infamado como a mais ingrata fera, porque, depois que as aves o aliviam do tormento que padece com os pedaços da carne que lhe fica entre os dentes, fechando a boca, engole-as. Detestável era a ingratidão de Saul, que, quando Davi tomava na mão a harpa para curá-lo, empunhava ele a lança para feri-lo.



Que podemos dizer daqueles que, ao mesmo tempo que recebem tantas Finezas de Jesus Sacramentado, não se apartam de Sua presença sem fazer-Lhe mil agravos? Veem o amoroso Jesus ardendo de amor por eles, pobre, humilde, submisso e encerrado debaixo de uma chave, ou exposto a seus olhos, convidando-os com o alimento de Sua Carne, e oferecendo-lhes o Sangue todo de Suas veias, e então é quando mais O ultrajam com as imodéstias, ferem o coração com os pensamentos menos puros, e, ainda mais, com as ações e sinais. Pois não diremos destes que, incomparavelmente mais crueis e ingratos do que os irmãos de José, os quais, vendo-o trazer as espigas de trigo para seu sustento, então tratam de matá-lo ou de vendê-lo?

Ó Deus imortal! E quem não treme de horror ao ver e ouvir tantas insolências executadas pelos Católicos nos Sagrados Templos, à vista de Deus Sacramentado? Os judeus, é certo, deram-Lhe afrontosa morte; mas foi numa Cruz, que era lugar de suplício. Os Católicos, porém, fazem-Lhe tiro à vista de um Altar, que é lugar de adoração. Que outra coisa são aqueles olhos impuros, que, mirando pelas Igrejas, despedem setas mortais contra tantas Almas, e muito mais contra o Coração de Jesus? Que outra coisa fazem aquelas línguas que, com lascivas conversações, afogam a semente da Divina palavra, que naquele terreno devia dar multiplicado fruto? Quantas imaginações, envoltas em mil impurezas, se acham à vista do Rei das Virgens? Quantos corações ardem em vinganças diante do Deus de amor?



Não quisera referir aqui o que nossos tempos choram acerca da irreverência dos Católicos a Este Augustíssimo Sacramento. Porém me é preciso, com a confusão no rosto e com lágrimas nos olhos, apontar alguma coisa, para que se veja a maior ingratidão à vista da maior de todas Suas finezas. Houve uma boca sacrílega (pasmai) que veio à mesma mesa de Jesus Sacramentado, e ali deu um ósculo lascivo em seu ídolo. Houve um temerário (tremei) que, debaixo do mesmo Trono do Augustíssimo Sacramento, foi achado nos braços de sua Vênus. Este é o horror dos horrores. Isaías viu cobrir seu rosto os Serafins diante do Santuário. Moisés, Deus mandou-o descalçar os pés com que pisaria a terra do monte em que estava. Os israelitas não podiam chegar à Arca do Senhor pelo final de muitos caminhos. E São João Crisóstomo via os Anjos, uns com os olhos baixos, outros prostrados com reverente humildade, diante dos Sacrários. E as criaturas da terra afrontam assim um Deus Sacramentado, a Cuja vista temem e tremem as mais altas colunas do firmamento?
Mais respeita um gentil seu falso ídolo. Mais venera um maometano sua mesquita, que um Cristão o Trono de Deus Sacramentado. Os antigos germânicos não entravam nos bosques dedicados a seus ídolos, senão arrastando pesadas cadeias. Os sarracenos só com os pés descalços pisavam as lousas de seus templos. Os gregos não se atreviam a cuspir nem a mover-se enquanto duravam os sacrifícios a seus simulacros. Entrai num templo de pagãos, e vê-los-eis mais modestos durante o sacrifício de uma besta, que um Católico à vista do Sacrifício da Missa. Vereis uns prostrados por terra, não se atrevendo a levantar os olhos diante de uma serpente, que adoram; outros, cobrindo o rosto com as mãos, temendo olhar o fogo, que reconhecem por seu deus. Houve turco que se arrancou os olhos e a língua depois de ter visto o corpo do falso profeta Maomé, dizendo que não devia falar nem ver mais coisa alguma no mundo, os olhos que mereceram a vista de tal objeto.



Serão bastantes esses exemplos para confundir a nossa ingratidão? Será, porventura, mais digno de veneração o corpo do malvado Maomé, do que o Corpo de Jesus Sacramentado? Estará segura a honestidade dentro de um adoratório de gentis, e não diante de um Sacrário? Acham lugar o silêncio e a modéstia numa mesquita, e se hão de ver desterrados da casa do Deus de Majestade? Será que não se levantarão contra nós aqueles infiéis, no dia do Juízo, dizendo: Estes são os que fizeram da Igreja praça, do Templo, feira, do Santuário, casa de conversação? Nós assistimos com mais veneração ao sacrifício de um boi, do que eles ao Sacrifício de um Deus; tivemos mais respeito ao sepulcro de Maomé, do que eles ao Trono de Jesus Sacramentado. E que responderá então aquele moço lascivo, de cuja insolência estivera mais segura a casta donzela na praça do que no Sagrado Templo? Que responderá aquele soberbo, que por um vão pontilho de honra atreveu-se a lançar mão da espada diante de Deus Sacramentado? Que dirá aquela mulher profana, que não pensa em outra coisa em toda sua vida, a não ser em atavios e adornos para ser vista, e galanteia nas Igrejas, para ser laço a temerários corações, e pedra de escândalo a tantas Almas?



É coisa lastimosa, sem dúvida, ver o grande abuso de nossos tempos. Ver entrar os Católicos na Casa do Crucificado, na presença de Jesus Sacramentado, mais para fazer ostentação das galas do que para implorar o perdão de seus pecados. Ao invés de arrastar cadeias de compunção, como reus, cingir-se de diamantes e pérolas, como triunfadores. Ao invés de cobrir sua cabeça, como mandou o Apóstolo, por respeito e reverência dos Anjos, descobrir imodestamente os peitos, para dar gosto aos demônios. Onde estás, Santo Imperador Teodósio, que nunca entraste na Igreja sem tirar a coroa da cabeça e a espada do cinto? Onde estás, Santa Imperatriz Inês, que nunca foste vista aos pés do Santuário, senão vestida de pobres e desprezíveis lãs?

Fonte:
http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fuga da ociosidade - Santo Afonso de Ligório


É preciso notar aqui que é um engano acreditar que o trabalho é nocivo à saúde do corpo, quando é certo que o exercício corporal ajuda muito a conservar a saúde.


 Muitas vezes o que faz apresentar 
escusas do trabalho, não é tanto o perigo da saúde, mas o peso e fadiga que o acompanham e que desejamos evitar. Ah! Quem lançar os olhos no Crucifixo, 
não andará esquivando-se dos trabalhos. — Um dia,  Sór Francisca do Santo Anjo, Carmelita, se lamentava de ter as mãos todas dilaceradas de tanto trabalhar, e Jesus Crucificado lhe respondeu: Francisca, olha as minhas mãos e depois lamenta-te. 

     Além disso, o trabalho é um remédio contra os enfados de solidão, e também contra as numerosas  tentações que muitas vezes assaltam os solitários. —  Sto. Antão abade achava-se um dia muito atormentado de pensamentos desonestos e ao mesmo tempo muito fatigado da solidão: não sabia o que fazer para se aliviar. Apareceu-lhe então um anjo, que o conduziu ao pequeno jardim que havia ali perto; e, tomando uma enxadinha, começou a lavrar a terra, e, em seguida, se pôs a orar. De novo, principiou a trabalhar e depois tornou a orar. Com isto, ensinou ao santo o modo como havia de conservar a solidão e ao mesmo tempo livrar-se das tentações, passando da oração ao trabalho, e do trabalho a oração. Não se deve trabalhar sempre, mas também não se pode orar sempre, sem se arriscar a perder a cabeça, e se tornar depois absolutamente inútil para todos os exercícios espirituais. — É por isso que Sta. Teresa, depois de sua morte, apareceu à Sór Paula Maria de Jesus e  lhe recomendou que nunca abandonasse os exercícios corporais sob pretexto de fazer obras mais santas, assegurando-lhe que tais exercícios aproveitam muito para a salvação eterna. 

    De outra parte, os trabalhos manuais, quando se fazem sem paixão e sem inquietação, não impedem de fazer oração. — Sor Margarida da Cruz, arquiduquesa de Áustria e religiosa descalça de Sta. Clara, se dedicava aos ofícios mais trabalhosos do mosteiro, e dizia que, entre outros exercícios, o trabalho não é somente útil às monjas, mas também necessário, visto que não impede o coração de se elevar para Deus.

    Narra-se que S. Bernardo, um dia vendo um monge que não deixava de orar enquanto trabalhava, disse-lhe: “Continua, meu irmão, a fazer sempre o que fazes agora, e alegra-te, porque, deste modo, quando morreres, serás livre do purgatório”. O mesmo santo seguia esta prática como refere o escritor de sua vida; pois, não descuidava dos trabalhos exteriores e ao mesmo tempo se recolhia todo em Deus.


Santo Afonso de Ligório no livro: A Verdadeira Esposa de Cristo.

sábado, 7 de abril de 2018

DO AMOR DE DEUS

Não há idade na vida a que convenha mais a piedade, do que à mocidade, escreve Mgr. Dupan­loup, não só porque a piedade brilha nas frontes jovenís com mais resplendor; não só por causa do encanto inexprimível com que ela embeleza todas as qualidades naturais da infância, mas sobretudo por esta simples e profunda razão: é que a pie­dade não é outra coisa, senão o amor de Deus, e não sei que haja coração neste mundo a que seja mais fácil inspirar este amor que ao coração das crianças. Tudo aí está ainda puro, generoso, ardente: tudo aí está feito, para este nobre e santo amor, e essa bem-aventurada chama de vida acende-se com uma facilidade maravilhosa.”
Mas se o coração da criança é um santuário onde o amor divino se compraz em estabelecer a sua morada, também a inocência da primeira idade da vida reclama esse amor celeste para aí encon­trar a sua força e apoio. — «Efetivamemente, continua o ilustre bispo de Orleans, um homem já feito, pode vir a ser virtuoso, com uma religião sincera e sólida, posto que sem fervor; mas as crian­ças e os mancebos não o podem fazer, porque sem a piedade fervorosa, não têem nem bastante apoio, nem suficiente força para a sua virtude. Na sua idade, a fé não é ainda bastante profunda, nem a fidelidade bastante generosa, porque, como são corações tenros e fracos, caem facilmente, se a piedade os não sus­tentar.
Quem conhece, como eu, a fragilidade destas pequenas plantas, será também da mesma opinião. Sim, o sopro da graça eleva-as facilmente para o Céu, mas o sopro do vício, fá-las cair desamparadas sobre a terra. Quem lhes há de dar a força, para resistirem aos ataques do respeito humano, às influências dos maus exemplos e dos conselhos pérfi­dos, a todos os laços dum mundo corruptor e cor­rompido? Quem sustentará a sua fraqueza, sobre tantos declives e inclinações perigosas, e contra o mal que de toda a parte as cercará? Repito: se o temor e o amor de Deus, se a piedade corajosa lhes faltar, cairão infalivelmente. Despedaçar-se-ão os laços que os prendiam à virtude, e o sorriso da indiferença e do desdem, da impiedade e até do vício, será em breve visto sobre lábios frescamente tintos do sangue de seu Deus numa primeira comu­nhão.»
É preciso pois que o coração da mãe seja um foco que aqueça e abrase, com seus ardores, o cora­ção da criança. Convém que esse pequeno ser, que começa a sorrir, e por conseqüência a compreen­der, não repouse nos braços maternos, sem ler nos olhares e nas feições de sua mãe alguma coisa de celeste que a faça elevar até ao amor de Deus.
Seria preciso que as palavras da mulher cristã fossem como um raio ardente que inflamasse a alma da criança com o fogo da caridade. Ó mãe, falai de Deus, dos Seus benefícios, das Suas perfeições infini­tas a vosso filho e a vossa filha, logo desde o berço. Não entenderão a vossa linguagem, direis vós? Não importa. Deus vos entenderá e vos abençoará. Não gostaria um rei da terra de ver que as mulheres fala­vam das suas glórias aos filhos que elas embalam? Dir-lhes-eis muitas vezes: — «Meu filho, amas o teu pai e a tua mãe, porque te deram a vida, e porque te tratam com solicitude cheia de ternura; mas tens um Pai, no Céu, ao qual és incomparavelmente mais devedor do que aos pais da terra; é a Ele que deves a existência: foi Ele que te deu corpo, alma, pais, tudo o que és e tudo o que amas; sua benéfica mão é que te sustenta; o seu poder é que te con­serva. Destina-te o Céu, onde te dará uma torrente de delícias, por toda a eternidade. São infinitas para contigo as suas bondades, sendo impossível contar o número e o valor dos seus benefícios. Seria, pois, uma ingratidão não amares de todo o teu coração Aquele a quem deves tudo. Já se viram animais ferozes a seguir por toda a parte e servir fielmente quem lhes prestou algum serviço, como aquele que arrancou o espinho que fazia sofrer um leão; seria pois mais insensível que esses animais, quem não ser­visse Aquele que nos encheu de tantos favores. Ah! meu filho, não possuirmos nós os corações de todos os homens, para os oferecermos a Deus, e nem assim poderíamos amá-lO como Ele merece!
«Amas também as pessoas e as coisas, em que notas qualidades que te agradam; de tudo quanto notaste de bom, de belo, de perfeito, nos homens, no Céu e na terra, nada te pode dar uma idéia das perfeições infinitas de Deus. A Sua beleza é infinitamente mais brilhante que a do sol e de todas as estrelas conjuntamente; a Sua bondade é incompreensível; o Seu poder é sem limites. Se, pois o nosso coração se apraz em amar o que é belo, o que é santo, o que é perfeito, como é que ele não amará Aquele que é a própria beleza, bondade e perfeição?
«Queres amar a Deus, querida alma? Sim, sem dúvida; foi para isso que Ele te criou. Pois bem, mos­tra-Lhe o teu amor, por meio de obras. Não só O não ofendas nunca pelo pecado, mas faze tudo quanto Ele te ordena; não vivas senão para Lhe agradar; ama a oração e tudo o que honra este bom Senhor.»
Depois destas lições ou doutras semelhantes, a mãe segundo a vontade de Deus fará sentir a seus filhos a desgraça dos que não amam o Senhor, e a felicidade de todos quantos O servem. Dir-lhes-á, com S. Paulo: — «A piedade é útil para tudo, tanto para nossa consolação neste mundo, como para nossa salvação eterna.» —«As crianças, diz ainda o bispo de Ordeans, imaginam de ordinário a piedade como uma coisa triste e sem atividade, isto é fa­zem dela uma idéia sombria; enquanto que a li­berdade, o brinquedo e o desregramento se lhes afiguram muitíssimo mais agradáveis. Não há coisa pior. É preciso, pelo contrário, que se lhes mos­tre a religião com um rosto meigo e sedutor, sob as feições duma mãe terna que não pensa senão na ventura de seus filhos.»
«A piedade nada tem de austero, nem de afe­tado; é ela que dá os verdadeiros prazeres; só ela os sabe temperar, para os tornar puros e dura­douros. Sabe misturar os brinquedos e os risos com as ocupações graves e sérias; prepara o pra­zer pelo trabalho, e descansa do trabalho pelo prazer. A piedade não se envergonha de parecer alegre, quando isso é necessário.»
Quando tratarmos da oração e dos sacramentos, falaremos dos exercícios mais próprios para con­servar a piedade no coração das crianças.
A Mãe segundo a vontade de Deus – Pe. J. Berthier, M.S

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Catecismo Ilustrado - Parte 38 4º Mandamento de Deus: Honrar pai e mãe


Catecismo Ilustrado - Parte 38

Os Mandamentos

4º Mandamento de Deus (continuação): Honrar pai e mãe

1. Com a designação de “pai e mãe” entende-se ainda: 1º todos os superiores eclesiásticos; 2º as autoridades civis e magistrados; 3º os tutores, os patrões, os professores; 4º as pessoas idosas e as de conhecida virtude.

2. Este mandamento obriga-nos também a honrar todos os nossos parentes.

3. Para com os superiores eclesiásticos, estamos nós obrigados a amá-los, reverenciá-los, obedecer-lhes e ajudá-los no exercício do seu santo ministério.

4. Eis aqui o que está escrito dos Bispos e dos Presbíteros: “Que os sacerdotes que governam bem sejam duplamente honrados, principalmente os que trabalham pregando e instruindo”. Os Gálatas deram ao Apóstolo São Paulo tantas provas de estima e respeito que São Paulo diz deles: “Sim, afirmo que estavam os Gálatas prontos, se a coisa fosse possível, a tirar os olhos para nos dar”.

5. Devemos contribuir para o sustento do clero. São Paulo diz: “Qual é o soldado que faz a guerra à sua custa?” E no livro do Eclesiástico lê-se: “Honrai os sacerdotes, purificai-vos com as oblações oferecidas pelas vossas mãos, dai-lhes a parte de primícias e das vítimas expiatórias, como foi ordenado pela lei”.

6. O primeiro superior eclesiástico é o Papa, Vigário de Jesus Cristo na Terra. Os infiéis devem socorrê-Lo nas suas necessidades, principalmente agora; porque lhe tiraram injustamente os Estados Pontifícios, e não tem outros recursos senão as esmolas dos fiéis.

7. O dever principal para com os superiores eclesiásticos afim de os ajudar no seu santo ministério é a oração. Devemos pois rogar a Deus por eles, para que lhes dê as graças necessárias para tão santo e tão difícil ministério como é o de salvar as almas.

8. O quarto mandamento manda também honrar as autoridades civis, que são os reis, os presidentes e os seus representantes.
O Apóstolo São Paulo, na sua epístola aos Romanos, trata largamente daquele dever e diz também que devemos rezar por eles.
São Pedro diz: “Sede submissos, por amor de Deus, a todo o homem constituído em autoridade, seja o Rei, como chefe da nação, seja aos governadores ou juízes como seus representantes. Quando os honramos, a Deus honramos”.

9. Nunca é permitida a revolta contra a autoridade, porque: 1º Deus o proíbe; 2º a revolta é para a sociedade uma fonte de calamidades.

10. Nas eleições, devemos, em consciência, dar o nosso voto aos mais dignos, aos que respeitam a Deus, a religião, o direito e todas as liberdades razoáveis e cristãs.

11. Todo cristão deve amar a sua Pátria, trabalhar para o bem comum, e estar pronto a sacrificar a vida, se for preciso, para a salvação da Pátria.

12. Devemos obediência aos superiores em tudo o que não seja contrário à lei de Deus.

Explicação da gravura

13. Na parte superior à esquerda, vemos o Papa, cercado de Bispos e Sacerdotes, recebendo as homenagens dos reis, dos magistrados, dos soldados e do povo.

14. À direita, vê-se um rei, recebendo também estas homenagens dos seus súditos.

15. No meio da gravura, vê-se Rute trazendo à sua sogra pobre as espigas que recolheu para sustentá-la.

16. Na parte inferior esquerda, veem-se meninos e meninas na aula ouvindo com atenção e respeito as lições dos seus professores.


17. À direita, vê-se o tremendo castigo de 42 meninos que injuriaram o profeta Eliseu e foram comidos pelos ursos.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Quereis ser santos? Tornai-vos interiores...


Quereis ser santos? Tornai-vos interiores. Sois a isto obrigados por vossa vocação adoradora; como pretendeis orar sem este espírito interior? Se não podeis passar um instante sem livro na presença de Nosso Senhor, se nada Lhe sabeis dizer de vosso coração, que vindes fazer aos seus pés? Que tristeza, nunca falar por si mesmo e andar sempre pedindo emprestado pensamentos e palavras dos outros!



Oh! trabalhai para vos tornardes interiores. Não é possível, de certo, ser tanto quanto Jesus e Maria, porém cada qual poderá conseguir o grau que lhe proporcionam sua graça e sua virtude. Sem isto jamais recebereis consolações nem incentivo, e vos sentireis infelizes na adoração.
Para ser adorador é necessário ser interior, saber conversar no genuflexório, consultar Nosso Senhor e esperar sua resposta; é preciso, em resumo, gozar de Deus. Devemos nos sentir felizes em sua companhia, felizes em seu serviço; precisamos gozar de sua intimidade tão suave e tão animadora! 




Mas, para atingir o Coração e o amor de Jesus, é mister que a alma seja interior. E o que é isto, afinal? É amar bastante, de modo a poder conversar e viver com Jesus; porém não se faz Ele ouvir pelos nossos ouvidos naturais, nem se deixa ver pelos nossos olhos do corpo; fala somente à alma recolhida. Jesus no Santíssimo Sacramento é todo interior; não penetra mais os corações com o seu olhar como durante sua vida mortal, vai diretamente à alma para lhe falar em segredo. Quando vossa alma não se expande em sua presença é porque Ele não atua sobre ela; existe algum obstáculo entre ela e Jesus.




Ah! que não deixe de ser verdadeira a palavra de Nosso Senhor. Disse Ele que seu jugo é suave e o seu fardo leve; mas isto somente para quem vive de oração e de vida interior; do contrário, tornar-se-á pesado e enfadonho. Quando não somos interiores, tudo se ressente em nossa vida. Oh! como eu desejaria que se cumprisse em vós esta sentença tão perfeitamente realizada na Santíssima Virgem: "O reino de Deus está dentro de vós", reino de virtudes, de amor e de graças interiores, pelo qual começareis a ser adoradores e santos!




A erva dos campos morre todos os anos porque não tem raízes profundas, mas o carvalho, a oliveira e o cedro não morrem, porque as suas raízes penetram o seio da terra. Para perseverar, para ser forte, é mister descer até o fundo de si mesmo, cavar até atingir o próprio nada; é aí que se encontra Jesus, que também se aniquilou: exinanivit. E foi também aí que Maria O encontrou. Oh! que esta perfeita mãe da vida interior vos faça viver, a seu exemplo, em Jesus, e n'Ele permanecer eternamente.


São Pedro Julião Eymard

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Ajudar os outros em vez de os julgar

Ouvi alguns falarem mal do seu próximo e repreendi-os. Para se defenderem, esses operários do mal replicaram:

«É por caridade e por solicitude que falamos assim!» Mas eu respondi-lhes: Deixai de praticar tal caridade, pois estaríeis a chamar mentiroso ao que diz: «Afasto de Mim quem denigre em segredo o seu próximo» (Sl 100,5). 

Se amas essa pessoa como afirmas, reza em segredo por ela e não te rias do que faz. É essa maneira de amar que agrada ao Senhor; não percas isto de vista e esforça-te cuidadosamente por não julgar os pecadores. Judas pertencia ao número dos apóstolos e o ladrão fazia parte dos malfeitores, mas que espantosa mudança se deu nele num só instante! 

Responde, pois, ao que diz mal do seu próximo: «Pára, irmão! Eu próprio caio todos os dias em faltas mais graves; como poderei condenar essa pessoa?» Obterás assim um duplo proveito: curar-te-ás a ti mesmo e curarás o teu próximo. Não julgar é um atalho que conduz ao perdão dos pecados, pois está dito: «Não julgueis e não sereis julgados.» 

Alguns cometeram grandes faltas à vista de todos mas realizaram em segredo os maiores actos de virtude, de tal maneira que os seus acusadores se enganaram, dando atenção ao fumo sem verem o sol. Os críticos diligentes e severos caem nessa ilusão porque não guardam a memória nem a preocupação dos seus próprios pecados. 

Julgar os outros é usurpar sem vergonha uma prerrogativa divina; condená-los é arruinar a nossa própria alma. Tal como um bom vindimador come as uvas maduras e não colhe as verdes, assim também um espírito benevolente e sensato anota cuidadosamente todas as virtudes que vê nos outros; mas o insensato perscruta as faltas e as deficiências.

São João Clímaco (c. 575-c. 650), monge do Monte Sinai in 'A Escada Santa' (10.º degrau) 

domingo, 1 de abril de 2018

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO E A ESPERANÇA DO CRISTÃO


Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea — “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Ps. 117, 24).
Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.
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I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.
O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1).
Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a Ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com Ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)
II. Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) — “Se morrermos com Ele, com Ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!
A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus… esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)
Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine — “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.
“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.
1. 1 Cor. 15, 20.
2. Ap 5,12.
3. 2 Tim. 2, 11.
4. Io. 5, 28.
5. Iob 19, 25.
6. Or.festi curr.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

sábado, 31 de março de 2018

SÁBADO SANTO – MEDITAÇÃO PARA A TARDE


Solenidade de Maria Santíssima depois da sepultura de Jesus.
Posuit me desolatam, tota die maerore confectam — “Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” (Thren. 1, 13).
Sumário. Ah, que noite de dor foi para Maria a que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! A desolada Mãe volve os olhos em torno de si, e já não vê o seu Jesus, mas representam-se-lhe diante dos olhos todas as recordações da bela vida e da desapiedada morte do Filho. Como se não pudesse crer em seus próprios olhos: Filho, pergunta a João, aonde está o teu mestre? E à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto?… Minha alma, roga a Santíssima Virgem, que te admita a chorar consigo. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor dos teus pecados.
I. Diz São Boaventura que, depois da sepultura de Jesus, as mulheres piedosas velaram a Bem-aventurada Virgem com um manto lúgubre, que lhe cobria todo o rosto. Acrescenta São Bernardo, que na volta do sepulcro para a sua casa a pobre Mãe andava tão aflita e triste, que comovia muitos a chorarem, ainda que involuntariamente: Multos etiam invitos ad lacrimas provocabat. De modo que, por onde passava, todos aqueles que a encontravam, não podiam conter as lágrimas. Os santos discípulos e as mulheres que a acompanhavam, quase que choravam mais as penas de Maria do que a perda de seu Senhor.
Quando a Virgem passou por diante da Cruz, banhada ainda com o sangue do seu Jesus, foi a primeira a adorá-la. Ó santa Cruz, disse então, eu te beijo e te adoro, já que não és mais madeiro infame, mas trono de amor e altar de misericórdia, consagrado com o sangue do Cordeiro divino, que em ti foi imolado pela salvação do mundo. — Deixa depois a Cruz e volta à sua casa. Chegada ali, a aflita Mãe volve os olhos em torno, e não vê mais o seu Jesus; em vez da presença do querido Filho, apresentam-se-lhe aos olhos todas as recordações da sua bela vida e da sua desapiedada morte.
Recorda-se dos abraços dados ao Filho no presépio de Belém, da conversação com ele por trinta anos na casa de Nazaré; recorda-se dos mútuos afetos, dos olhares cheios de amor, das palavras de vida eterna saídas daquela boca divina. E depois se lhe representa a cena funesta presenciada naquele mesmo dia; vêem-lhe à memória os cravos, os espinhos, as carnes dilaceradas do Filho, as chagas profundas, os ossos descarnados, a boca aberta, os olhos escurecidos. E com tão funesta recordação, quem poderá dizer qual tenha sido a dor, a desolação de Maria?
II. Ah, que noite de dor foi para a Bem-aventurada Virgem aquela que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! Voltando-se a dolorosa Mãe para São João, perguntou-lhe com voz triste: Ah! Filho. Onde está o teu mestre? Depois perguntou à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto? Ó Deus! Quem no-Lo tirou?… Chora Maria, e todos os que estão com ela choram também. E tu, minha alma, não choras? Ah! Volta-te a Maria, e roga-lhe que te admita consigo a chorar. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor de teus pecados: Fac ut tecum lugeam.
Minha aflita Mãe, não vos quero deixar só a chorar; não, quero acompanhar-vos também com as minhas lágrimas. Eis a graça que hoje vos peço; alcançai-me uma memória contínua, junto com uma terna devoção para com a paixão de Jesus e a vossa; a fim de que todos os dias que me restam de vida, não me sirvam senão para chorar as vossas dores e as do meu Redentor. Espero que, na hora de minha morte, essas dores me darão confiança e força para não desesperar à vista das ofensas que tenho feito ao meu Senhor. Elas devem impetrar-me o perdão, a perseverança e o paraíso.
E Vós, † “ó meu Senhor Jesus Cristo, que para resgatar o mundo quisestes nascer, receber a circuncisão, ser condenado pelos judeus, traído por Judas com um ósculo, acorrentado, levado para o sacrifício como inocente cordeiro, arrastado com tanta ignomínia diante de Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, flagelado, esbofeteado, carregado de opróbrios, coberto de escarros, coroado de espinhos, ferido com uma cana, vendado, despojado de vossos vestidos, pregado e levantado na cruz entre dois ladrões, abeberado de fel e vinagre e traspassado por uma lança; suplico-Vos, ó Senhor, em nome dessas santas penas que venero, ainda que indigno, suplico-Vos por vossa santa cruz e morte, livrai-me do inferno e dignai-Vos levar-me para onde levastes o bom ladrão crucificado convosco, ó meu Jesus, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Assim seja.”(1) (*I 252)
  1. Ajuntando-se 5 Pais-Nosso, Aves Maria, Glória ao Pai e esta oração, pode-se ganhar uma indulgência de 300 dias uma vez por dia.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso