quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Pérola Preciosa - 10.º Mistério

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb


10.º MISTÉRIO
PREGAMOS CRISTO CRUCIFICADO...

A cruz rodeia-nos em toda parte.

Acena das torres das igrejas, admoesta nos sepulcros dos cemitérios, tem seu trono nas casas de famílias, nos altares, no paramento do sacerdote quando diz a Santa Missa.
E nós... temos na língua a cruz. As pa­lavras não pronunciadas, escritas por gotas do sangue precioso de Jesus, estão gravadas silenciosas no duro lenho da cruz, nós as pronunciamos: «pregamos Cristo, e este crucifi­cado» (1 Corinth. 1-23) — nos autem praedicamus Christum crucifixum. — Como nós po­demos isto, se a cruz não se confunde totalmente com o nosso modo de pensar e de existir! Pene­tremos por isso gostosamente nesse sublime mistério que para os pagãos é uma loucura, para os judeus um escândalo, para os cristãos, ao con­trário, a mais alta sabedoria.
Cristo porém foi por nós crucificado: por fraqueza; — para benefício do universo; — para exemplo e doutrina do mundo.

Por fraqueza:

— Mas como? — A cruz ensanguentada do Gólgota será um monumento de fraqueza?

— Sim, pois o Apóstolo diz: «Crucifixus in infirmitate» (2 Corinth. 13-4).

Toda a majestade, toda a suprema dignidade do mui louvado e venerado profeta naufragou aos olhos dos Romanos e judeus na cruz. Aparentemente fraco e sem auxílio estava Jesus, pen­dente do patíbulo da cruz, exposto às zom­barias. Todos viram aí a realeza perdida e irrevogavelmente condenada à morte. Entretanto, o que parecia fraqueza era na realidade força e força infinita, onipotência. No Redentor vivia, apesar de quase todo sangue se destilar do corpo, uma força divina e que tudo superava. Subjugou a morte e o demônio, sim, todo o poder do infer­no, quando Sua língua se pregou no véu palatino e Seus olhos murcharam.

Jesus edificou, por assim dizer, na hora da morte, no momento de expirar, a igreja mundial. «Nam etsi crucifixus est ex infirmitater sed vivit ex virtude Dei.» (2 Corinth. 13-4).

Procuremos realizar na nossa vida pela prá­tica esta sublime doutrina de Jesus. «Nam et
nos infirmi sumus in illo: sed vivemus cum eo ex virtute ei in vobis» (2 Corinth. 13-4).

Isto mesmo provou São Paulo por toda sua vida. Sofrimentos cruciaram e enfraqueceram-no, quem porém sabe medir a sua vontade de ação, quem descrever seus triunfos? Tão grande era a energia que cintilava em seus olhos, que até se gloriou de sua fraqueza. Não observamos a mesma coisa, muitas vezes, na vida de alguns sacerdotes, que, apesar de doentes e al­quebrados, dão provas de grande força d’alma e de heroísmo sem igual? Sim, há sacerdotes que trabalham com muito fruto, apesar de sua fraqueza e de sua débil constituição, pois o seu espírito parece ser totalmente constituído de energia. A graça apossou-se inteiramente des­ses obreiros da vinha do Senhor e verifica-se então o que diz o Apóstolo: «nam virtus in infirmitate perficitur.» (2 Corinth. 12-9).

Para benefício do Universo:

Da morte brota a vida; isto nos ensina a na­tureza. O sobrenatural diz a mesma coisa. Não era sempre o sangue dos Mártires a semente frutuosa de novos cristãos?
O rei de todos os Mártires porém é Jesus Cristo. Nada de extraordinário, pois, quando na primeira Sexta-feira Santa, pelas três horas, pas­sou pelo universo um hálito renovador que cha­mava à vida o que estava morto no homem: a vida da alma, a vida da graça. Veio então a pri­mavera; vagarosamente, mas veio. A fonte purpúrea, do sangue de Jesus, que brotara no cimo do Gólgota, percorreu os povos e as nações como um rio de bênçãos.

O Redentor tudo e todos prendeu a Si: pa­gãos e judeus. Viu na hora da Sua morte cruel o nascimento glorioso da Igreja Universal. «Reminiscentur et convertentur ad Dominum universi fines terrae: et adorabunt in conspectu ejus uni­versa familiae gentium. » (Ps. 21-28).

O que foi a cruz na primeira Sexta-feira da Paixão, o é hoje, pois o crucificado vive e morre no santo Sacrifício da Missa. Este tão sublime mistério está depositado na minha mão e na mão de todo sacerdote. Oh, tremendum mysterium!

Eu posso tudo e todos prender a mim como o Salvador na cruz.

Que benção! Instruirei e entusiasmarei o povo para o incruento sacrifício do altar e celebrarei eu mesmo como o Sacerdote-Magno no espírito e na intenção de Jesus Cristo. De­vo estar tão acima da terra, quando fico junto do altar, devo estar alheio a ocupações humanas e, longe de negócios terrenos. Então correrá a fonte de bênçãos e de graças, que muda e trans­forma os corações humanos em corações segundo Jesus Cristo; então seguirá à transubstanciação do pão no altar a transformação da alma e de toda a paróquia.

Para exemplo e doutrina do mundo:

O Crucifixo substitui uma completa biblioteca sacerdotal; é um Livro, tão universalmente escrito, que qualquer espírito o pode ler e compreender. E contudo são seus pensamentos de uma profundeza tal, que a vida longa e inteira de um sacerdote não basta para esgotar o seu conteúdo. São Paulo reúne num só pensa­mento e numa só frase toda a doutrina da cruz, quando ele escreve aos gálatas: «Qui autem sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis». (Gal. 5-24).

Com isto o Apóstolo quer dizer: Pelo batismo fomos incorporados a Cristo, porém a esta incorporação deve seguir a crucifixão: o velho homem deve morrer.

Treze séculos mais tarde leu-se no crucifixo a mesma doutrina: «Ecce in cruce totum constat, et in moriendo totum jacet: et non est alia via ad vitam et ad veram internam pacem, nisi via sanctae crucis, et quotidianae mortificationis.» (Imit. Christi, 2-12).

Assim, pois, tudo está na cruz, e todo o ponto está em morrer; outro caminho não há para a vida e paz interior verdadeira fora do ca­minho da santa cruz e contínua mortificação.

Em que ponto estou eu com o morrer a mim mesmo? Dobram os sinos na torre da minha igreja, representando o toque fúnebre da morte de minha natureza, que morreu totalmente para o mundo.

Oh, profunda mística contida na cruz! Tu, ó santo lenho, prendeste espírito e alma de inúmeros santos sacerdotes; horas inteiras retiveste junto de ti os seus corações. Oh, profunda mística contida na cruz! Tu fizeste chorar um Paulo, um Thomas, um Boaventura; dirigiste a pena de um Francisco de Sales, um Henrique Suso, Tauler, Thomas de Kempis!

Oh, profunda mística contida na cruz! Pe­netra bem no meu espírito, ó cruz bendita! faze-me voltar para o meu interior e tira de mim todo pensar frio e frívolo. Não, assim não posso continuar. Sou muito leviano e volvido para as coisas exteriores; devo ao contrário entrar em mim mesmo, bem ao fundo de meu interior, mas isso só é possível, se eu morro a mim mesmo. Deve vir a noite para poder aparecer um belíssimo e quase infinito céu coberto e semeado de estrelas. Imensas e mui extensas regiões abrem-se aos olhos interiores. Vai-se então de clareza em clareza, de claridade em claridade...!

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