segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Pérola Preciosa - 9.º Mistério

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb


MISTÉRIO
UM OUTRO CONDUZIR-TE-Á...

Jesus Cristo tinha muitos discípulos. Uma verdadeira multidão de homens, ávidos da ver­dade, rodearam a Sua pessoa fascinadora: dou­tores versados nas Escrituras, homens de mãos calejadas, jovens de alma em chamas e olhar fascinante.

Presos pela força e pelo calor de Suas pa­lavras, muitos perseveraram por longo tempo junto do Redentor.
Outros abandonaram-nO, quando Ele exigia de sua fé e de seu espírito de sacrifício grandes esforços e atos heróicos. A doutrina da cruz, porém, até para os Seus mais íntimos discípulos era uma pedra de escândalo.
Enfim, quando a cruz era visível e pesava já nos ombros de Jesus, dispersara-se todo o resto de Seus discípulos. Os Apóstolos tre­miam e foi mister bastante tempo para que eles empreendessem levar a cruz e pusessem em prática esta tão sublime doutrina.

A mesma coisa soa acontecer a nós sacerdotes. Somos certamente os amigos íntimos e privilegiados de Jesus; seguimo-lO voluntariamente até o partir do pão, como diz o grande asceta. Mas, o «alius te cinget, et ducet quo tu non vis» (S. João, 21-18), encontra também em nós resistência da parte do velho homem.
Devemos aprender do nosso Redentor, que por nós levou o pesado lenho da cruz; que o levou apesar dos sofrimentos anteriores; — por meio da tumultuosa Jerusalém; — por tanto tempo até que caiu debaixo de seu peso.

Apesar dos sofrimentos anteriores:  Não se ressentiam já os ombros de Jesus debaixo de tantos e tão atrozes sofrimentos? Não pingava o sangue de cada poro? Não era Seu corpo todo coberto de contusões, chagas e feridas profundas e dolorosas?

Oh, imagem de dor e comiseração! Sim; oh! sim, desta sorte foi tratado o mais belo filho do homem. Detém-te, ó mão cruel, detém-te algoz desumano.

Mas a sede de sangue inflamou-se e era impossível retê-la. Trazem a grande e enorme cruz de madeira e Jesus não se queixa. A fraqueza O assalta, quase já não pode mais; não dá ouvido à natureza. Esquece os sofrimentos passados e abraça os novos. Magis pati — dizem e mur­muram os Seus olhos a desfalecer.

Isto é heroísmo e este deve habitar, em nossa alma. Não devemos olhar para traz e di­zer: Eis, Senhor, a minha vida sacerdotal foi só trabalho e sofrimento em extremo. E já nova­mente estendeis-me o cálice da amargura? — Dez... vinte anos... Vos servi, e não che­gou ainda o fim dos sofrimentos?
Não pensemos assim, não.

Acostumemos os nossos ombros às car­gas cada vez mais pesadas. Ainda que já tenhamos sustentado e suportado muita coisa, isto nunca será demasiado. Deus bem nos reconhece e Sua graça é forte e pode muito, pode tudo. «Sufficit tibi gratia mea». (2. Corinth. 12-9).

Por meio da tumultuosa Jerusalém:

O nosso Divino Redentor foi considerado réu. Seduz o povo: «hunc inveniemus subvertentem gentem nostram.» (S. Luc. 23-2), di­ziam os Judeus. Por que razão, então, devia-se lhe dar melhor tratamento do que a um escravo condenado à morte? — O escravo para sua con­fusão e vergonha deve passar, antes de mor­rer, pelo mercado público, até o lugar de sua execução; o mesmo tratamento foi dado ao Homem-Deus. Todos deviam ver e presenciar a Sua vergonha e confusão.

Levaram-nO pelo meio da velha cidade-baixa, mui frequentada. Da altura do castelo ou palácio Antonia ia Sua via dolorosa ao Vale de Jerusalém, até à porta Efraim. Conduzia a estrada para baixo e também para baixo espiritualmente, sim para as profundezas da humilhação. Assim iam sempre conduzidas em Jerusalém as pobres vítimas, acompanhadas por soldados, até, ao lugar do sacrifício.

Sigamos silenciosos o Salvador. As blasfêmias e gritos, os vitupérios e zombarias da mul­tidão repercutem nos nossos ouvidos. Os judeus só têm olhares de desprezo para quem leva a cruz. Poucos pensavam de maneira diferente, e estes poucos cresceram depois com o tempo aos milhares. Sempre volta o olhar do crente para as tristes cenas da Sexta-feira Santa.

Ó doce consolação para sacerdotes alquebrados pelos anos ou doentes que dolorosamente seguem seu caminho neste Vale de lágrimas. O pensamento que eleva e robustece todos aqueles sacerdotes que sofrem e padecem. Estes dão nas paróquias exemplos como Cristo os deu na tumultuosa Jerusalém aos olhos dos poucos que Lhe ficaram fiéis. Estes exemplos ficarão mais tempo na memória do que as próprias pregações; produzirão o bem até além do túmulo.

Por tanto tempo até que caiu debaixo do peso da cruz:

Muitas forças Jesus já tinha perdido, restavam-Lhe agora mui poucas. O sangue na maior parte já foi derramado, Seus membros já esta­vam a desfalecer, mas, mesmo assim, prosseguiu com o seu peso. Não pediu nenhum alívio nem jogou longe de Si a cruz tão pesada. Silencioso, curvado, mas resignado, Jesus segurou, abra­çando o precioso fardo; contudo Seus ombros pouco a pouco perderam a força. Cederam afi­nal essas forças. Verdadeira é a tradição que nos transmite que o Divino Salvador desfaleceu e caiu por terra debaixo da cruz. Os judeus presenciaram isto e obrigaram então um certo Simão, o Cirineu, a substituir a Jesus, levando-lhe o pesado lenho.

Ó sublime grandeza de nosso Divino Mestre «Cum dilexisset suos qui erant in mundo in finem dilexit eos». (João, 13-1), sim, amou-os até o fim de Suas forças. Como anões, esta­mos ao lado do Gigante com Sua enorme ener­gia e fácil prontidão para tudo sofrer e tudo suportar. Como são mesquinhos os nossos sofrimentos e sem razão as nossas queixas.

É natural que tenhamos cuidado com a nossa saúde, para não interrompermos antes do tempo o exercício das nossas forças físicas. Mas não exageremos esses cuidados. Volunta­riamente queiramos sacrificar toda força da al­ma e do corpo, imolar a última gotinha de sangue pelo nosso bom Deus. Trabalhemos com o suor de nosso rosto, até que Deus seja servido e nos chamar para as eternas glórias, para os eternos gozos, para as eternas alegrias!

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