sexta-feira, 2 de maio de 2014

A Pérola Preciosa - 7.º Mistério

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb


7.º MISTÉRIO

Cristo é o ângulo e a coluna da Igreja; que sustenta este grande edifício, que jamais balançará, pois Jesus Cristo está firme, é inabalável; os Seus ombros não enfraquecem. Uma vez, porém, — era antes da fundação da Igreja estava esta coluna junto a outra coluna, aí enfraqueceram-se os ombros de Jesus, que todo se enfraqueceu e caiu num mar de sangue e de Seu próprio sangue: a imagem da dor! Demoremo-nos diante d’Ele.

Os duros flagelos, as cordas, os açoites e azorragues recordam à nossa alma em tons lúgubres uma triste parte da passio Domini Nostri Jesu Christi.

Podemos aprender, pois também os sacer­dotes devem, como seu Sumo Sacerdote, Je­sus Cristo, e como os sucessores na cadeira de São Pedro, ser colunas e pedras angulares do mundo cristão. Então não podemos recuar diante à coluna tinta de sangue. Ainda que não possamos seguir a Jesus até esta altura de penitência, podemos ao menos considerar pie­dosamente os sublimes ensinamentos que Ele aí nos fornece. Jesus foi flagelado: cruelmente despido.

Cruelmente:


As sagradas páginas dizem-no claramente; o «flagelou», flagelare dos Romanos, não conhe­cia comiseração. Era comumente uma cruel­dade incrível e geralmente a introdução para a crucifixão.

Sem dó nem compaixão caiam os açoites sobre as pobres vítimas. Cordas com chumbo entremeado aumentavam o efeito; para mudar usavam-se então, por algum tempo, as varas, voltando de novo a empregar as primeiras.

Entretanto, nem todos os criminosos sofriam esta crueldade, pois as leis «Porcia» e «Sempronia» excluíam os cidadãos romanos. O mais puro cidadão do céu, porém, o Homem-Deus, foi posto no número dos da ínfima classe. O Redentor do mundo experimentou toda a severidade da lei. Horrível martírio!

Assim padece o Grão-Sacerdote da humanidade!

As Suas dores nos dizem:

«Dei-vos o exemplo».

Sim, não recuemos, examinemos as páginas da história da Igreja, que foram, por assim di­zer, regadas com o sangue de Jesus Cristo.

Não achou Cristo numerosos imitadores?

Sacerdotes que entre semelhantes martírios sofreram e morreram para o mundo? O antigo Fórum em Roma, o anfiteatro, os cárceres e perseguições nos contam isso. «Tradent enim vos in conciliis, et in synagogis suis flagellabunt vos» (S. Math. 10-17).

São Paulo recebeu três vezes quarenta açoi­tes, menos um; e Deus pôs um estímulo, por longo tempo e profundamente, no fraco, corpo deste Apóstolo.
O mesmo caminho vemos perambular outros muitos santos sacerdotes. Além disso, os muros e as silenciosas noites escondem muitos sacerdotes penitentes e mortificados; mas saibamos esperar: «Dies venit, dies tua in qua reflorent omnia...» (ad Laud. in Dom. Quadrag.)

Sucederá a mesma coisa comigo? Esta é a pergunta importante. Não devo, nem posso como sacerdote tratar meu corpo molemente, não posso cultivar a vida do corpo, à custa da vida da alma, da vida da graça, tão sublime e tão importante. O levantar de madrugada, o silen­cioso suportar do tempo inclemente e tempes­tuoso na igreja e nas visitas aos doentes é a tradução da doutrina que Jesus nos deu na coluna de flagelação. Quero e estou firmemente resolvido a contrariar toda a comodidade e a cortar toda a superfluidade e bem estar.

Despido:

Olhos alguns eram tão puros como os olhos de Jesus. O Redentor amava a inocência. Ele era a inocência personificada. As crianças cercavam e rodeavam o bom Mestre. Sobre o es­pelho de Sua alma jamais passou um sopro que turvasse o Seu casto brilho. E esta pureza em pessoa estava despida e completamente nua diante do Pretório; tudo se lhe tirou. Ele que vem para vestir os nus, que ornava o lírio e a flor do campo, ficou despido diante de cruéis sol­dados. Só por isso, mesmo sem a flagelação, Jesus teria sofrido muitíssimo. Quem poderá descrever o que Jesus sofreu quando a baixa soldadesca calcou aos pés a Sua inocência?... Oh, grandiosa castidade do meu Redentor!... Oh dor mil vezes bem aventurada! Como deseja­ria, ó meu Jesus, ter-te coberto com os meus próprios vestidos e olhado para o brilho en­cantador de teus inocentes olhos!...

Sim, assim mesmo devo pensar. Sacerdócio e inocência devem contrair em mim núpcias. Quero portanto trabalhar em mim,  mortificar o meu corpo e concentrar todos os meus sentidos até que eu neste ponto apareça diante do comovente olhar de Deus sem man­cha nem imperfeição. Mas já não sou puro? Não vivo já dia e noite na alvinitente túnica da inocência sacerdotal? Feliz de mim se trago no coração este testemunho íntimo. Tememos; pois levo este tesouro num vaso quebradiço. Jesus Cristo vertendo sangue junto da coluna da flagelação sempre me lembrará o enorme preço por que foi adquirida a castidade.

Quando as tempestades se levantam e tudo assombram, então abraçarei a Jesus conjuntamente com a coluna ensanguentada e es­tarei salvo.

Ninguém me há de roubar a minha co­roa; não, ninguém; ela é tão bela, tão linda, tão formosa: «O quam pulchra!...»

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