sábado, 22 de abril de 2017

Tradicional estudo da Bíblia


Muitos de nós, católicos tradicionais, gastamos um enorme tempo lendo blogs, estudando os documentos de liturgia e história da Igreja. Mas sinto que não gastamos tempo suficiente lendo a Bíblia









Muitos de nós, católicos tradicionais, gastamos um enorme tempo lendo blogs, estudando os documentos de liturgia e história da Igreja. Mas sinto que não gastamos tempo suficiente lendo a Bíblia. Quando eu posto algo sobre a Bíblia, penso que as pessoas não acham muito interessante porque não há controvérsia, mas apenas a Palavra de Deus.

TheGoodShepherdc1650-60byPhilippede
Se queremos ajudar a salvar a nossa Fé Católica, precisamos ser muito bem fundamentados exatamente onde nossa fé católica proveio bem como a nossa tradição. Não estou dizendo que precisamos de memorizar versículos, a fim de ser capaz de defender a Fé Católica. Estou dizendo que é preciso ser bem versado na Palavra de Deus, de modo a ser capaz de defender a nossa fé.
Alguns exemplos simples, como quando Jesus em João 6:53 diz. “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos”. Você deve se lembrar da Carta de São Francisco a todos os fiéis, quando ele cita esta passagem para dizer que é preciso ser católico e comer o Corpo e beber o Sangue de Jesus, para alcançar a salvação.
Outro exemplo é João 3: 5: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus”. Aqui Jesus deixa claro que para ser salvos temos de ser batizados e confirmados.
Mateus 16:18 “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
Holy Martyrs of Japan Church, painting of Martyrs.1
Continue estudando a sua Fé Católica, mas também supere o tédio de aprender mais sobre a Bíblia. Mais uma vez encorajo a todos que leem este blog para que tentem se reunir e estudar a Bíblia. Eu sei que você tem medo de interpretar erroneamente a Bíblia estudando por conta própria. A melhor coisa a fazer é conseguir um sacerdote tradicional para conduzi-lo. Em seguida, alguém que tenha estudado sob a direção de um bom sacerdote para ensiná-lo. Você sempre pode encontrar no google passagens difíceis à luz do entendimento tradicional das mesmas. Digite “compreensão católica tradicional do pão da vida nos escritos da Bíblia”.
Por favor, tenha cuidado em não perder muito tempo com as notícias sobre o Papa ou controvérsias tradicionais. A internet pode consumir um tempo precioso de oração importante e leitura da Bíblia. E não podemos esquecer de cumprir as obrigações diárias das nossas diferentes vocações. Muitas vezes podemos escapar de nossos deveres envolvidos em questões da Igreja. Ofereçamos os nossos deveres diários de estado como uma oração e Deus irá responder às suas orações para a restauração de Sua Igreja.

Publicado originalmente em 13 de outubro de 2013: Traditional Catholic Priest – Traditional Study of the Bible
Tradução Sensus fidei:

quinta-feira, 20 de abril de 2017

As fontes das dores da Santa Virgem



Podemos agora nos ocupar de nossa terceira questão. Quais seriam as fontes das dores da Santa Virgem? Por fontes não entendemos exatamente o mesmo que causas, mas sim os motivos íntimos de sensibilidade que se encontravam em Seu Coração e que conferiram às Suas dores aquela amargura distintiva. Quando uma mãe perde seu filho único, essa perda é para ela assaz amarga, e deve sua distinção e intensidade à circunstância de encontrar sentimentos especiais no coração materno. O menino é tão belo que sua perda parece impossível de suportar, ou então, ele promete tanto do ponto de vista intelectual e moral, ou ele morreu tão jovem, ou ainda, ele tinha alguma coisa que, humanamente falando, não lhe devia causar a morte, ou então esta se deu precisamente em um momento em que as circunstâncias a fazem mais sensível para a família do que seria em outro tempo; essas particularidades, que se poderiam multiplicar ao infinito, são como centros duma amargura particular, em torno dos quais a dor se ajunta, penetra, se estende, se dilata, se envenena, bem além da medida real da aflição. No entanto, todas essas coisas são para a mãe afligida as realidades mais cruéis, e que não se limitam a aumentar suas mágoas duma maneira imaginária ou puramente sentimental. E no que concerne à Santa Virgem, em consideração Àquele por quem Ela sofria, a aflição real jamais poderia ser além da medida. Pelo contrário, a dor humana, mesmo a dor de Maria, não poderia igualar a verdadeira causa do sofrimento nesse caso. Todavia também no Coração de Maria havia centros em torno dos quais Suas mágoas se concentravam, tornando-se ali mais penosas e produzindo dores bruscas e agudas mais violentas ainda. O que vamos agora considerar são esses centros, essas fontes especiais de amargura contínua; mas, ao mesmo tempo, não devemos nos esquecer que as perfeições do Coração de Maria ultrapassam a tal ponto a nossa inteligência, que certamente haverá várias dessas fontes de dores dilacerantes para Ela que nós não poderemos apreciar, que nós não poderemos sequer imaginar; não devemos nos esquecer que, ao atravessarmos esse país que nos é estranho, fica faltando ainda sondarmos as regiões situadas mais ao lá, regiões ainda desconhecidas, e cuja descoberta talvez constitua uma das numerosas ocupações plenas de delícias reservadas ao Céu.

A primeira das fontes de dor para Maria era o pensamento de que Ela não podia morrer com Jesus. Há não poucas mães que, em circunstâncias semelhantes, desejam vivamente a morte. Para um coração destroçado, a morte é preferível à vida. E quando a morte não constitui uma separação, mas uma união ininterrupta, uma união transferida desta terra desolada ao seio do Pai Celeste, qual mãe afligida não a consideraria um inestimável favor? Assim o foi, e no mais alto grau, para Maria. Jamais um filho foi tão querido à sua mãe terrestre quanto Jesus o foi para Maria; jamais um filho foi tão bom, tão belo, tão amável, tão verdadeiramente filho, como Ele o foi para Sua Mãe. Os direitos de pai e de mãe se concentravam à uma vez no Coração de Maria, de sorte que Jesus era duas vezes Seu Filho, duplamente Seu Filho. E quem poderia descrever os atrativos de Sua sagrada Humanidade? Quem poderia dizer como o amor de Maria se enraíza nas profundezas de Seu Coração maternal? Em outras palavras, Ele era Deus. E Ele Lhe havia obedecido durante trinta e três anos, numa união de amor tão encantadora que Maria teria mil vezes perdido a vida se Ele mesmo não A sustentasse, não moderando a doce violência do amor dEla, mas fortificando o Seu Coração com Seu poder onipotente. E Ele partia. O sol divino se escondia sob um mar de Sangue, entre nuvens pavorosas de ignomínia. Poderia Ela jamais o esquecer? Até o fim, o Calvário estará em Seu Coração. Essa seria uma lembrança que o tempo jamais apagaria, um desses horrores que a distância torna mais cortantes quando a vista os pode considerar com mais calma. E mesmo que isso não fosse assim, o fato é que Jesus já não estará junto dEla [da forma que antes], e para que viverá Ela então? O sol de Sua vida terá se posto. Foi o fim para Ela, muito mais do que teria sido se todo o mundo acabasse. Eram trevas inconcebíveis e que poderiam mesmo parecer absolutamente impossíveis, pois, como o mundo poderia continuar a existir sem Jesus? Quando Nosso Senhor fecha os olhos, pode-se figurar que todas as bênçãos são retiradas da terra e que todo o seu resplendor se muda em uma sombra fria e glacial. Quando os doces acentos de Sua voz não se puderem mais ouvir, seguramente toda a natureza guardará um silêncio que nada poderá interromper, sem os gritos hediondos do povo em delírio, que deveriam continuar a se multiplicar e a se repetir para sempre através do espaço. A terra ficaria com Pedro; Maria ficaria com João. Um seria o Apóstolo do mundo, outro o Apóstolo da Mãe. Mas Jesus teria partido.

Pode-se perguntar não somente por que Maria deveria continuar a viver, mas também como Ela viveria. Ser-Lhe-ia possível viver sem Jesus? Não, sem dúvida, se não A socorresse a Onipotência Divina. Como o amor de Maria deve ter sido prodigioso para obedecer à Vontade de Seu Filho sobre o Calvário, àquela Vontade que Lhe prescrevia a separação, àquela Vontade que Lhe obrigava a prolongar Sua vida ainda durante quinze anos dum incompreensível martírio! Ela tinha uma vez pedido a Ele para transformar a água em vinho, e Ele respondeu que Sua hora ainda não havia chegado; mas, em todo caso, cumprindo-se o desejo de Maria, o milagre foi realizado, sem que Ela tivesse necessidade de renovar Seu pedido. Ela não poderia esquecer-se disso sobre o Calvário; afinal, a prolongação de Sua vida por mais quinze anos era conforme à Vontade de Jesus, mas, se por um momento, Ela manifestasse uma vontade contrária, teria acaso de insistir com o Filho agonizante? Uma palavra, um olhar bastaria. E por que Ele não A atenderia? Amá-lA-ia menos agora do que em Caná da Galiléia? Seria melhor ficar e cumprir a Vontade de Jesus, ou partir com Ele e se alegrar com Sua glória? Sim; é Ela mais santa ficando do que partindo, pois a santidade, à medida que cresce, perde sua própria vontade na Vontade de Deus. Por outro lado, descer, como Seu Filho, os abismos da dor, não seria, por assim dizer, encantador? Assim como Jesus desejava os maiores sofrimentos e experimentou como que um desgosto divino pela insuficiência mesmo dos excessos do Calvário, assim Maria desejava sofrer mais, e Jesus concede a Ela algo que Seu Pai não concedera a Ele mesmo: uma outra Paixão de cento e oitenta meses. É preciso reconhecer, pois, que o fato de não morrer com Jesus constituiu para Maria uma dor especial, que não podemos apreciar devidamente, que não podemos contemplar senão de longe. Sua união com Jesus fôra tão habitual, tão estreita e tão essencial, que havia se tornado a Sua vida; e agora, no mais importante de todos os atos, Ela não poderia estar unida a Ele [isto é, não poderia morrer com Ele no Calvário]. Via-se obrigada a diferir dEle, quando o que Ela mais ardentemente desejava era se assemelhar a Ele. Mais ainda: essa falta de união deveria resultar numa verdadeira separação, e quem poderia apreciar o que essa separação significava para Maria? Entretanto, Seu amor pelo menos obteve a prerrogativa de sofrer por mais tempo que Nosso Senhor e de continuar a servi-lO por um espaço de tempo quase igual à metade daquele que Ele havia vivido. Teríamos de avançar bem longe na santidade mais eminente, para entender um pouco como Ela jamais esteve tão intimamente unida a Seu Filho, quanto na hora em que O deixou partir sem Ela.
Uma outra fonte de dores que aumentaram a amargura dos sofrimentos de Maria, foi o conhecimento que Ela tinha de que Suas próprias dores aumentavam as de Jesus, e faziam mesmo com que a agonia dEle se tornasse mais cruel. Entre os sofrimentos de Seu Filho não havia um sequer que, pelo alívio do qual, Ela desse o mundo. Nenhum opróbrio era infligido a Jesus sem atingir a alma de Maria, sem fazer sangrar o Seu Coração. Quando os golpes e as blasfêmias, os insultos, as zombarias e os maus tratos se multiplicavam contra Nosso Senhor, cada nova violência afigurava-se à Maria o limite do que Ela poderia suportar; parecia-Lhe então que uma gota a mais e o mar de Suas dores transbordaria. E Ela percebia que a vista de Seu Coração amargurado, sem cessar presente aos olhos de Seu Filho, era para Ele mais terrível do que a flagelação, do que a coroa de espinhos, que os escarros e bofetadas. Era Ela então, por assim dizer, o principal carrasco de Seu amado Filho. Mais Ela O amava ternamente, mais Ela se unia afetuosamente a Ele, mais Ela suportava voluntariamente Seus sofrimentos, mais profundamente também a lança afiada penetrava na alma de Jesus. Ela sabia disso, e, no entanto, não estava em Seu poder restringir Suas próprias dores; Sua santidade mesma as tornava mil vezes maiores. Em vão se esforçaria Ela por ocultá-las: o próprio esforço seria uma agonia. E uma aparência calma, uma atitude firme, olhos sem lágrimas, não poderiam esconder de Jesus os abismos secretos do Coração Imaculado de Sua Mãe.

Quem poderia dizer as torturas que sofria assim o Seu generoso devotamento? Ó crueldade aparente do amor imenso, que há querido que Maria fosse uma parte integrante e preeminente da cruel Paixão do Salvador! Quem conheceria a plenitude de graças que havia em Maria?! Que confiança perfeita Ele tinha na santidade dEla! A vida não havia sido para Jesus sem alegrias, mesmo alegrias terrestres.Sua Mãe havia sido um mundo de doçuras para o Homem das dores; e agora, justamente no amor dEle pelo Pai, no amor dEle por Sua Mãe, no amor dEle por nós, Ele encontra todas aquelas doçuras mudadas num oceano de amargura, o único para estancar-Lhe a sede em meio aos mistérios de Sua terrível Paixão. Ele conhecia tão o amor de Maria, conhecia-Lhe tão bem a coragem, que não hesitou em entregar-Lhe uma cruz cujo peso se aproximava o mais possível do peso da dEle. Mas o que isso significou para Ela, apesar da conformidade de Seu Coração com a Vontade de Seu Filho, qual o excesso de aflição, qual a dor sem igual que daí resultou, somos incapazes de o dizer. Quando estão em questão as dores de Maria, perto da margem mesma o mar já é bem profundo.

Mas Maria deveria em tudo isso ser simplesmente passiva? Se, por vontade de Seu Filho, Ela devia ser uma parte da Paixão, não seria permitido a Ela pensar que, pelo menos, o carinho de Seu amor traria algum alívio aos sofrimentos de Seu Filho? Ela estava muito perto do Verbo Encarnado para não compreender a estranha união da mais viva pena com a mais viva alegria, que foi sempre o estado regular da alma de Jesus sobre a terra; e o amor duma tal Mãe, amor mais profundo que as fontes mesmas da aflição, não poderia tornar-se uma fonte de alegria para o Coração de Seu Filho? O devotamento heróico da Mãe deveria certamente causar ao Filho a mais deliciosa satisfação. E, no entanto, nos aventuramos a supor que não foi assim. As analogias da Paixão nos parecem todas indicar o contrário. Jesus afasta, então, de Sua natureza inferior a felicidade sensível resultante da visão beatífica; Ele se despoja e se separa de tudo aquilo que possa consolá-lO. O desamparo por parte do Pai é um abismo no qual Jesus se lança voluntariamente; Ele não poderia, pois, permitir que o amor de Sua Mãe O ajudasse e O consolasse. Seria difícil de imaginar como Ele poderia conservar, em meio àquelas trevas, a mais grande alegria terrestre de Sua Humanidade sagrada. Seria, com efeito, uma falta de harmonia com a Paixão, com aquela desolação tão completa e sombria em que Ele se encontrava, e que foi a mais terrível das desolações espirituais que um homem jamais conheceu, mais terrível para Ele, o Salvador sem pecado, do que havia sido para Caim a terra inóspita com todas as suas formas e suas sombras de horror, quando, com as mãos tintas de sangue e o coração apodrecido, ele a vagava torturado pelos remorsos. Não, Maria não podia pensar que, naquela hora, Seu amor fosse algum consolo ao Coração sagrado de Seu Filho. Mas não poderia Ela, ao menos, dispensar-Lhe algum cuidado maternal? Oh! Seus desvelos não poderiam ser outros que aqueles dispensados pela mãe dos Macabeus. Os espinhos faziam correr lenta e penosamente o Sangue sobre os olhos de Jesus, e Maria não podia se aproximar para enxugar o Sangue dAquele cuja função especial era enxugar, para sempre, as lágrimas de todos os olhos. Os lábios de Jesus são ressequidos pela sede, descorados, rachados; mas Ela não pode umedecer nem por um instante, com Seu véu úmido, os lábios de Seu Filho, cujo Sangue não cessará de refrescar doravante milhares de almas, entre os fogos do Purgatório. Esta cabeça dolorida, sem nenhum travesseiro para recostar-se, esta bela Cabeça, para Maria a mais bela das coisas criadas, se se apóia ela para trás, os espinhos se lhe cravam; se se inclina para frente, todo o corpo se contorce mais nos pregos. E Maria não pode sustentar com Suas mãos essa cabeça tão querida e a fazer repousar ao menos alguns instantes. Não! Não havia então alívio algum, nem para Jesus, nem para Maria. Ó Mãe! Não priveis Vosso Filho de algum ponto de Sua perfeita Paixão; e vede também quanto a cada instante Ele estende para Vós, generosamente, os limites do oceano de Vossas dores!

A terceira fonte de dor para Maria foi, como vimos, o não poder aliviar a Paixão de Seu Filho. Outra causa de aflição particular para Ela foi o ser testemunha ocular da Paixão. Revelações de pessoas santas nos afirmam que, embora a Santa Virgem estivesse ausente corporalmente aos sofrimentos do Getsêmani, Ela a assistiu em espírito, bem como seguiu interiormente as várias fases da agonia de Nosso Senhor, com uma misteriosa e sobrenatural união. Ela esteve fisicamente presente à flagelação, ao momento do Ecce Homo, à subida para o Calvário, à crucifixão inteira. Parece-nos mais provável que Maria não tenha entrado na casa de Anás e Caifás, mas de perto da porta mesma Ela poderia ouvir os insultos e os golpes dados a Jesus. Que coisa tremenda para uma mãe, sobretudo para uma Mãe tão sensível e amante, seguir o único Filho num drama sangrento, passo a passo! Já teria sido horrível para Ela só o passar essas horas recolhida em alguma casa, apenas a ouvir os gritos afastados da multidão furiosa e a receber as notícias do que se passava. Mas não foi assim. Seu Filho era Deus, e o melhor a fazer, naquele momento, era estar perto dEle. Mais perto de Deus: isso vale para todos nós, mas sobretudo valia para Ela, a Mãe de Deus. Embora Sua união com Deus fosse contínua em todos os tempos e lugares, assim Ela poderia ver melhor a Jesus. Ela não podia se conceder o alívio que as mães cristãs encontram, em semelhante ocasião, no conforto da religião. Não havia distinção entre o Seu Menino querido e o Deus santíssimo que A golpeava. Sua religião e Sua dor iam pelo mesmo caminho; o Filho sofredor e o Deus santíssimo eram o mesmo objeto; isso é o que dava uma unidade esmagadora às Suas dores. Era preciso, pois, que Maria partisse e acompanhasse os passos de Jesus; que molhasse Seus pés no Sangue por Ele derramado pelo caminho. Era preciso que Ela escutasse o tétrico barulho dos golpes de açoite cortando o ar; que Ela contasse as marcas dos mesmos; que Ela deixasse penetrar em Seu Coração a variedade de sons que eles produziam e que Lhe causavam mortais angústias ao tombarem sobre o corpo sagrado de Seu Filho. Era preciso que Maria visse Jesus irrisoriamente chamado de rei dos judeus e dos gentios. Quando Pilatos, movido por uma indigna piedade, O abandona à flagelação, Maria adora a majestade real de Seu Filho, no momento mesmo em que esta é mais aniquilada sob a violência da dor. Ela tinha de ver, sobre o Calvário, os lúgubres golpes de martelo, que fincavam os pregos, dos quais os sons, amortecidos pela terna carne das mãos e pés de Jesus, traspassavam-Lhe a alma. Era-Lhe necessário escutar as sete belas palavras pronunciadas sobre a Cruz pelo Cristo, como um canto fúnebre; essas palavras duma melancolia tão suave, que teriam bastado para arrancar a alma de Maria de Seu corpo fraco e sofredor. Todas essas coisas são terríveis. Era uma Mãe de verdade! Todavia, Ela não consentiria nem por um instante que aquilo fosse diferente. Aqui está a real sublimidade de Seu Coração. Mas foi para Ela uma indizível agravação do sofrimento. E o fato é que tudo isso já estava presente aos Seus olhos, como a mais clara revelação, pelo menos desde a profecia de Simeão. Porém a sensação é qualquer coisa de pior que a previsão. E diferente. Os sentidos então traem a assistência da razão. Eles interrompem aquela tranqüilidade interior na qual as mais sombrias visões podem tomar posse da alma sem a perturbar. A visão real turva o recolhimento, que é nossa força quando sofremos. Ela impede a alma de se defender, ou a obriga aos mais penosos esforços para conservar a coragem necessária. Ademais, os sentidos são especialmente afetados pela vista, pelos sons e pelos ataques da dor; eles penetram a carne e a fazem estremecer de dor; eles torturam os nervos, gelando e fervendo o sangue, alternadamente; ferem o cérebro como punhais, e serram como um torno o coração perturbado. Foi, assim, o espetáculo mesmo da Paixão que fez o martírio de Maria, atingindo Sua alma e Seu corpo. Algo a mais do que o simples esgotamento físico após um excesso de esforço mental, porque esse espetáculo submeteu, por assim dizer, cada membro de Maria à tortura e fez de cada pulsação de Seu Coração um instrumento de dor.
Encontraremos ainda outra fonte das dores de Maria em Sua vista distinta e Sua apreciação exata do pecado. Não podemos duvidar que, independentemente da impecabilidade e da sabedoria natural de Maria, Nosso Senhor Lhe concedeu participar do conhecimento sobrenatural do pecado, de sua excessiva malícia e da ira adorável que ele excita em Deus, conhecimento esse próprio de Jesus, e que deu aos sofrimentos de Sua Paixão aquele caráter singular. Foi a vista do pecado que crucificou a alma de Jesus no jardim das oliveiras. Foi o fardo do pecado que O prostrou por terra. E foi o cálice da cólera de Seu Pai que Ele pedia, com tanta tristeza, que se afastasse dEle. Lemos que Santa Catarina de Gênova caiu desfalecida quando aprouve a Deus lhe mostrar em visão o horror real dum só pecado venial. Desmaiar Maria não podia. Ela era muito forte, muito perfeita, muito madura para semelhantes fraquezas. Seu uso da razão, que havia começado já no momento de Sua Imaculada Conceição, e que nunca mais se interrompeu nem por um só instante, não poderia ser convenientemente suspendido por alguma letargia, por algum desvanecimento. Mas deve-se crer necessariamente que, quaisquer que tenham sido os dons sobrenaturais concedidos à Santa Catarina de Gênova ou a outros santos para ver o pecado, os dons desta sorte concedidos à Santa Virgem sobrepassam-nos a mais não poder. Em verdade, se consideramos por um instante o papel que a vista penetrantíssima do pecado teve na Paixão de Nosso Senhor, e, por outro lado, a comunicação de atributos [grifo do original], por assim dizer, entre a Sua Paixão e a Compaixão de Maria, somos obrigados a supor que nossa terna Mãe foi dotada duma considerável parte dessa vista, tão estonteante e tão esmagadora para o próprio Jesus. Pessoa alguma estimava como Maria a inocência sem mácula da Vítima. Ninguém apreciava tão bem como Ela a beleza e a sublimidade da bondade dEle. Ninguém percebia melhor do que Ela a ingratidão daqueles que por Ele foram instruídos, nutridos, curados, consolados com uma paciência tão desinteressada e uma afeição tão cheia de carinho. Pessoa alguma sentia como Ela duma forma mais penetrante os excessos de barbárie cometidos naquelas horas cruéis da noite da quinta-feira santa e da manhã que se lhe seguiu. Quando todos os Seus pensamentos foram reunidos em um só, com que clareza Maria viu a variedade, a intensidade, a malignidade do pecado especial da Paixão! Mas Ela veria ainda mais.

Aos Seus olhos apareceu, sobre os ombros curvados de Seu Filho, a visão hedionda, apavorante, gigantesca, dos pecados do mundo inteiro! E ainda não era tudo. Ela via as alturas da divindade de Jesus; Ela via que era verdadeiramente a Deus que todo o pecado atingia, atacava, cobria de opróbrios e feria de morte; era como se uma luz imensa emanasse dum outro universo mais divino e viesse brilhar no momento da Paixão, espargindo suas vivas claridades sobre o pecado, de tal modo que somente Jesus e Maria o poderia suportar ver. É-nos impossível exprimir a dor causada por essa radiante luz. Poderíamos permanecer vivos se Deus nos mostrasse a nós mesmos tal como somos? É preciso mesmo que já sejamos imortais quando a hora do juízo chegar.
Mas os pecados do mundo inteiro, que se concentravam na Paixão, Maria os via todo inteiros, e a agonia que isso Lhe causava fazia sofrer milhares de mortes interiores.
Não é fácil dizer qual teria sido o ponto culminante, qual a mais profunda escuridão da Paixão. Os instrumentos da Paixão não eram todos materiais. Entre eles se encontravam a lança, os cravos, o martelo, os espinhos e os açoites. Eles representavam tanto sofrimentos intelectuais e morais quanto físicos. E, com essas três naturezas, os instrumentos de tortura foram numerosos e variados. Cada um deles feria vivamente.
Nenhum deles deve ser considerado como maior ou menor que os demais. Cada um tinha, à sua maneira, sua preeminência. Todos se elevaram tão alto que os olhos não os podem acompanhar. A Paixão foi um excesso de excessos. Tudo o que lhe diz respeito é em excesso. Isso, em grande parte, é o que a impede de ser rebaixada a uma simples epopéia de sofrimentos humanos, independentemente mesmo da divindade de Cristo.

Mas dos fatos que nela se passaram não podemos dizer quais foram mais dolorosos que os outros. Reconhecemos a sexta fonte de dor de Maria na previsão da ingratidão que os fiéis demonstrariam para com esses excessos da Paixão de nosso Salvador. A Mãe da Igreja, a Rainha dos Apóstolos, via já tudo em Seu Coração. Com efeito, a Seus olhos se desenrolava já o imenso panorama de indiferença a respeito do pecado perdoado [e que se devia expiar], de recaída no pecado mortal, de pecados veniais se expandindo como hordas inomináveis sobre toda a alma e devastando o paraíso de Deus, de negligências provenientes da frieza do coração, de imperfeições na guarda da modéstia, de vida cientemente afastada da mortificação, de desgosto [voluntário] pelas coisas espirituais, de uso muito livre e muito leviano dos grandes Sacramentos que custaram tão caro a nosso Salvador, de caracteres ciumentos e desconfiados, de uma dureza revoltante oculta sob hipócrita vaidade, e desse número infinito de seres pusilânimes dentre os quais um Santo se eleva vez por outra, como uma palmeira em meio às nuvens de areia do deserto. E tudo isso não era, todavia, senão uma visão do futuro. Onde estava Pedro? Chorava então ao abrigo de alguma gruta fora dos muros da cidade, pela abundância de graça que havia novamente recebido? Onde estava André, ele que viria a ser o modelo de todos os amantes da Cruz? Onde estava Tiago, na diocese do qual seu Mestre era então crucificado? Havia apenas a terna Madalena, havia o coração sublime de João, e havia Maria, Ela mesma, para representar o mundo sobre o Calvário. Oh! Mesmo que depois desse dia todo ser batizado se tornasse tão santo quanto um apóstolo, a Paixão ainda estaria mal recompensada! Mas, a não poder ser assim, se pelo menos os que amam a Jesus O amassem com ardor! Essas criaturas cujo coração cuja união com Deus se reduz a aproximar-se dos sacramentos raramente; homens que não freqüentam a igreja senão em dias de festa, e que, como se fossem animais abobados, hesitam indecisos entre o pastor e o mercenário, dando seu amor aos prazeres do mundo ao mesmo tempo que sua fé a Deus quando Ele faz troar Seu trovão; esses seres que se divertem sem medida sobre a terra, limitando-se a pensar na eternidade quando se encontram no leito da morte; são esses que terão o Crucificado como pai? Oh! Para o Coração generoso e heróico de Maria esse era um espetáculo tão doloroso quanto a própria Paixão. Ela via, através do lado aberto e sangrante de Jesus sobre a Cruz, o Coração do Salvador abatido por essa visão [da ingratidão humana], e esse espetáculo dava a Seu próprio Coração materno um esgotamento e um desgosto indizíveis.

Mas que diremos à vista do que iria se perder? Pensai no valor de cada gota daquele Sangue! E por que falaremos de gotas? Maria desliza em Sangue. [Marie glisse dans le Sang.] Ele escorre sobre Suas mãos e as cobre, ao pé da Cruz. O Sangue se estende como um longo tapete de púrpura entre o pé da Cruz e a coluna da flagelação. As raízes nodosas das oliveiras do Getsêmani estão vermelhas em mais de um ponto. Vede as estrelas inumeráveis, essa poeira luminosa que resplandece em meio à noite, sobre a abóbada brilhante dos céus: um só dos golpes de açoites que Nosso Senhor recebeu bastaria para resgatá-las todas, suposto que houvessem caído milhares de vezes.

Que seria, portanto, em se tratando de seis mil golpes de açoite?! Quem calculará o infinito da Redenção? E todo esse Sangue, todos esses golpes de açoite, são oferecidos por cada alma em particular; cada alma possui sua parte nessa Redenção de valor infinito; e, no entanto, quantas almas perdidas para toda a eternidade! Eis o preço que o Cristo há pago, e do qual Lhe roubam a recompensa. Se uma só alma pela qual essa Paixão foi suportada intencionalmente e duma forma tal como o universo nunca viu igual, a saber, por um sacrifício inconcebível de Deus para Deus mesmo, se uma só alma dessas, como dizíamos, houvesse de perecer eternamente e triunfar, por suas ofensas, sobre o amor de seu Salvador; se uma só alma houvesse de dessecar nos fogos ardentes do inferno os oceanos do Sangue divino, que angústia isso já seria para o sagrado Coração de Jesus! Tal visão arrancar-Lhe-ia um grito maior que aquele que se escapou do coração terno e delicado de Jacó, quando lhe apresentaram a túnica de José coberta de manchas de sangue. Que dor sofreria, então, o Salvador, sendo que certamente não só uma alma, senão milhões e milhões deveriam se perder? E, todavia, suspenso na Cruz, Ele não se arrepende de Seu suplício. Isso é tudo o que podemos dizer. Mas Ele sofre uma outra crucificação invisível e muito mais cruel ainda do que aquela do madeiro, do ferro, do sangue, do título irrisório que Lhe afixaram. Isso tudo não foi senão crucificar um Coração já crucificado, supliciado pelo pensamento da multidão inumerável daqueles que se separariam dEle, que cessariam de ser Seus membros e se perderiam; daqueles que a inveja triunfante e a raiva de Satanás separariam dEle cruelmente, como que desmembrando-O duma maneira irremediável. ‘Não Lhe quebrarão osso algum’. [grifo do original] Mas os ossos de Sua alma foram todos quebrados por essa cruel Paixão interior. Nesta sombria agonia, neste cálice particular, Maria teve também a Sua parte. Se nesse momento Ela pode distinguir o quanto esse pensamento Lhe fazia sofrer por causa de Seu imenso amor a Jesus e o quanto Lhe fazia sofrer por causa de Seu imenso amor às almas, então Ela terá visto dois abismos separados e assustadores, e nos quais, já meio morta de angústia, Ela iria entrar voluntariamente, apesar do horror que sentia.

Tais foram as sete fontes das dores de Maria, na origem das quais está ainda a fonte principal, a raiz de todas as outras, quer dizer, a beleza incomparável de nosso querido Salvador. É dela que brotava cada um desses sofrimentos tão vivos e tão dolorosos. Ela agravava tudo, mas sem poder haver exagero, porque ela não podia fazer nada maior do que ela mesma. Maria mesma não conhecia toda essa beleza, que é de fato incompreensível, absolutamente incompreensível em si mesma. Mas o que Maria conhecia já era tão além da nossa capacidade, que nem isso o podemos compreender. E, no entanto, nós podemos dizer grandes coisas sobre a beleza de nosso Salvador, e mesmo conceber pensamentos que sobrepassam todas as palavras; e, se mesmo os pensamentos vêm a faltar, podemos então chorar, verter lágrimas numa celestial comoção. Podemos ser consumidos pelo amor e morrer da beleza de Jesus; chegaremos assim ao posto de Maria, mas não teremos nunca a inteligência que Ela tinha da infinita beleza de Jesus. Lá nas profundezas e abismos incomensuráveis do Coração de Maria, essa beleza era um oceano que, às vezes, se sublevava, transbordando em outros mares situados mais abaixo, produzindo ondas dum amargor insuportável.

Ao Pé da Cruz, Padre Faber 

Fonte:

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria



Podemos agora perguntar por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria? Seria respeitoso entregar-nos a tal pesquisa? Todas as coisas feitas com amor são feitas respeitosamente. Se procuramos sabê-lo, não é por duvidarmos, ou por querermos que Deus nos preste conta de Seus atos, nem por pensarmos que temos o direito de sabê-lo. Mas nos informamos para adquirir novos conhecimentos e transformá-los em um novo amor. Pode ser que não haja uma só obra de Deus cujos motivos nos sejam conhecidos ou ao alcance de nossa inteligência, se Ele mesmo não se digna nos instruir. As obras que Deus realiza emanam de profundezas infinitas. A experiência, porém, nos demonstra que quanto mais conhecemos, mais amamos. É por isso que nos lançamos a investigar coisas que só o amor nos dá o direito e a coragem de aprofundar. Por que Deus permitiu os sofrimentos de Sua Mãe, duma Mãe que Ele amava duma maneira inexprimível, que era sem pecado, que não tinha nada a expiar pela penitência, e da qual as lágrimas não eram necessárias para a redenção do mundo, bastando para tanto o Preciosíssimo Sangue? As razões que vemos de imediato são estas que apresentaremos aqui. Primeiramente, o Seu amor por Ela. O amor pode fazer uma oferta melhor que o dom de si mesmo?

Ora, em Jesus tudo era sofrimento. Mesmo nas grandezas terrestres, os mais altos destinos não passam sempre por gloriosos sofrimentos e provas extraordinárias? E quanto houve de humano e terrestre, embora eminentemente celeste, nesses trinta anos! A mesma lei que envolve Jesus, envolve Maria. E Ela não podia ter de outra coisa um mais ardente desejo em Sua alma tranqüila. Mas essa lei é uma lei de sofrimento, de expiação, de ignomínia, de uma abjeção que beira o aniquilamento. Ela poderia ser um simples instrumento, ou antes, uma Mãe, se Ela ficasse separada de todas essas coisas, se Ela permanecesse, como uma paisagem tranqüila e plana, iluminada pelo Sol, estranha à gloriosa tempestade do Calvário, novo Sinai, bem mais árduo e mais terrível que o antigo. Não é assim para os que estão longe de Jesus? Todavia não é o costume de Seu amor manifestar-se justamente através da Cruz? Jesus deixa o Céu porque o sofrimento Lhe é como um paraíso exclusivamente terrestre; e Ele ama tanto esse paraíso, que se pode bem entender que aqueles que O amam, amarão também o Éden do sofrimento. As grandes graças são como que cadeias de montanhas formadas pelas elevações subterrâneas da dor. As coroas dos Mártires, pois, pertencem-lhes de direito. Maria deveria, acaso, ser privada dessas coroas? Mas, por que gastar tantas palavras sendo que basta apelar para nossos instintos cristãos? A que se assemelharia Maria sem o sofrimento? Esta idéia não implicaria em nada menos do que a desaparição da Senhora do seio da Igreja. Uma Encarnação isenta da dor teria como conseqüência uma Mãe igualmente isenta da dor; mas o Infante de Belém, entregue ao sofrimento, envolveu Sua Mãe com os mesmos liames da dor que envolviam a Ele mesmo. A violência do martírio de Maria vem da perfeição do amor filial de Jesus por Ela. O aumento dos méritos da Santa Virgem foi outra razão de Seus sofrimentos; pois jamais se acumula tanto mérito nesta vida quanto no sofrimento. A qualidade de Mãe de Deus não bastaria para Maria ser elevada ao Céu sem a graça santificante que precedeu e seguiu a dignidade da maternidade divina. A grandeza desta dignidade é uma prova da grandeza da graça nEla, porque, nos desígnios de Deus, as duas coisas são inseparáveis. Assim, a dignidade que conhecemos é um sinal da graça que ignoramos. A elevação de Maria devia depender de Seus méritos, e estes deveriam ser adquiridos por meio de uma longa carreira de sofrimentos. Oh! Que dirá acerca disso a multidão arrebatada que povoa atualmente o Céu, sobretudo a alma de nossa Mãe querida, na qual Ela mesma reconhece as recompensas especiais de cada dor em particular, a coroa especial de cada ação sobrenatural! Apesar do prodigioso excesso da recompensa, Ela distingue em detalhe a correspondência entre esta e cada dor em particular; Ela vê como Suas recompensas nascem, por assim dizer, de Suas dores, duma maneira sobrenatural. Pois a graça não é outra coisa que a glória. Apenas que a graça é a glória no exílio, enquanto que a glória é a graça na pátria. A graça é o sólido tesouro; a glória é somente a alegria e o triunfo. De sorte que esta grande Compaixão de Maria é elevada à glória pelo caminho ordinário e legítimo do reino dos céus. Sessenta e três anos de alegrias extáticas não teriam, na ordem atual dos desígnios de Deus, elevado este trono maternal a uma tão extraordinária proximidade de Deus. A Rainha dos Céus deve necessariamente ser tratada como rainha [também na questão do sofrimento], para que Ela esteja o mais possível preparada quando o dia de Sua coroação chegar. O triunfo da Assunção será devido às amarguras da Compaixão.

Há sempre uma aparência de crueldade nos altos destinos. A sorte arrasta os seus favoritos através de espadas nuas. O alto destino de Maria não podia ser isento desse aspecto de crueldade, e o que parece tão cruel é a natureza divina de Seu Filho. Isso é conseqüência da infinita perfeição de Deus, que deve necessariamente se bastar a si mesmo e ser Ele mesmo Seu próprio fim. Assim Deus é também o fim supremo de todas as criaturas e não há outro fim verdadeiro além dEle. É portanto uma parte de Sua magnificência, uma parte de Seu profundo amor, que todas as coisas tenham sido feitas para Ele, e que Sua glória seja superior a toda outra glória. A maior misericórdia de Deus para com Suas criaturas é a de lhes permitir contribuir para Sua glória, e de poderem fazê-lo duma maneira inteligente e livre. Bem considerado, a criatura não pode ter uma felicidade maior que a de aumentar a glória de Seu Criador.

Eis aí a única verdadeira satisfação ao mesmo tempo da inteligência e da vontade, a única coisa que pode ser para a criatura um eterno repouso. Essa foi outra razão pela qual a permissão de sofrer foi dada a Maria: Deus pôde assim receber dEla uma glória maior, não somente do que de qualquer outra criatura, como de todas as criaturas reunidas, à exceção somente da natureza criada de Nosso Senhor. Maria teve o maravilhoso privilégio de espelhar em Sua pessoa toda a criação e de ultrapassá-la mesmo, duma forma excelente e absoluta, através do louvor e da adoração, da glória e do culto rendido ao Criador. Quando Ela escalava alturas assustadoras, situadas bem acima da capacidade dos sentimentos e da inteligência dos Santos, quando Ela vencia torrentes profundas de sangue e de lágrimas, e ultrapassava ondas semeadas de obstáculos e de rochas, Maria estava repleta de graças poderosas, que exigiam uma extrema correspondência à Vontade Divina, mas Ela não recebeu de Jesus nenhum dom ao qual atribuísse maior valor do que a Sua própria dolorosa Compaixão. Nem por um mundo Ela quereria ser privada da menor circunstância que pudesse agravar Sua dor! Mesmo no auge de Suas aflições Ela se alegrava, em espírito de profunda adoração à inexorável soberania de Deus. Esse Deus que seria suspenso, e que era Seu Filho. Era esse o Crucificado pálido, desfalecido, fraco e ensangüentado, do qual a glória, mais vasta do o mais vasto oceano que envolve o mundo, queria Ela ainda aumentar, com uma complacência incompreensível, formada por torrentes de sobrenatural bondade e de santidade consumada que as espadas afiadas da dor faziam jorrar de Seu Coração Imaculado. Foi Ela, por assim dizer, que pagou a dívida de todos os Santos para com a Paixão de Jesus, dívida que eles jamais poderiam pagar. Maria ao pé da Cruz era o mundo em adoração; pois que outra criatura adoraria então a Jesus em Seu abatimento?

E toda esta [aparente] crueldade dum Deus zeloso de Sua glória, esta sede infinita de possuir Suas criaturas, era para Maria a perfeição das delícias e o supremo exercício da realeza, ao passo que, da parte de Seu divino Filho, era a inefável efusão de amor da qual Ela receberia as torrentes depois da noite da Encarnação. A Igreja seria outra coisa diversa do que ela é se o culto das dores de Maria não formasse uma parte de sua beleza, de seu tesouro e de seu poder junto a Deus. Podemos pensar com menos confusão em nossa dívida para com a Paixão de Nosso Senhor quando consideramos a dor com a qual esta Mãe a honrou [por nós], dor que não se assemelha a nenhuma outra, a não ser àquela de Seu Filho mesmo.

Assim encontramos também a nossa alegria nessas dores. Maria sofreu por amor de nós, tanto quanto por amor de Seu Filho. Não deve ser Ela, pois, com efeito, a Mãe da consolação, o refúgio dos aflitos? Era preciso, para isso, que Ela descesse às profundezas de todas as dores que pode sentir o coração humano. Tanto quanto possível a uma simples criatura, era preciso que Ela as medisse todas e as experimentasse todas, sem exceptuar mesmo a dor que provém do pecado, ao qual nós estamos sujeitos e do qual Ela é isenta. Era preciso que Ela conhecesse o peso de nossos fardos e todo o gênero de misérias que cada um deles traz consigo. Deveria ser para Ela uma ciência o conhecer com exatidão as consolações que exigem nossos fracos corações em meio às suas diferentes provas, e de reconhecer o que alivia e acalma nossos sofrimentos nas milhares de circunstâncias diversas e desencontradas onde somos provados. Nosso Senhor não nos resgatou de nossos pecados por uma aparição brilhante nos céus, por uma visão passageira da Cruz observada apenas do Tabor no esplendor distante do firmamento, nem por uma absolvição pronunciada uma vez por todas do alto do Carmelo, voltado para o mar e para nosso distante ocidente. Para Ele a Redenção poderia ser tão fácil quanto a Criação. Todavia Ele realizou nossa salvação ao preço de longos anos, de sofrimentos infinitos, de abismos de ignomínia, através da efusão de Seu Sangue e das inexprimíveis amarguras de Sua Alma. Ele ganha nossa salvação, Ele a merece, Ele luta para a conquistar e não obtém êxito senão nos prodígios de Sua Paixão. E nada disso era necessário, sem dúvida: uma palavra, uma lágrima, um olhar Seu bastaria para nos redimir. Bastaria mesmo um simples ato da Vontade de Deus, com ou sem a Encarnação. Mas foi de Seu agrado que fosse assim. Em Sua Sabedoria Infinita, Ele não quis se apoiar apenas em Sua Onipotência, mas escolheu uma outra via.

Assim também com Maria. Ela não foi tornada duma só vez Mãe dos aflitos, como por uma nomeação. Ela não devia tornar-se a Consoladora dos que sofrem, por um simples decreto da Vontade Divina. Poderia ser assim, mas não foi. Sua qualidade de Mãe dos homens é como uma longa e penosa conseqüência de Sua divina Maternidade. Para a adquirir e a merecer, Ela trabalhou, Ela sofreu, Ela suportou enormes fardos de dor e, por fim, obteve-a sobre o Calvário. Não a mereceu estritamente falando, como Jesus mereceu a salvação do mundo, pois esta qualidade [de Mãe dos homens] é uma parte da salvação merecida pelo Salvador. Mas Ela a mereceu tanto quanto uma criatura o poderia, e quando Ela se aproximava de Sua meta, Deus veio com Sua graça ao encontro d’Ela. E como era necessário para nós, portanto, que Deus permitisse os sofrimentos de Maria! Que seria o oceano das dores humanas sem esta espécie de claridade lunar que Maria resplandece? O oceano, com as nuvens sombrias e espessas que sobre ele se abatem, não difere mais das magníficas planícies de vegetação e ondas que se atiram sobre as rochas sob o sol, do que a triste extensão das mágoas sucessivas da vida, sem a doce a atraente luz que recebe do amor de Maria, diferiria da nossa vida presente, passada ao abrigo de Seu trono maternal. Quantos prantos Ela já não enxugou de nossos olhos? Quantas lágrimas amargas Ela já não nos tornou doces? E depois, a velhice chega, o círculo daqueles que amamos diminui a cada ano, a doença, a morte nos aguardam. Questionaremos ainda o tesouro de consolações que o Coração Imaculado de Maria em si encerra para nós? Foi com inteira satisfação desse Coração, e para o nosso bem, que Deus Lhe permitiu sofrer, a fim de que Ela pudesse ser realmente a Mãe dos aflitos, pois Suas dores a cada instante Lhe lembram as nossas. A medida do que podemos sofrer é pequena, mas como foi grande o peso das dores que Ela suportou, e como as suportou nobremente!

Nosso Senhor foi nossa salvação e nosso exemplo. Ele resgatou o mundo unicamente através de Seu Preciosíssimo Sangue. Somente Seus méritos nos salvaram. Suas prerrogativas, como Redentor, são únicas. Mesmo Sua Mãe tinha de ser resgatada, e Ela o foi, duma maneira diferente e mais sublime, preventiva e não reparativa, por meio da incomparável graça da Imaculada Conceição, e não por uma regeneração após um estado de culpa. No entanto, foi a Vontade de Nosso Senhor que Sua Mãe, Sua cooperação, Seu consentimento, Suas graças, Seus sofrimentos, fossem de tal modo unidos à obra da Redenção, que não os pudéssemos separar. Ele quis que a Compaixão de Maria estivesse ligada à Sua própria Paixão. E, com efeito, sem a Compaixão, Sua Paixão teria sido diferente do que foi. Ele submete de tal modo Maria à mesma lei de expiação que assumira, que, enfim, pode-se dizer com verdade, em vários sentidos, que Ela teve parte na Redenção do mundo. Mas se o que vimos de dizer é verdadeiro de Jesus Cristo considerado como Vítima expiatória, obra para a perfeição da qual a união da natureza divina com a natureza humana era necessária, é ainda mais verdadeiro para o Cristo considerado como nosso exemplo. Com a graça de Seu Filho, Maria seria a mais capaz de cumprir essa função junto com Ele, e porque Ela não é mais do que uma simples criatura humana, este exemplo nos tocava de mais perto. Assim, podemos supor que Deus permitiu as dores de Maria, para que Ela nos servisse de exemplo duma maneira a mais excelente. A dor caracteriza mais ou menos toda a vida humana, e apesar dela encerrar em si todos os meios particulares de união com Deus, ela perturba e embaraça mais que qualquer outra coisa nossas relações com Ele. A dor ataca nossa confiança em Deus, e não pode haver verdadeira adoração sem confiança. Ela faz nascer tentações contra a fé, ou as robustece quando já as encontra. Ela nos conduz a uma espécie de mau humor e insolência a respeito de Deus, faltas que provém dos abismos mesmos de nossa natureza, desses abismos mesmos donde emanam também o amor e a adoração, que elas combatem secretamente, e dos quais almejam tomar o lugar. Reconhecemos esta revolta como um autêntico fenômeno da natureza criada, quando consideramos a maneira surpreendente com a qual Deus justifica a irreverência de Jó e encontra um pecado digno de castigo nas críticas dos amigos deste, enquanto que Ele, o perscrutador dos corações, não vê nas lágrimas ardidas do patriarca nada que possa ferir a integridade de sua paciência, vendo-as, pelo contrário, em harmonia com o respeito e o amor a Ele devidos. Suportar dores pode ser a obra mais elevada, a mais árdua que nós tenhamos a realizar, e faz parte dos desígnios de Deus que o total de dores que devemos sofrer corresponda a um grau de santidade que nos faça capazes de suportá-las. É preciso que suportemos a dor duma maneira natural, mesmo quando a suportamos duma maneira sobrenatural. Ser santo não é ter a alma insensível ou dificilmente impressionável, mesmo quando essa falta de sensibilidade resulta de que os interesses religiosos estão acima dos sentimentos e penetrando-os de elevadas abstrações. Seguramente, a espiritualidade nos impede de sentir várias dores, e ninguém negará que isso já seja, sob muitos aspectos, um privilégio. Mas é preciso não confundir essa insensibilidade com a heróica paciência de suportar sofrimentos. Para ser heróico nessa matéria, é preciso que o coração esteja vivo, para que o amor divino crave nele então mais cruelmente e mais profundamente os traços que nos ferem. Ora, em tudo isso, Maria é nosso exemplo, um exemplo que há produzido tais resultados de santidade eminente e graças sobrenaturais na Igreja, que podemos sem dúvida afirmar que essa foi uma das razões pelas quais Deus permitiu o excessivo martírio da Santa Virgem.

Ousaremos ainda sugerir uma outra razão de Suas dores. Assim como a Bíblia é uma revelação escrita, Maria é, em certo sentido, uma revelação simbólica. Deus se serve de Maria para deixar claras muitas coisas que, de outra forma, permaneceriam obscuras. É uma idéia familiar aos teólogos considerar a Santa Virgem como uma espécie de imagem da Santíssima Trindade. Como Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito Santo, Ela representa, embora limitadamente por ser uma criatura, as relações das Três Pessoas divinas. Ela é, por assim dizer, um lago de águas tranqüilas e transparentes, ao seio do qual os maravilhosos atributos de Deus e as alturas dos céus, apesar de sua distância, refletem-se duma maneira distinta e fiel. Conhecemos melhor a misericórdia de Deus, Sua condescendência, Sua intimidade com as criaturas, Suas vias particulares, graças à luz que Ele fez brilhar em Maria, e melhor do que o poderíamos conhecer por outros meios. Assim, as perfeições de Deus, Sua maneira de agir para com as criaturas, o modo pelo qual se manifestam Suas graças reparadoras, a possibilidade da santidade, a fecundidade inventiva do amor divino, a maneira pela qual Deus forma os Santos, Sua conduta para com a Igreja, Sua sociedade interior com as almas que O buscam – eis algumas das coisas escritas em Maria, como inscrições hieroglíficas fáceis de decifrar à luz da fé, através da inteligente penetração da piedade. Assim, Deus A revestiu de Suas dores, como para torná-lA uma revelação completa do mistério do sofrimento.Ele fez brilhar nEla essa doutrina fecunda, de que o sofrimento, quando tem motivo as coisas divinas, é uma verdadeira conseqüência do amor. Maria não tinha cometido nenhum pecado pelo qual devesse reparar; Ela não havia sido atingida pelo castigo da queda de Eva; não estava compreendida sob a lei do pecado. Na ordem dos desígnios do Céu, Maria fôra prevista antes do decreto que permitiu o pecado. Ela também não veio ao mundo para o resgatar. Todo o sangue de Maria, essa fonte tão doce do Preciosíssimo Sangue [de Jesus], não teria sido suficiente para lavar um só pecado venial, nem para salvar a alma dum só recém-nascido. Ela devia ser simplesmente mergulhada num mar de amor inefável, e é  por isso que o dilúvio da dor passa sobre Sua alma e a envolve, da mesma forma que os rios turbulentos vêm se jogar no mar. Seus sofrimentos fecham a boca a toda lamúria. Com uma doce violência e uma força de persuasão irresistível, eles impõem silêncio a todos os filhos sofredores do Pai celeste. Os Santos não podem duvidar, então, que o sofrimento seja a mais grande semelhança com Cristo. Em meio à nossa extrema baixeza, cuja paciência assemelha-se a um tecido tão fraco que já está gasto mesmo quando ainda é novo, nós aprendemos não apenas a nos calar, mas a sofrer com doçura; pensamos mesmo, com alegria, que tempo virá em que amaremos esses sofrimentos, que são já como uma moeda de ouro com a qual Deus paga o nosso amor.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Um Lar Cristão

A Missa Tradicional construiu a Cristandade, porque, em primeira instância, ela construiu os lares cristãos















É a oração em família que fortalecerá a união de suas almas, que lhes dará força, incentivo e conforto nas dificuldades e provações e que atrairá as bênçãos do céu em seu lar.
“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, nós lhes suplicamos queridos esposos…” — disse o Papa Pio XII —”… que guardem intacta a bela tradição das famílias cristãs: a oração da noite em família. A família reúne-se, no final de cada dia, para implorar a bênção de Deus e honrar a Virgem Imaculada através da recitação do Santo Rosário… os louvores de todos aqueles que irão dormir sob o mesmo teto … “.

Complementando essa vida de oração, o lar também encontrará sua força para frequentar os sacramentos: a confissão frequente, especialmente em momentos de tentações e dificuldades, e também para frequentar o Sacramento da Eucaristia e a Santa Missa, enquanto renovação do Sacrifício Calvário. Porque a união de Nosso Senhor com a humanidade (da qual o matrimônio é a imagem) foi realizada sobre a Cruz, não devemos esquecer. É nesse momento que Nosso Senhor deu sua vida por sua Esposa Mística nascida do sangue e da água vertidos de seu Coração trespassado. Então, é a assistência frequente e fervorosa ao Santo Sacrifício da Missa que manterá e ressuscitará a graça de seu matrimônio. A Santa Missa é a pedra angular da família cristã e, portanto, ela é a fonte da civilização cristã.
Como a Missa nova atenuou de forma alarmante tudo o que pode lembrar-nos que a Missa é realmente o Sacrifício da Cruz, é preciso fundamentar seus lares na Missa Tradicional, não se pode construir sobre a areia… deve-se construir sobre a rocha. Sua fidelidade e esforços para participar da Missa Tradicional (mesmo que seja necessário levantar cedo e percorrer muitos mais quilômetros) obterão as graças de paz e bem-aventuranças em seus lares, fundamentados na Cruz de Jesus Cristo.
Pe. M.D. Roulon, O.P., Les Sacraments

segunda-feira, 17 de abril de 2017

ALMA OU CORPO? (EDUQUE O SEU FILHO DE FORMA CRISTÃ)


Antes de tudo, leitora e mãe, é teu filho uma alma. Hoje acentua-se demais o corpo e se deixa esquecida a alma da criança. Os pedagogos escandalizam-se com descuidos que prejudicam a saúde e o desenvolvimento do corpo. E bem pouco se impressionam com os erros que prejudicam os interesses e os destinos da alma. Paganismo moderno, leitora!
A pedagogia que vai da alma ao corpo, do espiritual para o material, do pensamento para o prazer, é também uma pedagogia que traz vantagens aos interesses do corpo. mulherzinha do povo que segue a pedagogia da alma é uma educadora, ao passo que o mestre que segue a do corpo jamais será um educador. É apenas um cunhador de moedas falsas. Para respeitar esta ordem mais se necessita de coragem do que de ciência.
Por isso, leitora, convence teu filho do seguinte: Um esforço intelectual, a descoberta de uma verdade, um ato de vontade, o domínio de um apetite, valem todos os facéis prazeres do corpo. Porque? Porque o menor progresso da alma é infinitamente superior aos mais vastos proveitos materiais.
Essa alma, mais nobre do que o corpo, está vivificada por uma vida sobrenatural. Teu filho é também, pelo batismo, filho de Deus. De ti recebeu a vida do corpo. Dele recebeu a vida divina da graça. Há, portanto, em teu filho duas vidas, distintas nas suas qualidades, mas tão unidas que a primeira (recebida de ti) sem a segunda (vinda de Deus) não passa de uma grande nódoa, de uma grande chaga, perdendo-se no abismo de condenação.
… Digna de todo o respeito torna-se a criança que, com a graça do batismo, é herdeira divina. Teu filho não nasceu ainda, leitora, e já deves preparar-lhe esta vida. Durante os nove meses de vida comum, que poderosa irradiação propaga no corpo e na alma da criança a presença eucarística de Jesus Cristo no coração da mãe, que é piedosa na assiduidade à Comunhão!
… A graça há de existir e também crescer na alma do teus. Ela não pode ser unicamente objeto de um culto. Há de reinar sobre as paixões e impor-lhes ordem e harmonia. Como na orquestra cada instrumento concorre para o colorido da sinfonia, assim, sob a regência da graça, os impulsos da natureza hão de se unir e ordenar harmoniosamente. Mônica, a santa progenitora de Agostinho, acreditava que quase nada diria o nome de mãe, se não desse aos filhos, juntamente com a mísera vida do tempo, a vida infinitamente bela e preciosa da eternidade.
Por causa desse parto sofria dores mais vivas e longas do que pelo primeiro, com o qual pôs no mundo uma vida mortal. Aludindo a isto, afirmava Agostinho ser ele “o filho de torrentes de lágrimas“.
Não podem acertar na educação de um cristão os pais que não sabem preferir para os filhos a vida sobrenatural à vida natural. Só educa que, sabe respeitar a escala de valores nas várias culturas. Se os hábitos adquiridos não elevam o espírito; se a inteligência e a vontade não reinam sobre os apetites; se as faculdades espirituais não são governadas pela graça – a educação é mutilada. Tão gravemente é tal, que, provavelmente, a vida será um fracasso.
O futuro de uma criança é coisa viva, animada, ameaçada por mil quedas e que, sobretudo, depende da altura da alma. Antes de tomar uma resolução, leitora e mãe, antes de regular os hábitos mais caseiros, perguntarás a ti mesma:
“Tendes minha palavra, meu ato, a respeitar a hierárquia dos valores? A formação que vou dando aos meus, neste ou naquele caso, prefere os bens do espírito aos bens do corpo, os sonbrenaturais aos bens do espírito, a verdade infinita aos reflexos dela, Deus às criaturas?”
Exercitarás teu filho não somente a sentir, mas a bem sentir; não somente a pensar, mas a bem pensar; não somente a pensar acertadamente, mas também a julgar acertadamente, não tomando as criaturas pelo que não são. Toda idolatria é um erro de juízo prático sobre o valor dos seres. Sobretudo ensinarás os teus a analisar tudo sob clarões da fé e da eternidade, sob a aprovação ou reprovação de Deus.
Finalmente, depois de ensiná-los a sentir, pensar, julgar com acerto, trabalharás para que amem acertadamente, dominando as paixões pelo amor a Deus e ao próximo.
Assim sendo, a criança é um meio de santificação para a mãe. Pois é impossível apontar e dirigir para o ideal, sem com o tempo a mãe tornar-se uma apaixonada pelo ideal. O guia dos Alpes sobe cada vez mais, à medida que faz subir os guiados…
As três chamas do lar – Pe. Geraldo Pires de Souza

quinta-feira, 13 de abril de 2017

QUINTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE

Quinta Dor de Maria Santíssima – Morte de Jesus.
Et erit vita tua quasi pendens ante te — “A tua vida estará como suspensa diante de ti” (Deut, 28, 66).
Sumário. Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo e ver todas as penas que Ele padecia, sem, contudo, Lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Ó, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos vemos nós como filhos?
I. Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cômoda; serve-lhe refrescos, e assim a própria mãe procura mitigar a própria dor. Ah, mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! Incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-Lhe algum alívio.
Maria ouviu o Filho dizer: Sitio — tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de água para Lhe mitigar a sede. Só pode dizer-Lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Filho, não tenho senão a água de minhas lágrimas.  Fili, non habeo nisi aquam lacrimarum. Via que sobre aquele leito de morte, Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-Lo para Lhe dar alívio, ao menos para O deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem O consolasse, como Ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías (1). Mas quem entre os homens O desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um O blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-O como um impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.
O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-Lo sobre a cruz lamentar-se de o Eterno Pai também O ter abandonado: Deus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (2) — “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Palavras, como disse a Bem-aventurada Virgem à Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da idéia, enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-Lo mas não podia. Pobre Mãe!
II. Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia se não oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça e por conseguinte somos filhos de suas dores: Mulier, ecce filius tuus (3) — “Mulher, eis aí teu filho”.
Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. — Desde então começou Maria a exercer para conosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egito. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem-aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?
Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu, enfim, vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com sua morte venceu o inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor Lhe servirão. Não recuseis entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a Vosso Filho. Ah, Mãe de Misericórdia! Em primeiro lugar pela morte de seu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna. (*I 245.)
  1. Is. 63, 5.
    2. Math. 27, 46
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso