sábado, 28 de abril de 2012

O caminho da Humildade - Por Santa Catarina de Sena



Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho, no doce Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.
Iluminação divina e humildade

Quem é humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade, pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é preguiçosa, sempre trabalha.

Todavia, sem uma iluminação divina, ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a inteligência, e a sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado, a nossa inteligência torna-se limpa e conhece.

Desperta a afeição da alma, que começa a amar o seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento se abre e contempla o objecto, que é Cristo crucificado. A alma compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor.


A humildade é a cela do auto-conhecimento

Onde a inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma ficasse somente a conhecer-se a si mesma, o seu conhecimento de Deus não seria verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura, terminaria no desespero. Por outro lado, se a alma apenas conhecesse a Deus e não também a si mesma, colheria como fruto apodrecido uma grande confusão (intelectual), que alimenta a soberba.

Aliás, uma coisa nutre a outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.

Desse modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o fruto da vida, a partir do conhecimento de si e do desprezo do pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma atinge o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso, imediatamente, a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.


Conselhos materiais de Catarina. Conclusão

Filho caríssimo, com a iluminação divina, recebemos a humildade e a caridade. Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos toda a negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará a nossa soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das almas, mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que reabasteçais e alimenteis a vossa alma.

Que ela não resseque pela confusão e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho, esforçai-vos por despertar do sono da negligência, imitando as virtudes que vedes nos vossos irmãos e conservando-as no vosso coração. Amai a verdade! Que ela esteja sempre nos vossos lábios. Quando oportuno, difundi-a aos outros, sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza, assumindo os defeitos alheios. Se não fizestes isso no passado, com a necessária cautela, corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.»


Santa Catarina de Sena, carta 51


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