sexta-feira, 17 de novembro de 2017

É por amor nosso e por causa do pecado que Jesus foi coberto de chagas



Capítulo XXV

Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras, attritus est propter scelera nostra – “Foi coberto de chagas por causa de nossas iniquidades; foi dilacerado para expiar os nossos crimes” (Is 53, 5)
O mínimo tormento sofrido por nosso Salvador era seguramente mais que suficiente para satisfazer à justiça de Deus, e apagar os pecados do mundo: mas o amor que nos tinha não se pôde contentar com isso. Afim de expiar os nossos crimes e até para nos provar a grandeza da sua ternura para conosco, o nosso Redentor quis ser, na frase de Isaías, vulneratus e attribus, isto é, coberto de chagas desde os pés até à cabeça, de tal sorte que o seu adorável corpo não oferecia parte alguma sã. Assim Isaías o compara a um leproso: Et dos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo et humilhatum (Is 53, 4).
Quando com os olhos da fé se considera Jesus todo coberto de chagas, quando se contempla o seu corpo horrivelmente rasgado e a cair em pedaços ensanguentados, é fácil compreender quão grande é o amor deste divino Salvador por nós.
Ó homem, exclama Santo Agostinho, reconhece quanto vales, aprende que reconhecimento não deves ao teu Deus; aprende qual é a tua dignidade pelo que lhe custou a resgatar-te: vê agora quão infame seria ultraja-lo ainda com teus pecados; sabe pôr um freio às tuas paixões e um termo ás tuas desordens.
Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes. Jesus, o inocente Jesus, do pecado não tinha mais do que a aparência; e ainda assim a justiça do seu divino Pai pesou sobre ele, e ei-lo despedaçado pelos golpes, coroado de espinhos, pregado num infame patíbulo.
“Ó céu! Se assim se trata o pau verde, que será do seco?”
Que será de mim, pobre pecador; de mim cujas inumeráveis iniquidades se amontoaram todas sobre a minha cabeça; de mim, que até ao presente só vivi para vos ofender, meu Deus?… Ó Jesus, misericordioso Jesus, tende piedade de mim!
“Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes”
Deu-me este bom Mestre uma excelente lição: ensinou-me por tão horrendos tormentos que o pecado não podia ficar impune; é necessário que seja punido ou pelo pecador, ou pelo próprio Deus! Se choro os pecados que cometi, se deles faço penitencia, se exerço contra mim mesmo uma santa cólera, dou-lhes a punição que merecem; se, porém, eu mesmo não quero punir por este modo, Deus, que será o meu juiz, os punirá. Mas, desgraçado de mim! porque “é terrível cair nas mãos de Deus vivo”. Para evitar a desgraça de ser apresentado com uma alma manchada de crimes a esse juiz formidando, desde hoje devo trabalhar e os apagar por uma séria penitencia e marchar sobre os vestígios do meu Salvador. Mas, ó vergonha! A vida de Jesus Cristo foi um sofrimento contínuo, a minha passa-se nos cômodos e doçuras do repouso! Acaso ignorava eu até agora a necessidade em que estou de fazer penitencia neste mundo, ou faze-la no outro, no meio das chamas do inferno? Não sabia, porventura, que um pecador não pode ir ao céu senão pelas tribulações e sofrimento? Que é isto! Jesus chorou as minhas iniquidades, e eu não as chorarei! Ah! Tal não será, gemerei sobre tantos pecados que desde minha tenra infância cometi; castigarei o meu corpo; mortificar-me-ei sem cessar, e nas minhas penitencias irei cobrar alento na penitencia de Jesus e de todos os santos. Imitarei David que, já assegurado do perdão das suas faltas gemia continuamente; como ele, a lembrança de haver perdido a graça do meu Deus, dia e noite me fará derramar torrentes de lágrimas; como ele, sempre terei presente a meu espírito os pecados da minha vida; como ele, enfim, direi a todo instante:
“Senhor, esquecei os pecados da minha mocidade”
Meu Deus! que diferença acho entre o meu modo de obrar e o proceder dos santos? Pedro não peca mais que uma vez, e chora sempre; eu peco frequentemente, e não choro nunca. Um santo solitário dizia:
“Em qualquer lugar que esteja, não vejo senão os meus pecados; olho-me como uma vitima do inferno onde vejo uma infinidade de almas menos culpáveis do que eu; atiro-me então por terra, suspiro, choro diante do meu Juiz”
E eu penso apenas neste inferno, que tenho merecido, e nada faço para lá não cair. Todos os santos procuram pelos rigores da penitencia expiar os seus pecados: “uns submetiam-se ás chufas, aos açoites, ás prisões; eram outros serrados, lapidados; passaram por ferro e fogo e foram entregues à morte; aqueles outros internaram-se em medonhos desertos”: e eu de tudo isto não faço nada, nada sofro. Pobre e desafortunado de mim! Qual é a meta que me proponho tocar? É para o céu, para esse belo céu, que eles tão caro compraram, que eu dirijo a minha carreira? Sim… Pois bem! Devo tomar como eles o verdadeiro caminho; é estreito, o meu Mestre já m’o advertiu: Arcta est via quae ducit ad vitam. Devo, como eles, chorar as minhas iniquidades passadas; devo implorar o perdão delas, não algumas semanas somente, não alguns meses, mas toda a minha viva. Ai! Quem sabe se o meu Deus me perdoou? Quem sabe se o meu Pai do céu me restituiu o vestido da minha inocência? Espero-o da sua misericórdia, porém certeza não tenho. Devo, pois, sempre fazer penitencia, chorar sempre: e ainda mesmo que um anjo do céu viesse anunciar-me da parte de Deus que os meus pecados me estão perdoados, deveria ainda assim chorar à vista das chagas de que cobriam o meu divino Salvador. Mas estas chagas do meu Jesus não me conduzirão somente à penitencia e ao arrependimento dos meus pecados, excitar-me-ão ainda à confiança e ao amor. Nestas chagas ir-me-ei refugiar, para ai achar um doce repouso. Ai estarei tanto mais ao abrigo de todo o perigo quanto Jesus é mais potente para me salvar. Brama o mundo em volta de mim, faz-me o corpo uma guerra de morte, cerca-me o demônio de seus laços? não cairei, porque estou apoiado sobre Jesus. Cai na desgraça de cometer algum grande pecado, e acha-se perturbada a minha consciência? não me abandonarei ao desespero, porque me recordarei das chagas do meu Senhor. Que mal será tão incurável que não possa ser curado pela morte de um Deus? No meio de minhas misérias espirituais lançarei um olhar sobre as chagas de Jesus, e a vista de um tão poderoso remédio me restituirá a paz e a confiança.
Ó alma minha! Tu que és tão fraca, tão pobre, tão lânguida, vai lançar-te nos braços do teu bom Mestre; porque ele é tudo para ti; nele possuis todas as coisas. Queres curar as profundas chagas que te abriu o pecado, ele é o teu medico; estás vergada ao peso de tuas iniquidades, ele é a justiça e a santidade; tens necessidade de socorros entre os teus inimigos, ele é a força e o poder; queres ir para o céu, ele é o caminho; foges das trevas, é a luz; procuras alimento, ele mesmo é o sustento que te pode conservar a vida. Sim, minha alma, em Jesus Cristo acharás tudo; será a tua ancora e a tua força, e se quando te vires atacada do lobo infernal, fores fiel em te ocultares nas suas chagas, infalivelmente te protegerá contra ele, e sairás vitoriosa da luta.
Ó meu bom amado Jesus! Porque estais vós tão coberto de chagas lívidas e ensanguentadas? Quem vos pôs num tão miserável estado? Ah! Compreendo-vos: são meus pecados que dilacerara o vosso adorável corpo; são eles que cravaram essa coroa de espinhos sobre vossa cabeça. Ó bom Jesus! A que excessos vos levou o amor por nós? Era a mim que a pena era devida por minhas iniquidades, e vós sois que a levais! Fazei-me a graça de sofrer alguma coisa neste mundo por vós para reconhecer uma ternura tão excessiva: dai-me a graça de me mortificar, de me desprezar, de me humilhar em todos os recontros, e de nada omitir para vos provar que não sou um ingrato. À vista do que tanto sofrestes por mim, não posso viver sem sofrimentos. Feri, Senhor, feri neste mundo, mas perdoai-me na eternidade. Vulnerai o meu pobre coração, vulnerai-a com as setas do vosso amor! Sofra, sim, mas amei-vos. Sim, amei-vos, Deus meu, faça-vos amar sempre, sempre, sempre! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Amor da Solidão

Hoje, meu caro Teótimo, toma e conserva toda a tua vida o santo habito de te retirar frequente¬mente em espírito ás chagas de nosso Senhor, e principalmente ao seu sagrado Coração. Nele faze uma solidão para onde possas fugir no tempo da tentação. Para o que, começa por te arrancar ao tumulto do mundo, tanto quanto t’o permitirem os teus deveres: ama o viver no retiro e no silencio. Ó meu Deus! Quantas almas não fazem progresso algum no amor de Jesus porque não sabem o que é a calma do retiro! Dizem estas almas que queriam viver no recolhimento, na união com nosso Senhor, fazem, e fazem precisamente o que as deve apartar deste fim; procuram companhias numerosas, divertimentos mundanos, efusões de coração que tem muito de humano, e fogem da solidão. Dir-se-ia que teem medo de se acharem a sós com Deus. Meu caro Teótimo, não os imites; se queres achar Deus, procura-o na solidão. Nunca estou menos só, dizia São Bernardo, do que quando estou só. Oh! E como isto é verdade! Na solidão achamos a Deus; na solidão pensamos em nossos deveres, em nossos pecados, choramo-los, detestamo-los; na solidão compreendemos a brevidade de tempo, a duração da eternidade, a vaidade das coisas do mundo, das honras, dos prazeres, das riquezas; na solidão falíamos com Deus e Deus conosco: entretemo-nos com ele coração a coração, exaltamos as suas grandezas, bem- dizemos as suas misericórdias, saboreamos as doçuras do seu amor; na solidão pensamos no céu, e desprendemo-nos de todas as criaturas. Ó doce solidão! Feliz quem te conhece e ama! mas mais feliz ainda aquele que descobriu o segredo de estar a sós com Deus no meio das mais numerosas companhias! Pede ao Senhor, meu caro Teótimo, que te dê esta solidão de coração, a qual faz que até mesmo no meio do tumulto dos homens e das ocupações, estejamos recolhidos, unidos a Deus, e atentos à sua presença: pede-a ao Senhor, mas não te esqueças que para a obter deves o mais que puderes viver retirado também na solidão exterior, sem nunca faltar por isto ao que os deveres de teu estado pedem. É possível gostar muito de sair fora sem necessidade ou utilidade do próximo, e ao mesmo tempo estar recolhido e unido a Deus.
(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 184-190)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Quanto os religiosos devem confiar no patrocínio de Maria




Ego diligentes me diligo: et qui mane vigilante ad me, invenient me – “Eu amo os que me amam: e os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão” (Pr 8, 17)
Sumário. Se a divina Mãe ama todos os homens com tão grande afeto, que nenhum outro lhe seja superior, ou mesmo igual, quanto mais não amará os religiosos, que sacrificaram a liberdade, a vida e tudo ao amor de Jesus Cristo? Ponhamos, pois, toda a nossa confiança em tão boa Mãe. Provemos-lhe a nossa devoção, honrando-a fervorosamente e fazendo com que os outros também a honrem. Um religioso que não tem para com nossa Senhora uma devoção especial, perseverará dificilmente.
I. Se é certo, como é certíssimo, no dizer de São Pedro Damião, que a divina Mãe Maria ama todos os homens com tamanho afeto, que, depois de Deus, não há nem pode haver quem a exceda ou iguale no amor: amat nos amore invincibili — “ama-nos com amor inexcedível”, quanto devemos pensar que a grande Rainha ama os religiosos, que consagraram a sua liberdade, a sua vida, tudo ao amor de Jesus Cristo? Ela bem vê que a vida deles é mais semelhante à sua e à do seu divino Filho. Vê-os empregados continuamente em louvá-la e em honrá-la com novenas, visitas, rosários, jejuns e outras práticas de devoção. Vê-os muitas vezes a seus pés a invocá-la e a pedir-lhe graças, graças essas todas conformes aos seus santos desejos, como sejam: a perseverança no serviço divino, a força contra as tentações, o desapego da terra, o amor para com Deus.
Ah! Como poderemos duvidar que ela deixe de empenhar todo o seu poder e misericórdia em benefício dos religiosos, especialmente de nós, que vivemos nesta santa Congregação (1), na qual, como se sabe, se faz profissão especial de honrar a Virgem Mãe com visitas, jejum no sábado, mortificações particulares nas suas novenas, etc., e com promover por toda a parte a sua devoção, por meio de pregações e novenas em sua honra?
A nossa excelsa Senhora é grata, e tão grata, que, como diz Santo André Cretense, costuma dar grandes coisas em retribuição a quem lhe oferece o mais pequeno obséquio: Solet maxima pro minimis reddere. A quem a honra e procura fazê-la honrar dos outros, ela promete, na sua benevolência, livrá-lo do pecado: Qui operantur in me, non peccabunt; promete-lhe também o paraíso: Qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (2).
Por esta razão devemos nós especialmente dar graças a Deus por nos haver chamado a esta Congregação, onde, pelos costumes da comunidade e pelos exemplos dos companheiros, somos frequentemente advertidos e como que constrangidos a recorrer a Maria e a honrar continuamente esta nossa Mãe amantíssima, que se chama e é a alegria, a esperança, a vida e a salvação de quem a invoca e honra.
II. Grande é a confiança que os religiosos devem ter no patrocínio de Maria Santíssima; e grande deve ser a sua devoção, porque, aliás, perseverarão dificilmente. — São Francisco de Borgia perguntou certa vez a uns noviços, de que Santo eram mais devotos, e achou que alguns deles não tinham devoção especial a Nossa Senhora. Advertiu por isso ao Mestre dos noviços que olhasse com mais atenção para aqueles desgraçados; e aconteceu que todos eles perderam miseravelmente a vocação e saíram da religião.
Minha Mãe amabilíssima e amantíssima, pelo amor de Jesus Cristo vos suplico, não permitais que tão grande desgraça venha sobre mim. Agradeço sempre ao meu Senhor e a vós, que além de me haverdes arrancado do mundo, me chamastes para viver nesta Congregação, onde se pratica uma particular devoção para convosco. Aceitai-me, portanto, minha Mãe, para vos servir, e não tomeis por mal que entre tantos vossos diletos filhos vos sirva também este miserável. Vós, depois de Deus, haveis de ser sempre a minha esperança, o meu amor. Em todas as minhas necessidades, em todas as tribulações e tentações, sempre recorrerei a vós, que haveis de ser o meu refúgio, a minha consolação. Não quero outro conforto nos combates, nas tristezas e nos aborrecimentos desta vida, senão Deus e a vós.
Minha amabilíssima Mãe, para vos servir, renuncio a todos os reinos do mundo; o meu reino nesta terra será servir, bendizer e amar a minha dulcíssima Senhora: cui servire, regnare est — “a quem servir, é reinar”, como diz Santo Anselmo. Visto que sois a Mãe da perseverança, obtende que eu vos seja fiel até à morte.
— Fazendo assim, espero, e espero com segurança, ir um dia louvar-vos e bendizer-vos eternamente e nunca mais apartar-me de vossos pés. Iesus et Maria — assim protesto com vosso amante servo Santo Afonso Rodrigues — amores mei dulcissimi, pro vobis patiar, pro vobis moriar; sim totus vester, sim nihil meus — “Jesus e Maria, amores meus dulcíssimos, padeça por Vós, morra por Vós, seja todo vosso e nada meu”.
Referências:
(1) Santo Afonso escreveu esta meditação para os noviços da Congregação do Santíssimo Redentor por ele fundada
(2) Eclo 24, 30-31

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 224-226)

Fonte:

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Infeliz de quem peca contando com o perdão


Effugium peribit ab eis, et spes illorum abominatio animae – “Não lhes ficará refúgio e a esperança deles será abominação de sua alma” (Jó 11, 20)
Sumário. Deus suporta, mas não suporta sempre. Quando se encheu a medida dos pecados que Deus quer perdoar, lança mão dos castigos mais formidáveis. Se Deus suportasse sempre, ninguém se condenaria, mas é opinião comum, que a maior parte dos adultos, incluindo os cristãos, se condenam. Infelizes de nós portanto, se pecarmos na esperança do perdão e abusarmos da misericórdia de Deus, para o ultrajar mais! Seremos irreparavelmente condenados para sempre, como se condenaram tantos outros nossos iguais.
I. Escreve São Bernardo que a esperança do perdão, que os pecadores têm quando pecam, não atrai a misericórdia de Deus, mas sim a sua maldição. Pelo que São João Crisóstomo nos avisa: Tomai cuidado, porque não é Deus que vos promete misericórdia, mas antes o monstro insaciável do inferno, afim de que desta maneira pequeis mais livremente. E Santo Agostinho acrescenta: Sperant ut peccent; vae a perversa spe! Ai daqueles que não esperam afim de que Deus lhes perdoe os pecados de que se arrependem, mas esperam que, ao passo que continuam a pecar, Deus tenha piedade deles. – Quantas almas se não deixaram enganar e se perderam por esta vã esperança! Diz ainda o Santo. Tal esperança é uma abominação aos olhos de Deus: Spes illorum abominatio. Longe de mover o Coração de Deus à misericórdia, irrita-O para castigar mais depressa o culpado, assim como um criado irritaria a seu amo se o ofendesse porque é bom. Diz São Bernardo que Lúcifer foi tão depressa castigado por Deus porque se revoltou com a esperança de não ser punido. O rei Manassés foi pecador; mas converteu-se em seguida e Deus lhe perdoou. Amon, filho de Manassés, vendo o pai tão facilmente perdoado, entregou-se à vida desregrada na esperança do perdão; mas para Amon não houve misericórdia. Diz também São João Crisóstomo que Judas se perdeu porque pecou confiado na clemência de Jesus Cristo: Fidit in lenitate Magistri.
Numa palavra: se Deus suporta, não suporta sempre. Se Deus suportasse sempre, ninguém se condenaria. No entanto, a opinião mais comum é de que a maior parte dos adultos, incluindo os cristãos, se condenam: Lata porta et spatiosa via est, quae ducit ad perditionem, et multi intrant per eam (1) – “Larga é a porta e espaçosa a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela”. Infeliz, portanto, de quem abusa da misericórdia de Deus para o ultrajar mais! Perder-se-á irreparavelmente para todo o sempre.
II. Meus irmãos, escreve São Paulo, não vos enganeis; de Deus não se zomba: aquilo que o homem semear, isso colherá (2). O que semeia pecados, não tem a esperar senão os castigos do inferno. Seria zombar de Deus o querer continuar a ofendê-Lo e depois desejar o paraíso.
Ai de mim, ó Senhor, que por tantos anos não pensei senão em Vos ofender. Estes anos já se foram, talvez já esteja próxima a minha morte e que acho em mim senão motivos de tristeza e remorsos de consciência? Quem me dera Vos tivesse servido sempre, ó meu Senhor! Insensato que fui! Já há tantos anos que vivo nesta terra e em vez de adquirir merecimentos para a vida futura, tenho-me carregado de dívidas para com a justiça divina. Meu querido Redentor, dai-me luz e força para ajustar as minhas contas. Talvez a minha morte não esteja longe. Quero preparar-me para o momento que decidirá da minha felicidade ou desgraça eterna. Agradeço-Vos o terdes esperado por mim até agora. Já que me dais tempo para reparar o mal que fiz, eis-me aqui, ó meu Deus: dizei-me o que quereis que eu faça.
Quereis, ó Senhor, que me arrependa das ofensas feitas? Arrependo-me e detesto-as de toda a minha alma. Quereis que empregue os anos ou dias de vida que me restam, em Vos amar? Ah! Quero fazê-lo. Meu Deus, no passado tomei muitas vezes a resolução de o fazer, mas as minhas promessas se tornaram outras tantas traições. Mas, meu Jesus, não quero mais ser ingrato depois de tantos favores que me destes. Se agora não mudo de vida, como poderei na hora da morte esperar o perdão e o céu? Agora estou firmemente resolvido a Vos servir com todas as veras. Dai-me força; não me desampareis.
Permiti, pois, que Vos ame, ó Deus, digno de infinito amor. Aceitai o traidor que agora arrependido se abraça com os vossos pés, Vos ama e Vos suplica misericórdia. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais que a mim mesmo. Sou vosso; disponde de mim e de tudo que é meu, segundo a vossa vontade; dai-me a perseverança em Vos obedecer, dai-me vosso amor e depois fazei de mim o que quiserdes.
– Maria, minha Mãe, minha esperança e meu refúgio, a vós me recomendo, a vós entrego a minha alma; rogai a Jesus por mim.
Referências:
(1) Mt 7, 13
(2) Gl 6, 7-8

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 96-99)

Fonte:

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Pensamentos Consoladores


Em Parceria com o Blogger Ad Majorem Dei Gloriam , postaremos durante o final deste ano, o livro: 


Pensamentos Consoladores
de São Francisco de Sales
Extraídos Dos Seus Escritos

Org - Pe. P Huguet S.M.
Livro de 1946 - 372 págs


 "São Francisco de Sales tinha um dom sublime de encaminhar as almas à perfeição, era este sobretudo seu dote particular. Neste livro precioso encontra-se a consolação que alivia tantos corações dilacerados e o conselho que encaminha tantas consciências timoratas."
   
   "Quem só pertence a Deus não se entristece nunca senão por ter ofendido a Deus, e a sua tristeza neste ponto consiste em uma profunda, mas tranquila e pacífica humildade e submissão, depois da qual se eleva para a bondade divina por uma confiança doce e perfeita, sem temor nem despeito. Quem só pertence a Deus, pensa muitas vezes Nele no meio das ocupações desta vida."

Paciência de Deus em esperar que o pecador faça penitência



Propterea, expectat Dominus, ut misereatur vestri – “Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós” (Is 30, 18)
Sumário. A paciência de que o Senhor usa para com os pecadores, esperando que façam penitência, é tão grande, que, no dizer de Santo Agostinho, se não fosse Deus, pareceria que falta à justiça. A misericórdia de Deus impede continuamente as criaturas, que por natural instinto quiseram vingar as injúrias feitas ao Criador; e ao mesmo tempo dispensa-lhe toda sorte de graças, a fim de conduzi-los à resipiscência. Parece que teimosamente lutamos com Deus: nós provocando os seus castigos; Deus oferecendo-nos o perdão. Mas continuará sempre assim? A paciência irritada afinal torna-se furor!

I. A paciência de que Deus usa para com os pecadores é tão grande, que uma alma santa desejava que se construísse uma igreja e se lhe desse por título: Paciência de Deus. Meu irmão, quando ofendias a Deus, podia fazer-te morrer; mas Deus esperava, conservava-te a vida e acudia-te em todas as necessidades. Fingia não ver os teus pecados, a fim de que viesses à resipiscência:

Dissimulas peccata hominum propter poenitentiam (1) — “Dissimulas os pecados dos homens, para que façam penitência”.
Mas como é isto, Senhor, exclama o profeta Habacuc: os vossos olhos são puros, não podeis sofrer a vista de um só pecado, e tantos vedes e Vos calais? (2) Vedes o impudico, o vingativo, o blasfemador, que dia a dia amontoam os pecados, e não os punis? Porque usais de tamanha paciência? Propterea expectat Dominus, ut misereatur vestri. Deus espera pelo pecador, para que se corrija, a fim de assim lhe poder perdoar e salvá-lo.
Diz Santo Tomás que todas as criaturas, o fogo, a terra, o ar, a água, por natural instinto quiseram castigar o pecador e vingar as injúrias feitas ao seu Criador. Deus, porém, pela sua misericórdia os impede. — Mas, Senhor, Vós esperais pelos ímpios a ver se se convertem, e não vedes que esses ingratos se servem da vossa misericórdia para mais Vos ofenderem? “Vós, ó Senhor”, diz Isaías, “favorecestes este povo, e usastes para com ele de misericórdia; porventura fostes glorificado?” (3) Para que então tamanha paciência? Porque Deus não quer a morte do pecador, mas, sim, que se converta e se salve: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat(4). Ó paciência infinita de Deus!
II. Santo Agostinho chega a dizer que Deus, se não fosse Deus, pareceria injusto pela demasiada paciência para com os pecadores. Sim, porque esperar assim por quem abusa desta paciência até tornar-se insolente, parece que é faltar à honra que Deus a si próprio se deve. “Nós pecamos”, prossegue o Santo, “ficamos fixos no pecado” — Alguns há que se familiarizam com o pecado, vivem em paz com ele e dormem no pecado meses e anos. “Nós nos alegramos pelo pecado” — Outro há que até chegam a gabar-se dos seus crimes.
“E Vós permaneceis quieto. Nós provocamos a vossa indignação, e Vós nos provocais a que peçamos misericórdia”
Numa palavra, parece que teimosamente lutamos com Deus; nós provocando os seus castigos, Deus oferecendo-nos o perdão. Mas há de ser sempre assim? A paciência irritada afinal torna-se furor.
Ah! Meu Senhor, reconheço que deveria agora estar no inferno:
Infernus domus mea est (5) — “O inferno é a minha morada”
Graças, porém, à vossa misericórdia, eis-me, não no inferno, mas neste lugar a vossos pés, e ouço que me dais a suave ordem que quereis ser amado por mim:
Diliges Dominum Deum tuum (6) — “Amarás ao Senhor teu Deus”
Dizeis que me quereis perdoar, se detestar as ofensas que Vos fiz. Sim, meu Deus, pois que ainda quereis ser amado por mim, miserável rebelde de vossa majestade, de todo o coração Vos amo. Estou arrependido de Vos ter ultrajado, e isso mais me aflige que todos os males que pudera ter merecido. Iluminai-me, ó Bondade infinita, fazei-me conhecer o mal que Vos fiz.
Não, não quero outra vez resistir à vossos chamamentos. Não quero mais desagradar a um Deus que tanto me amou e tantas vezes me perdoou com tamanho amor. Nunca Vos tivesse ofendido, ó meu Jesus! Perdoai-me e fazei que no futuro só Vos ame; que só viva para quem morreu por mim; que sofra por vosso amor, já que pelo meu tanto sofrestes. Vós me haveis amado em toda a eternidade: fazei que durante toda a eternidade arda no vosso amor. Pelos vossos merecimentos espero tudo, meu Salvador.
— Em vós também, ó Maria, confio; com a vossa intercessão haveis de salvar-me.
Referências:
(1) Sb 11, 24
(2) Hsb 1, 13
(3) Is 26, 15
(4) Ez 33, 11
(5) Jó 17, 13
(6) Mt 22, 37

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 232-234)

Fonte:

sábado, 11 de novembro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 30 - 1º Mandamento de Deus: Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas


Catecismo Ilustrado - Parte 30

Os Mandamentos

1º Mandamento de Deus: Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas

1. Desempenharemos nós o que neste preceito nos é mandado, praticando para com Deus quatro virtudes, a saber: a Fé, a Esperança, a Caridade e a Religião. Para as três virtudes teologais, Fé, Esperança, Caridade, ver a gravura.

2. A religião, considerada como virtude, é uma virtude que nos ensina a dar a Deus o culto que lhe é devido.

3. O culto que devemos a Deus chama-se culto de latria e é propriamente adoração.

4. Há duas espécies de culto, culto interno, e culto externo. O culto interno consiste em elevar a Deus o nosso pensamento, louvá-Lo e adorá-lo mentalmente, oferecendo-Lhe no íntimo do coração os nossos afetos, sem manifestar exteriormente os nossos sentimentos. O culto externo consiste em dirigir a Deus orações vocais, em cantar os divinos louvores, em nos prostrarmos na Sua presença, e principalmente em assistir-mos ao Santo Sacrifício da Missa e as cerimônias e funções públicas, com que a Igreja Católica celebra os Seus mistérios e solenidades.

5. Adorar a Deus é reconhecê-Lo como nosso Criador, e soberano Senhor de todas as coisas. Devemos, pois, humilhar-nos profundamente diante da sua Majestade.

6. Devemos a Deus um culto exterior: 1º porque o nosso corpo pertence-Lhe tanto como a nossa alma; 2º porque o culto exterior nos leva ao culto interior.

7. O culto público consiste sobretudo em adorar a Deus nas igrejas e cerimônias públicas. Devemos prestar a Deus culto público porque temos obrigação de edificar o nosso próximo, mostrando-lhe que somos verdadeiros crentes.

8. A sociedade civil deve também adorar a Deus, porque Ele é Senhor das sociedades como dos indivíduos.

9. Adoramos a Jesus Cristo, porque ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

O culto dos Santos

10. Pão é idolatria tributar culto aos Santos; antes esse culto é legítimo e devido, porque não é de latria ou adoração, mas de veneração e respeito. Nós não adoramos Nossa Senhora nem os santos como adoramos a Deus; veneramo-los e honramo-los como criaturas muito chegadas a Deus e muito favorecidas das suas graças. Não se faz injúria ao soberano que corteja os cortesãos que servem em redor do trono.

11. O culto que damos a Nossa Senhora não é o mesmo que damos aos santos, porque Nossa Senhora ocupa um lugar diferente acima das outras criaturas, sendo Ela Mãe de Jesus Cristo. O seu culto chama-se hiperdulia.

12. Veneramos os Santos pelas suas virtudes, pela intercessão que têm junto de Deus, e por serem seus amigos e servos, e assim toda a honra que se lhes tributa redunda em honra de Deus.

13. O culto dos Santos consiste em lhes pedir, em lhes agradecer, e ainda tomá-los por modelo para imitar. Esse culto chama-se dulia, o qual é infinitamente inferior ao de latria, que pertence a Deus.

14. Pedimos aos santos para alcançar por sua intercessão as graças de que necessitamos. Os santos são os nossos advogados para com Jesus Cristo, como Jesus Cristo é o nosso advogado para com seu Pai. Há muita diferença no modo de pedir a Deus ou de pedir aos santos; a Deus pedimos que nos dê, nos conceda; e aos santos pedimos que nos alcancem de Deus pelos merecimentos de Jesus Cristo, que roguem por nós.

15. A veneração das relíquias e imagens não esta proibida; antes Deus autoriza e aprova pelos grandes milagres que a cada momento realiza por meio das relíquias e imagens dos santos.

Explicação da gravura

16. Nesta gravura veem-se pessoas de todas as idades e condições adorando a Deus, que lhes abre os braços e os contempla com ternura, mostrando assim o agrado com que acolhe as nossas homenagens.

17. Na parte superior, à esquerda, vê-se a Virgem rodeada de Anjos e à direita, São José com vários santos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O Fim do Mundo e o Procedimento dos Bons Católicos em Tempo de Perseguição



Erit tunc tribulatio magna, qualis non fuit ab initio mundi usque modo – “Será então a aflição tão grande, que, desde que há mundo até agora, não houve outra semelhante” (Mt 24, 21)
Sumário. A perseguição que o espírito infernal suscitará no fim do mundo não é a única que devemos temer. Cada dia os ímpios tramam uma revolta igual à do Anticristo, como de sobejo demonstram os males que nos sobrevêm e as guerras que a Igreja Católica tem de sustentar. Aproveitemos os ensinos que Jesus Cristo nos dá no presente Evangelho: Sejamos constantes na fé; humilhemo-nos perante Deus, confessando que temos merecido os seus castigos, e rezemos com fervor, a fim de que sejam abreviados os dias de provação.
I. No Evangelho de hoje Jesus Cristo nos fala da destruição de Jerusalém e ao mesmo tempo do fim do mundo prefigurado pela ruína daquela cidade infeliz. “Será tão grande a aflição”, diz Jesus, “que desde que há mundo até agora, não houve nem haverá outra semelhante. E se não se abreviassem aqueles dias, não se salvaria pessoa alguma; mas hão de abreviar-se em atenção aos escolhidos: Propter electos breviabuntur dies illi.” (1)
— Passando depois a dar-nos avisos apropriados àqueles tempos, recomenda-nos o Senhor especialmente a constância na fé, e prossegue:
“Então, se alguém vos disser: Aqui está o Cristo, ou ei-lo acolá; não lhe deis crédito. Pois se levantarão falsos Cristos e falsos profetas; farão grandes prodígios e maravilhas tais, que (se fôra possível) até os escolhidos se enganariam. Vede que eu vô-lo adverti antes: Ecce praedixi vobis”.
Meu irmão, esperas e estás confiado que não presenciarás esta última tribulação, mas nem por isso creias que não te dizem respeito os avisos do Redentor. São Gregório afirma:
“A perseguição que o espírito infernal suscitará nos últimos tempos não é a única que devamos temer; porque cada dia os ímpios tramam a revolta do Anticristo, e até agora este mistério de iniquidade se planeja às ocultas no seu coração: Iam nunc occultus operatur”.
Ou, para melhor dizer, já está planejado e está sendo executado pela guerra continua e múltipla movida contra a Esposa de Jesus Cristo, a Igreja Católica. — Aproveita-te, pois, dos avisos do Senhor:
“Sede sóbrios e vigiai, porque vosso adversário, o diabo, como leão a rugir, anda ao redor, buscando a quem devore: resisti-lhe fortes na fé”. (2)
II. Abreviar-se-ão aqueles dias em atenção aos escolhidos. Assim como no tempo da destruição de Jerusalém foram abreviados os dias de miséria para os infelizes judeus, em atenção aos escolhidos; assim como em atenção aos mesmos serão para todos os homens abreviados os dias de tribulação na destruição final do mundo; assim Deus, em atenção às almas justas que vivem na Igreja, abreviará em sua infinita misericórdia para esta sua Esposa imaculada os dias de aflição e acelerará o desejado triunfo.
Meu irmão, se não podes de outro modo cooperar para este fim, faze-o pelo menos humilhando-te na presença de Deus, e reconhecendo que os castigos que nos oprimem são consequência dos nossos pecados. E, entretanto, não deixes de dirigir a Deus orações fervorosas. — A fim de que essas orações sejam mais facilmente atendidas, procura fazê-las o mais possível diante de Jesus sacramentado, que, na interpretação comum dos santos, é aquele corpo do qual fala o Evangelho e ao redor do qual se ajuntam as águias, isto é, as almas desapegadas dos afetos terrestres: Ubicumque fuerit corpus, illic congregabuntur et aquilae.
 “Ó clementíssimo Jesus, Vós sois a nossa única salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição. Nós Vos pedimos que não nos abandoneis em nossas angústias e tribulações; mas pela agonia do vosso Coração sacratíssimo e pelas dores de vossa Mãe imaculada, socorrei os vossos servos que remistes com vosso precioso sangue.” (3)
— Excitai também, ó Senhor, a vontade dos vossos fiéis; a fim de que pratiquem com maior fervor as obras de piedade, e mereçam com elas maiores remédios da vossa piedade.” (4)
— A vós também, ó grande Mãe de Deus, pedimos esta graça.
Referências:
(1) Mt 24, 22

(2) 1 Pd 5, 8
(3) Indulg. de 100 dias.
(4) Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 316-318)

Fonte:

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Vida desolada de Jesus Cristo



Magna est velut mare contritio tua. Quis medebitur tui? – “É grande como o mar o teu desfalecimento; quem te remediará?” (Lm 2, 13)
Sumário. A vida do Redentor foi destituída de qualquer consolação; porquanto os suplícios que devia sofrer até à morte eram-Lhe em todo tempo presentes. O que, porém, O afligia não era tanto esta previsão, como a vista dos pecados que os homens haviam de cometer e a eterna perdição que dali havia de provir. Quando nos acharmos em desolação, animemo-nos unindo a nossa desolação à de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, lembremo-nos de que pelos nossos pecados temos também concorrido para afligir e contristar o seu amabilíssimo Coração.
I. A vida do nosso amantíssimo Redentor foi toda repleta de desolação e destituída de qualquer alívio. A vida de Jesus foi como um imenso oceano de amargura, sem uma só gota de doce consolação: A tua tristeza é grande como o mar. O mesmo Senhor revelou um dia à Santa Margarida de Cortona que em toda a vida jamais teve consolação alguma sensível. A tristeza que Jesus no horto de Getsêmani declarou que chegou a tal extremo que bastava para Lhe tirar a vida, não foi só nessa ocasião que O oprimiu; angustiou-O desde o primeiro instante de sua encarnação; porquanto desde então eram-Lhe presentes todas as penas e ignomínias que devia sofrer até a morte.
O que, porém, Lhe causou essa aflição contínua e suprema, não foi tanto a previsão do que devia sofrer, como a vista de todos os pecados que os homens cometeriam. Ele viera afim de, pela sua morte, tirar os pecados do mundo e livrar as almas do inferno, e via todas as iniquidades a serem praticadas na terra apesar de sua morte; e cada qual, vista por Ele distintamente, afligia-O imensamente, diz São Bernardino de Sena. Foi esta a dor que Lhe estava sempre diante dos olhos e lhe causou incesssante tristeza: Dolor meus in conspectu meo semper (1).
Diz Santo Tomás que a vista dos pecados dos homens e da perdição de tantas almas, causou a Jesus uma dor que excedia a de todos os penitentes, mesmo daqueles que morreram de pura dor. — Foram grandes os sofrimentos dos santos mártires: cavaletes, unhas de ferro, couraças feitas em brasa; porém, os seus sofrimentos foram suavizados por Deus com doçuras interiores. Mais doloroso do que o martírio de todos os mártires foi o de Jesus Cristo; pois que a sua dor e tristeza foi dor pura e tristeza pura, sem o mais pequeno alívio. A grandeza da dor de Jesus Cristo, escreve o Doutor Angélico, avalia-se pela pureza de sua dor e tristeza: Magnitudo doloris Christi consideratur ex doloris et maestitiae puritate.
II. Tal foi, portanto, toda a vida do divino Redentor, e tal também a sua morte; sem consolação alguma. Quando estava agonizando sobre a cruz, sem o menor alívio, esperou se alguém o consolava e não achou: Sustinui qui consolaretur, et non inveni (2). Não achou senão zombadores e blasfemadores. Um dizia: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”; outro acrescentava: “Ele salvou a outros, a si mesmo não se pode salvar” (3). — Pelo que nosso aflito Senhor, vendo-se abandonado de todos, se dirigiu ao Pai Eterno; vendo, porém, que este também o tinha abandonado, queixou-se docemente exclamando em voz alta: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” — Ut quid dereliquisti me? (4)
É assim que terminou a vida de Nosso Salvador, que morreu, conforme a profecia de Davi, abismado num oceano de ignomínias e de dores — Veni in altitudinem maris, et tempestas demersit me (5). — Quando nos acharmos desolados, consolemo-nos com a morte desolada de Jesus Cristo, ofereçamos-Lhe a nossa desolação, unindo-a àquela que por nosso amor sofreu o inocente Jesus no Calvário. E lembremo-nos ao mesmo tempo que, pelos nossos pecados, temos concorrido para aumentar a aflição e desolação desse Coração amabilíssimo.
Ah meu Jesus, quem Vos não amará vendo-Vos tão abandonado e exausto de dores afim de pagardes por nossos pecados? Sou eu um de vossos algozes, pois que Vos contristei durante toda a vossa vida pela vista de meus pecados. Mas já que convidais à penitência, deixai-me experimentar ao menos uma parte da aflição que Vós em Vossa Paixão sentistes pelos meus pecados. Como poderei ainda correr atrás dos prazeres depois de Vos ter causado em vossa vida tamanha tristeza pelos meus pecados? Não, não Vos peço satisfações e delícias; peço-Vos lágrimas e arrependimento. Fazei que no tempo de vida que me resta, eu viva chorando as mágoas que Vos causei. Abraço-me com os vossos pés, ó meu Jesus crucificado e desolado e assim quero morrer. — Ó Mãe das dores, rogai a Jesus por mim.
Referências:
(1) Sl 37, 18
(2) Sl 68, 21
(3) Mt 27, 40-42
(4) Mt 27, 46
(5) Sl 68, 3


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 110-113)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Suspiros de amor ao pé do Crucifixo


Pro omnibus mortuus est Christus, ut et qui vivunt iam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est et resurrexit – “Cristo morreu por todos, para que também os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles e ressuscitou” (2 Cor 5, 15)
Sumário. Levantemos os olhos e vejamos Jesus morto no patíbulo da cruz, o corpo coberto de chagas, das quais ainda dimana sangue. A fé ensina-nos que é Ele nosso Criador, nosso Salvador; aquele que nos ama mais do que qualquer outro e só nos pode fazer felizes. Expandamos diante d’Ele o nosso coração, fazendo atos de fé, de esperança, de arrependimento, de agradecimentos e de amor. Sobretudo façamos atos de oferecimento de nós mesmos, protestando que queremos empregar em amá-Lo toda a vida que ainda nos resta.
I. Meu irmão, levanta teus olhos e contempla Jesus morto no patíbulo da cruz, o corpo todo coberto de chagas, das quais ainda corre o sangue. A fé te ensina que Ele é teu Criador, teu Salvador, tua Vida e teu Libertador; aquele que te ama ainda mais que outro qualquer e que só te pode fazer feliz.
Meu Jesus, eu creio que sois aquele que me amou desde a eternidade, sem algum merecimento da minha parte; apesar da previsão de minhas ingratidões e unicamente movido pela vossa bondade, me destes a existência. Vós sois meu Salvador, que pela vossa morte me livrastes do inferno tantas vezes por mim merecido. Vós sois minha vida, pela graça que me comunicastes e sem a qual teria ficado eternamente na morte. Vós sois meu Pai, e Pai amantíssimo, perdoando-me com tão grande misericórdia as injúrias que Vos fiz. Vós sois o meu tesouro, enriquecendo-me com tantas luzes e favores, em vez dos castigos de que era digno. Vós sois a minha esperança, visto que fora de Vós não há de quem possa esperar algum bem. Vós sois meu verdadeiro e único amante, pois que por meu amor quisestes morrer. Numa palavra, Vós sois meu Deus, meu Bem supremo, meu tudo.
Ó homens, ó homens, amemos Jesus Cristo, amemos um Deus que se sacrificou todo pelo nosso amor. Sacrificou as honras às quais tinha direito na terra; sacrificou todas as riquezas e delícias de que podia gozar, e contentou-se com levar uma vida humilde, pobre e atribulada; finalmente, para satisfazer pelas suas penas por nossos pecados, quis sacrificar todo o seu sangue e a vida, morrendo num oceano de dores e de desprezos. Retribuamos-Lhe amor com amor.
II. Meu filho, diz o Redentor, do alto da cruz, a cada um de nós, — meu filho, que mais podia fazer para ser amado por ti, do que por ti morrer? Vê se há no mundo alguém que te tenha amado mais do que eu, teu Senhor e teu Deus? Ama-me, pois, ao menos em retribuição do amor que te mostrei.
Ah, meu Jesus, como posso lembrar-me que meus pecados Vos fizeram morrer de dor sobre um infame patíbulo e não chorar sempre de dor por haver desprezado assim o vosso amor? E como posso ver-Vos pendurado nesse madeiro por meu amor e não Vos amar com todas as minhas forças? Cristo morreu por todos, para que também os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles e ressuscitou. Mas, já que Vós morrestes por nós todos, a fim de que ninguém mais viva para si mesmo, como é possível que eu, em vez de viver somente para Vos amar e glorificar, tenha vivido unicamente para Vos afligir e desonrar?
Por piedade, ó meu Senhor crucificado, esquecei-Vos das amarguras que Vos tenho causado e de que me arrependo com sincero coração, e pela vossa graça atraí-me todo a vosso amor. Já não quero mais viver para mim mesmo, mas unicamente para Vós, que me haveis amado tanto e sois tão digno de ser amado. Eu Vos consagro toda a minha pessoa e tudo o que é meu, sem reserva alguma. Renuncio a todas as dignidades e prazeres da terra, e me ofereço para sofrer tudo o que for da vossa vontade. Vós que me inspirastes este bom querer, concedei-me também a força para o executar. — Ó Cordeiro de Deus, sacrificado sobre a cruz, ó vítima de amor, ó Deus tão amante dos homens, quem me dera morrer por Vós como Vós morrestes por mim! — Ó Mãe de Deus, Maria, obtende-me a graça de sacrificar ao amor de vosso Filho amabilíssimo todo o resto de minha vida. Minha Mãe, impetrai-me também uma terna compaixão pelas vossas dores; a fim de que, tendo chorado convosco na terra, possa ir reinar convosco no céu.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 256-259)

Fonte: