sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O rosário solicita os nossos dedos, os nossos lábios, o nosso coração numa vasta sinfonia de orações

“Belém, Galileia, Nazaré, Jerusalém, Gólgota, Calvário, Monte das Oliveiras, Paraíso — tudo isto passa por diante dos nossos olhos, enquanto os nossos lábios oram. O rosário solicita os nossos dedos, os nossos lábios, o nosso coração numa vasta sinfonia de orações


Arcebispo Fulton J. Sheen (*): Se houver entre os ouvintes alguém que tenha mandado a uma pessoa amiga rosas em sinal de a-feição ou as tenha recebido como lembrança, apreciará certamente esta história duma prece.
A humanidade sempre uniu instintivamente as alegrias e as rosas.
Os pagãos coroavam as suas estátuas com rosas, como símbolos da oferta dos seus corações.
Os adeptos da Igreja, nos seus primórdios, substituíram as rosas pelas orações.
Nos tempos dos primeiros mártires — digo «primeiros» porque a Igreja tem hoje mais mártires do que tinha nos primeiros quatrocentos anos — quando as jovens virgens caminhavam sobre a areia do Coliseu ao encontro da morte, vestiam-se com belos vestidos e adornavam a sua fronte com coroas de rosas, por irem jubilosas ao encontro do Rei dos Reis, pelo qual morriam. Os cristãos, depois de anoitecer, recolhiam as suas coroas de rosas e sobre estas oravam, rezando a cada rosa uma oração.
No longínquo deserto, os Egípcios, os anacoretas e os eremitas contavam também as suas orações sob a forma de pequenos grãos reunidos à maneira de coroa.
Maomé adotou esta prática para os seus maometanos.
Do costume de se oferecerem ramos espirituais, nasceu uma série de orações conhecida por rosário, pois rosário significa «coroa de rosas».
Desde os primeiros dias que a Igreja pede aos fiéis: recitem os 150 salmos de Davi. Este uso conserva-se ainda em vigor entre os sacerdotes, porque são obrigados a recitar estes salmos que fazem parte do Breviário que rezam todos os dias.
Mas não é fácil para todas as pessoas recordar os cento e cinquenta salmos. Além disso, antes da invenção da imprensa, era difícil encontrar-se um livro.
Eis porque alguns livros importantes como a Bíblia estavam acorrentados, a maneira das listas telefônicas nas estações ferroviárias; de contrário furtá-las-iam.
O fato de a Bíblia estar acorrentada fez nascer a estúpida mentira de que a Igreja não queria permitir a ninguém que a lesse. Afinal, ela estava presa para que as pessoas a pudessem ler e consultar. Também a lista dos telefones está presa, e no entanto é um dos livros mais largamente consultados nas sociedades modernas.
As pessoas que não podiam aprender os 150 salmos, quiseram fazer qualquer coisa que pudesse, de algum modo, substituir esta prática.
E substituíram-nos por 150 «Ave-Marias», subdivididas em quinze dezenas.
Cada uma das dezenas devia ser recitada ao mesmo tempo que se meditavam os vários aspectos da vida de Nosso Senhor. Para se manterem as dezenas separadas, cada uma principiava por um «Pai Nosso» e terminava com um «Glória», em louvor da Santíssima Trindade.
São Domingos, que morreu em 1221, recebeu de Nossa Senhora a ordem de pregar e popularizar a devoção em sufrágio das almas do purgatório, pela vitória sobre o mal e pela prosperidade da Santa Madre Igreja, e assim nos deu o rosário na sua forma atual.
Já se tem objetado que há muitas repetições no rosário, e que o «Pai-Nosso”» e a «Ave-Maria», à força de repetidos, tornam-no monótono.
Isto faz-me lembrar o caso duma mulher que veio procurar-me uma tarde, depois da preleção.
Disse-me: «Eu jamais me tornarei católica. Vós dizeis e repetis sempre as mesmas palavras no rosário, e quem repete as mesmas palavras não é sincero. Eu nunca acreditarei em tal pessoa. Tampouco Deus acreditará nela».
Perguntei-lhe quem era o homem que a acompanhava.
Respondeu-me que era o seu noivo.
Perguntei-lhe ainda: «Ele gosta de si?»
«Oh! muito!»
«Mas como o sabe?»
«Disse-mo ele».
«Então como foi que lho disse?»
«Disse-me: eu amo-te»
«Quando lho disse?»
«Há de haver uma hora».
«Já lho tinha dito antes?»
«Já. Ainda ontem à noite » .
«Que lhe disse ele?»
«Amo-te».
«Mas não lhe tinha já dito antes disso?»
«Diz-mo todas as noites».
Respondi-lhe: «Não acredite. Ele que repete, é porque não é sincero».
A grande verdade é que não há repetição em «Eu amo-te», porque há um novo momento no tempo, um outro ponto no espaço, as palavras não têm o mesmo significado que da primeira vez.
O amor nunca é monótono na uniformidade das suas expressões.
O espírito é infinitamente variável na sua linguagem, mas o coração não o é.
O coração do homem diante da mulher a quem ama, é demasiado pobre para traduzir a imensidade do seu afeto em palavras diferentes.
Eis porque o coração emprega uma expressão apenas: «Amo-te» e dizendo-a muitas vezes nunca a repete.
É a única novidade verdadeira do mundo.
É isto que nós fazemos quando rezamos o rosário.
Repetimos à SS.ma Trindade, ao Verbo Encarnado, à Santíssima Virgem: « Amo-te » , « Amo-te » , « Amo-te » .
Há uma beleza no rosário.
Não é apenas uma oração vocal; é também uma oração mental.
Tendes ouvido por vezes uma representação dramática na qual, ao mesmo tempo que a voz humana fala, se faz ouvir em surdina uma música agradabilíssima a dar maior expressão e relêvo às palavras.
O rosário é assim.
Enquanto se reza a oração, não se ouve a música, mas medita-se na vida de Cristo, aplicada à nossa vida e às nossas necessidades.
Assim como o arame sustenta as rêdes das camas, assim a meditação segura a prece.
Nós muitas vezes falamos .com determinada pessoa, enquanto o nosso espírito pensa noutra, mas no rosário nós não rezamos apenas a oração; pensamos.
Belém, Galileia, Nazaré, Jerusalém, Gólgota, Calvário, Monte das Oliveiras, Paraíso — tudo isto passa por diante dos nossos olhos, enquanto os nossos lábios oram.
O rosário solicita os nossos dedos, os nossos lábios, o nosso coração numa vasta sinfonia de orações; é, por esse motivo, a maior oração que jamais foi composta pelo homem.
Deixai que vos acrescente como pode ele servir de auxílio aos atormentados, aos doentes, ao mundo.
Os atormentados.
O tormento é uma falta de harmonia entre o espírito e o corpo.
Os atormentados têm invariavelmente os seus espíritos excessivamente ocupados e as mãos ociosas.
Na angústia mental, os mil pensamentos não encontram maneira de se ordenarem nem dentro nem fora de nós.
Quando o espírito está inquieto, é impossível a concentração; os pensamentos atropelam-se desordenadamente, o espírito é atravessado por mil imagens, a paz da alma parece um sonho.
O rosário é a melhor terapêutica para estas almas perturbadas, infelizes, tímidas e desiludidas, exatamente porque ele implica o emprego simultâneo dos três poderes: o físico, o vocal, e o espiritual, nesta mesma ordem.
Os grãos, as contas, recordam aos dedos que lhes tocam que estes devem ser usados para rezar. É a sugestão física à oração.
Os lábios, movendo-se em uníssono com os dedos, constituem a sugestão vocal à oração; a Igreja é sapiente psicóloga, ao insistir em que os lábios se movam, enquanto se reza o rosário, porque sabe que o ritmo externo criado pelo corpo pode criar um ritmo na alma.
Se os dedos e os lábios resistem, o espírito seguirá ligeiro, e a prece pode terminar no coração.
As contas ajudam o espírito a concentrar-se. Elas são como que o abastecimento para o motor; depois de algumas sacudidelas, a alma começa a pôr-se em movimento.
O ritmo e a suave monotonia convidam à paz, ao repouso físico e criam uma afetiva fixidez em Deus.
O físico e o mental encontram a sua oportunidade, trabalham em conjunto.
Os espíritos fortes podem trabalhar do interior para o mundo exterior, mas os espíritos atormentados devem trabalhar do mundo que os circunda para dentro.
Para as pessoas espiritualmente fortes, a alma guia o corpo; na maioria das pessoas o corpo guia a alma.
A pouco e pouco os atormentados, dizendo o rosário, veem que as suas preocupações nasciam do seu amor-próprio.
Nenhum ser natural que tenha sido fiel ao rosário, deixou de ser socorrido nas suas preocupações.
Ficareis surpreendidos, ao verdes como podeis sair das vossas preocupações, grão a grão, conta a conta, até chegardes ao trono do Coração do Amor.
O rosário é também uma oração particularmente indicada para os doentes.
Quando a febre sobe e o corpo sofre, não se pode ler; com dificuldade se suporta o ouvir-se falar, embora haja muitas coisas que o coração desejaria dizer.
Os olhos duma pessoa que tem saúde fixam-se no solo; quando doente, de cama, os olhos fitam o céu. Seria talvez mais exato dizer que o céu olha para baixo.
Nos momentos em que a febre, o sofrimento, a agonia dificultam o rezar, sentimo-nos fortemente solicitados a apertar nas mãos um rosário, índice de oração, melhor ainda se acariciarmos o crucifixo que dele pende.
Como as orações se sabem de cor, o coração pode deixá-las correr e deixar que elas se tornem o tema da meditação, realizando-se assim a recomendação da Sagrada Escritura de «se orar sempre».
Os mistérios preferidos serão então os dolorosos, porque meditando os sofrimentos de Nosso Senhor, os doentes são levados a unir os seus próprios sofrimentos dos dele, para que, tomando parte na sua Cruz, possam participar da sua Ressurreição.
O mundo!
Há uma cruzada mundial do rosário por este pobre mundo dilacerado.
Os homens faliram — nunca houve tantos homens pequenos em posições tão importantes!
As instituições políticas faliram — pois nenhuma reconhece na Lei uma fonte de autoridade extrínseca.
Mas há sempre Deus.
A paz só virá, quando os corações dos homens se modificarem.
Para o conseguirmos, devemos orar, e não por nós mesmos, mas pelo mundo.
O mundo significa todos: os Russos, os nossos inimigos, os nossos vizinhos.
Por isso eu projetei um rosário do Mundo Missionário.
Cada uma das cinco dezenas é de cor diferente. Representam os cinco continentes sob o aspecto missionário.
Uma dezena é verde pela África, para recordar as suas verdes florestas e porque o verde é a cor dos Maometanos, pelos quais devemos orar.
A segunda dezena é vermelha pelo continente Americano que foi fundado pelo Homem Vermelho.
A terceira dezena é branca pelo continente Europeu porque o seu pai espiritual é o Branco Pastor da Igreja.
A quarta dezena é azul pelo continente Australiano, a Oceania e as outras ilhas nas águas azuis do Pacífico.
A quinta é amarela pelo continente Asiático, a terra do Sol Nascente, o berço da civilização.
Quando se acabou de recitar o rosário, circunavegou-se o globo, abraçando-se todos os continentes, todo o povo em oração.
Não é necessário, naturalmente, que tenhais um destes rosários para rezardes pelo mundo. Podeis oferecer as vossas intenções com o vosso rosário habitual.
O nosso rosário tem esta tríplice vantagem. Cada cor recorda-vos a parte do mundo pela qual ofereceis a dezena.
Em segundo lugar, corresponde ao pedido de Nossa Senhora de Fátima de se orar pela paz do mundo.
Em terceiro, ajudará o Santo Padre e a Congregação da Propagação da Fé, materialmente, e espiritualmente os pobres seiscentos territórios missionários do mundo.
O mundo modificar-se-á, quando nós nos modificarmos.
Mas nós não podemos modificar-nos sem oração, e o poder do rosário é incomparável.
Eu insisto nos seus efeitos espirituais, porque os conheço.
Jovens em perigo de morte em consequência de desastres, salvam-se miraculosamente; é uma mãe em perigo durante o parto, a qual se salva com o seu filhinho; são alcoólicos que se tornam sóbrios; vidas dissolutas que se espiritualizam; há os que perderam a Fé e voltam a adquiri-la; famílias sem filhos são abençoadas com numerosa prole; soldados salvos durante as batalhas; angústias espirituais vencidas, pagãos convertidos.
Conheço um Judeu que durante a guerra mundial estava escondido no buraco aberto por uma bomba acompanhado de quatro soldados austríacos rebentavam estilhaços por todos os lados.
De súbito uma bomba matou os seus quatro companheiros.
Pegou no rosário dum deles e começou a rezá-lo. Sabia-o de cor, pois muitas vezes o tinha ouvido rezar aos outros.
No fim da primeira dezena teve o pressentimento de que devia deixar o seu buraco. Arrastou-se por cima da lama e da imundície e lançou-se noutro buraco.
Nesse momento, uma granada caiu em cheio sobre aquele em que primeiramente se havia refugiado.
Ao terminar cada uma das outras quatro dezenas novo pressentimento lhe veio de que tinha de mudar de lugar, e assim fez; verificaram-se quatro novas explosões nos buracos por ele abandonados.
A sua vida salvou-se. Prometeu dedicá-la a Nosso Senhor e à sua Santa Mãe.
Novos sofrimentos o aguardavam depois da guerra; a sua família fora queimada por Hitler.
Manteve a sua promessa. No ano passado batizei-o, e está agora estudando a fim de se preparar para o sacerdócio.
Aprendei a santificar todos os momentos livres da vida.
Podeis fazê-lo mediante o rosário. Enquanto caminhais pela rua, orai com o rosário escondido na mão ou na algibeira; guiando um automóvel, os circulozinhos divisores do volante podem ajudar-vos a contar as dezenas. Enquanto aguardais que vos sirvam na sala de jantar, ou esperais um comboio, ou parais num estabelecimento ou jogais o bridge; durante uma conversa, uma leitura ou uma transmissão radiofônica, suscetíveis de vos causarem aborrecimento.
Todos esses momentos podem ser santificados e utilizados em proveito da vossa paz interior.
Se quereis converter alguém, ensinai-lhe o rosário. Há de acontecer uma destas duas coisas: ou ele deixa de rezar o rosário ou alcança o dom da Fé.
Há milhões de pessoas que ouvem a minha palavra.
Praza a Deus que muitas respondam e orem pelo mundo e usem o nosso Rosário Missionário.
Tenho a certeza de que o fareis.
Uma vez que sois meus bons amigos, eu próprio vos hei de mandar um ramo de rosas.
Pois bem, tenho hoje uma cadeia inteira de rosas no rosário. E estas rosas, como botões em flor, têm o perfume de Deus.
Orai por meio deles, e o vosso coração estará no Paraíso.
No amor de Jesus!
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(*) Do livro “Nossa Senhora”, publicado pela Editora Paulinas em 1953 e atualmente fora de catálogo. Coletâneas de suas conferências feitas às sextas-feiras durante o programa Dumont na televisão americana, com audiência cativa de milhões de americanos.
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