terça-feira, 22 de agosto de 2017

O DEMÔNIO MUDO

Discípulo. — Padre, o senhor há pouco falou no "demônio mudo"; o quê vem a ser esse demônio mudo?

Mestre — É o demônio da impureza ou desonestidade. O próprio Jesus chama-o assim no Santo Evangelho.

D. — Mas o que é essa impureza ou desonestidade?
M. — São todos os pecados proibidos pelo sexto e nono mandamentos, isto é, as más ações, os maus olhares, os maus desejos e as infidelidades e malícias no matrimônio.

D. — Então a impureza é um pecado muito grave?
M. — É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus e dos homens. Abaixa os que o cometem às condições dos brutos, é causa de muitos pecados e provoca os maiores e terríveis castigos nesta e na outra vida. A Sagrada Escritura chama os pecados de impureza pelos nomes mais baixos: "crime péssimo, coisa detestável, horrível infâmia sem nome". São Paulo então, diz claramente: "Neque molles, neque fornicarii, neque adulteri... regnum Dei possidebunt". "Vida desonesta, morte impenitente". Isto quer dizer que nem os moles, que pecam sozinhos; nem os devassos; nem os adúlteros, que são infiéis no matrimônio, possuirão o reino de Deus!

D. — Pobres de nós! Devemos então estar sempre alerta.
— Certamente! Os santos Padres são todos da mesma opinião quando dizem que a impureza é o pecado que atrai maior número de almas para o inferno.

D. — Devéras?



M. — É isso mesmo! Santo Agostinho afirma que, assim como a soberba populou o inferno de anjos, a desonestidade enche-o de homens; e Santo Afonso acrescenta que todos os cristãos que são condenados, o são por causa da desonestidade, ou pelo menos, nunca sem ela.
D. — E qual será o motivo disso?

M. — Os motivos são especialmente dois:
1.° As desonestidades são pecados fáceis de cometer.
2.° Uma vez cometidos tais pecados, é difícil emendar-se.
D. — Por quê são pecados bastante fáceis de cometer? 
— Porque não devemos crer que os pecados de desonestidade consistem unicamente nas fornicações, nos adultérios e outros tantos pecados nefandos; esses são excessos. Para se pecar mortalmente contra a pureza bastam os olhares lascivos, as leituras obscenas, as canções impudicas, os gestos e as conversas maliciosas, os namoros licenciosos, e até os pensamentos e complacências íntimos e os desejos impuros quando consentimos neles livremente.

D. — E por quê são os mais difíceis para corrigir?
M. — Porque, infelizmente, um pecado chama outro, até que, pouco a pouco formase uma cadeia que depois não conseguimos mais romper. Neste caso também, ai daquele que começa!

D. — Será possível! mas a confissão não serve de nada? Não consegue romper a cadeia?
M. — A confissão é sempre um meio poderosíssimo, quando bem feita; é aqui no entanto que está o engano; aqui está toda a força do demônio mudo; ele fecha a boca como já vimos, e não permite que se confessem bem esses pecados.

D. — Oh! Mas se se confessarem bem todas as vezes não prosseguiriam no caminho da desonestidade, não é mesmo, Padre? A confissão seria mais forte do que eles.
M. — Justamente. O demônio mudo gosta das trevas, a confissão traz a luz, e a luz afugenta os pecados.

D. — Então, a misericórdia de Deus abandona o pecador desonesto?
M. — Não é Deus que abandona o desonesto, mas o desonesto que abandona a Deus, não se importando mais com Ele, ou pior ainda, desprezando-O como vimos no capítulo precedente. Portanto a desonestidade é chamada a mãe da impenitência final e os Santos dizem: "Vida desonesta, morte impenitente".

D. — E por que é a mãe da impenitência final?
M. — Porque na hora da morte, geralmente esse pecado não se confessa. Os pecadores não estão dispostos a confessar e a apagar o pecado com o devido arrependimento.

D. — Mesmo em ponto de morte?
M. — Sim, até em ponto de morte! E resignam-se a perder a Paraíso e ir para o inferno.

Lutero era um frade agostiniano: por um amor impuro deixou o convento, rebelou-se contra a Igreja, fundou o protestantismo e entregou-se a uma vida escandalosa. Uma noite estava ele no terraço de um hotel ao lado de Catarina Bora sua companheira de pecado. A temperatura era suave, o céu estava lindo e milhares de estrelas brilhavam no firmamento. Catarina, cansada talvez daquela vida de remorso, voltou-se de repente para Lutero e lhe disse:

— "Olha Martinho, como é lindo o céu!"
Aquelas palavras, Martinho exclamou com um suspiro profundo:
— Sim, Catarina, o céu é lindo, mas não é mais para nós!

O infeliz sentia que ia perder o Paraíso, mas se confessava incapaz de ressurgir e morria pouco depois naquele mesmo hotel, dando mostras do mais terrível desespero. "Vida desonesta, morte impenitente".

* * *

Teodoro Beza, sucessor de Calvino e chefe da reforma protestante, atingido por uma enfermidade mortal, foi visitado por São Francisco de Sales. Este com o seu zelo ardente tentou todos os meios possíveis para induzi-lo a abjurar o erro, voltar para o seio da Igreja Católica, e preparar-se para uma morte cristã. "Impossível" repetia, suspirando, o doente de quando em quando "impossível". Por fim, como o Santo insistia para saber o porquê daquela palavra "impossível", Teodoro com esforço, apoiou-se num cotovelo, puxou uma cortina que fechava uma alcova, e, mostrando uma mulher ali escondida: Eis aí, exclamou, a razão da impossibilidade de me converter e de me salvar! Preferiu a morte e o inferno, mas não deixou o pecado. Aqui também: "Vida desonesta, morte impenitente."

* * *

Na cidade de Spoleto, vivia uma jovem dissoluta, cuja existência era unicamente dedicada à vaidade e aos bailes. Aconselhada mais de uma vez a corrigir-se desprezava com soberba os avisos e fazia pouco caso deles. Sua própria mãe, orgulhosa da beleza e do brio da filha, sentia imenso prazer em vela cortejada por um bom número de amantes, e deixava as coisas correrem na esperança de encontrar um bom partido; de mais a mais acreditava que, passado o ardor da mocidade, ela acabaria sossegando.

Oh, mães cegas e imprudentes, que não só não se preocupam, mas ainda traem suas filhas, quando não são elas próprias que as arrastam à desonra e à ruína!

E o que aconteceu?

A infeliz moça caiu gravemente enferma. Pessoas sérias e respeitáveis da vizinhança aconselharam-na a chamar o sacerdote, a receber os sacramentos, preparar-se para a morte, enfim. Mas a pobre teimava:

— "Qual, repetia, é impossível, que eu tão moça e bela, morra; eu não devo, não devo morrer!"

Por fim, veio o Sacerdote; este por sua vez suplicava-lhe que tivesse juízo, que rezasse a Maria Santíssima porque a morte poderia surpreendê-la.

Qual morte, qual nada! Eu devo é viver! Eu não posso, não quero morrer!

Como a insistência aumentasse, por fim, percebendo que as forças começavam a faltar-lhe, com um esforço supremo, exclamou com ira:
— "Pois bem, se assim, se é que eu vou mesmo morrer, vem tu, Satanás, e toma a minha alma ti!" E, cobrindo o rosto com o lençol, entregou no demônio a alma desesperada.

"Vida desonesta, morte impenitente".

Ouça mais este exemplo, que o encherá de pavor:
Um cavalheiro vivia com uma moça de maus costumes. Aos que o aconselhavam abandoná-la ele respondia sempre com um desdenhoso "não posso". Mas a morte chegou para desuní-los.

O infeliz cavalheiro adoeceu gravemente, e, como estava nas últimas, chamaram um sacerdote para prepará-lo para dar o passo terrível. Tão caridoso e paciente foi o padre que o enfermo, humildemente, respondeu:
— Com prazer! Apesar de ter levado uma vida má, desejo ter uma boa morte com uma santa confissão.

— O senhor quererá receber também os Sacramentos como um bom cristão?

— É com prazer que os receberei, se vos dignardes de mos administrar.

— Mas isto não será possível se o senhor não despedir primeiro aquela moça.

— Ah, isso, Padre, eu não posso fazer.

— E por que não pode? Pode e deve fazê-lo, meu caro senhor, se quiser salvar-se.

— Mas eu repito não posso!

— Mas o senhor não vê que, com a morte, tão próxima, será obrigado a deixá-la por força?

— Não posso, Padre, não posso!

— Mas assim, eu não o absolvo, não lhe administro os Sacramentos e o senhor perderá o paraíso, será precipitado no inferno!

— Não posso!

— Será possível que eu não posso obter do senhor outra palavra? Pense na sua honra, na sua estima se morrer excomungado.

— Não posso, repetiu o infeliz pela última vez. E, agarrando a moça por um braço, puxou-a para si apertando-a com força ao peito, e assim, nos braços daquela mulher indigna, expirou.

D. — São tremendos, mas justos os castigos de Deus. Será possível, Padre, que não se pode mesmo abandonar o pecado?

M. — Na maioria dos casos, não se quer abandoná-lo, eis tudo! Santo Agostinho conta que um certo homen, não ouvia nem os conselhos nem as súplicas dos que procuravam convencê-lo a abandonar uma casa que freqüentava com grande escândalo. Não quis saber de nada, dizendo que absolutamente não podia. Aconteceu que um dia, naquela mesma casa lhe deram uma carga de pauladas das mais respeitáveis.

Acredite que ele abandonou no mesmo instante a casa: a impossibilidade toda desapareceu.

"Quod non fecit Dominus" acrescenta o Santo "fecit baculus": aquilo que Deus e o amor da alma não conseguiram, conseguiu-o a bengala.

CONFESSAI-VOS BEM - Pe. LUIZ CHIAVARINO

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Santíssima Eucaristia, nossa força contra nossos inimigos


Parasti in conspectu meo mensam adversus eos, qui tribulant me – "Preparaste uma mesa diante de mim, contra aqueles que me angustiavam" (Ps. 22, 5).

Sumário. Meu irmão, se te achas languido no bem, fraco no combate espiritual, põe a culpa sobre ti mesmo, porque não recebes a divina Eucaristia, ou a recebes sem as devidas disposições. Todos os Santos testemunham, e a experiência o confirma, que este divino Sacramento apaga o fogo das paixões, dá força e coragem para vencer o mundo com as suas vaidades, e debela todas as forças dos inimigos infernais. Numa palavra, os demônios, vendo uma alma incorporada no seu divino Chefe pela santa comunhão, ficam atemorizados e sem forças contra ela.

I. É com razão que a Santíssima Eucaristia foi simbolizada pelo pão milagroso que o Anjo preparou para Elias; pois, assim como o Profeta se sentiu de tal modo fortalecido, que pode subtrair-se à fúria de Jesabel e chegar ao monte do Senhor, assim os cristãos fortalecidos por este pão divino terão força para vencer todos os formidáveis inimigos que lhes estorvam o caminho da perfeição.

Diz São Cyrillo de Alexandria, e confirma-o Santo Tomás, que, "quando Jesus Cristo está dentro de nós, mitiga o ardor da nossa concupiscência, acalma as inclinações desregradas da carne, e robustece a piedade". Este Sacramento, qual fonte de água, apaga o fogo das paixões que nos consomem; por isso, quem se sentir abrasado pelo fogo de alguma paixão, aproxime-se da Mesa sagrada e logo a paixão será morta ou amortecida. – Pelo que dizia São Bernardo: "Meus irmãos, se alguém não sente tão frequente nem tão violentamente os movimentos da ira, da inveja, da incontinência, agradeça-o ao Santíssimo Sacramento, que operou nele tão salutar mudança."

Mais admirável ainda é a força que este alimento divino nos comunica para vencermos o mundo com as suas vaidades. D´onde credes que tiraram os primeiros cristãos aquela força heróica pela qual arrostavam a perda de todos os bens e mesmo a vida, entre os tormentos mais cruéis? Da recepção freqüente da santíssima Eucaristia: Erant perseverantes in communicatione fractionis panis – "Eles perseveravam na comunhão do partir do pão". Foi ali também que todos os santos acharam a força para se porem acima de todo o respeito humano.

Pelo seu entranhado amor a Jesus sacramentado, São Wenceslau, rei da Bohemia, não se contentava com a comunhão freqüente nem com as visitas repetidas do Santíssimo Sacramento, também durante as noites e no mais rigoroso do inverno; mas com as suas próprias mãos colhia o trigo e as uvas, preparava as hóstias e o vinho para uso no sacrifício da missa, desafiando desta maneira o mundo, que não podia com os seus dictérios desviá-lo daquela boa obra que ao pé dos altares ele resolvera praticar.

II. A santíssima Eucaristia mostra sobretudo o seu poder irresistível em combater por nós e conosco o inferno e em repelir todos os assaltos do demônio. O Doutor Angélico diz que os demônios, quando, pela santíssima Eucaristia, nos vêem unidos e, por assim dizer, incorporados a Jesus, nosso Chefe e Mestre, eles tremem, fogem e deixam de nos molestar, ou se ainda voltam ao assalto, as tentações pouca força têm para nos vencer: Repellit omnem daemonum impugnationem.

Acrescenta São João Chisóstomo que, vendo-nos tintos com o sangue de Jesus Cristo na santa comunhão, os demônios põem-se em fuga e os anjos acodem para nos fazer companhia. De tal modo que nos levantamos da sagrada Mesa como leões, animados de um ardor santo, e longe de temermos os espíritos infernais, somos para eles terríveis e formidáveis: Tamquam leones ignem spirantes ab illa mensa surgamus, diabolô formidabiles. – Daí provém essa profunda paz interior, essa forte inclinação para o bem, essa prontidão na prática das virtudes, essa facilidade em andarmos no caminho da perfeição.

Portanto, meu irmão, se por desgraça te sentes languido no bem, fraco no combate espiritual, acusa-te a ti próprio dizendo com Davi: "Fui ferido como feno, e o meu coração se secou, porque me esqueci de comer o meu pão" (1), que é a santíssima Eucaristia; e ao mesmo tempo toma a resolução de seres mais diligente no futuro.

"Eis aqui a que ponto chegou a vossa excessiva caridade, ó meu amantíssimo Jesus! Vós me preparastes uma divina mesa com a vossa carne e preciosíssimo sangue, para Vos dardes todo a mim. Quem pode impelir-Vos a tais transportes de amor? Foi unicamente o vosso amorosíssimo Coração. Ó Coração adorável do meu Jesus, fornalha ardentíssima do divino amor, recebei na vossa sacratíssima chama a minha alma, para que, nesta escola de caridade, aprenda eu a pagar com amor ao meu Deus que me deu provas tão admiráveis de seu amor."(2) – Fazei-o pelo amor de vossa e minha querida Mãe, Maria. (*IV 294.)

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1. Ps. 101, 5.
2. Indulg. de 100 dias.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 290- 292.)


Visto em: http://www.saopiov.org/2013/11/a-santissima-eucaristia-nossa-forca.html. 

sábado, 19 de agosto de 2017

DAS HUMILHAÇÕES E DESPREZOS QUE JESUS CRISTO SOFREU




Vidimus eum… despectum et novissimum virorum– “Vimo-lo… feito um objeto de desprezo e o último dos homens” (Is. 53, 3).
Sumário. Quem pudera jamais imaginar que, tendo o Filho de Deus vindo à terra a fazer-se homem por amor dos homens, viesse a ser tratado por eles com tamanhos insultos e injúrias, como se fosse o último e o mais vil de todos? No entanto, assim aconteceu. Jesus foi traído por Judas, negado por Pedro, abandonado por seus discípulos, tratado de louco, açoitado qual escravo, e, afinal, proposto ao homicida Barrabás, foi condenado a morrer crucificado. Ah! Se este exemplo de Jesus Cristo não cura o nosso orgulho, não há remédio que o possa curar.
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Diz Bellarmino que os desprezos causam mais pena às almas grandes do que as dores do corpo. Com efeito, se estas afligem a carne, aqueles afligem a alma, cuja pena é tanto maior quanto ela é mais nobre que o corpo. Mas quem teria jamais imaginado que o personagem mais digno do céu e da terra, o Filho de Deus, vindo ao mundo a fazer-se homem por amor dos homens, houvesse de ser tratado por estes com tamanhos desprezos e injúrias, como se fosse o último e o mais vil dos mortais? No entanto, assim aconteceu, pelo que Isaías disse: Vimo-lo desprezado e feito o último dos homens.
E que qualidade de afrontas não sofreu o Redentor em todo o tempo de sua vida, e especialmente em sua Paixão? Viu-se exposto a afrontas da parte de seus próprios discípulos. Um deles o traiu e vendeu por trinta dinheiros. Outro negou-o muitas vezes, mostrando assim que se envergonhava de o ter conhecido. Os outros discípulos, vendo-o preso e amarrado, fugiram todos e o abandonaram: Tunc discipuli eius, relinquentes eum, omnes fugerunt (1). Se Jesus Cristo foi tratado assim pelos seus próprios discípulos, faze-te uma idéia de como havia de ser tratado pelos seus inimigos mais encarniçados!
Ai, meu Senhor! No Sinédrio de Caifás vejo-Vos amarrado como um malfeitor; esbofeteado como homem insolente, declarado réu de morte como usurpador sacrílego da dignidade divina; e como homem já condenado ao suplício, vejo-Vos entregue à discrição de um canalha que Vos maltrata com pontapés, escarros e empurrões. Na casa de Herodes, Vos vejo, ó meu Jesus, feito alvo dos escárnios daquele rei impuro e de toda a sua corte; vejo-Vos coberto de um manto branco, tratado como ignorante e louco, e levado assim pelas ruas de Jerusalém. – No pretório de Pilatos, Vos vejo açoitado com milhares de golpes, qual servo rebelde, coroado de espinhos qual rei de teatro; posposto ao homicida Barrabás, e, finalmente, condenado a morrer crucificado. Por isso, vejo-Vos, por último, no Calvário, crucificado entre dois ladrões, praguejado, amofinado, insultado e feito o mais vil dos homens, homem de dores e opróbrios. Ai meu pobre Senhor!
As injúrias e os desprezos que Jesus Cristo quis sofrer no tempo de sua Paixão, foram tantos e tão grandes, que, no dizer de Santo Anselmo, não podia ser mais humilhado, do que realmente o foi. E o devoto Taulero diz que é opinião de São Jerônimo, que as penas sofridas por nosso Senhor, especialmente na noite que precedia a sua morte, só serão plenamente conhecidas no dia do juízo.
Mas para que tantos desprezos? É São Pedro quem no-lo diz: Jesus Cristo quis desta forma mostrar-nos quanto nos ama e ensinar-nos pelo seu exemplo a sofrermos resignadamente os desprezos e as injúrias: Christus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum, ut sequamini vestigia eius (2). Eis porque Santo Agostinho, falando das ignomínias padecidas pelo Senhor, conclui: “Se esta medicina não cura o nosso orgulho, não sei que outro remédio o possa curar!”
Ah, meu Jesus! Vendo um Deus tão desprezado por meu amor, não poderei eu sofrer o mais pequeno desprezo por vosso amor? Eu, pecador e orgulhoso? E d’onde, meu divino Mestre, me pode vir este orgulho? Pelos merecimentos das afrontas que tendes suportado por mim, dai-me a graça de sofrer, com paciência e com alegria, as afrontas e as injúrias. Proponho com vosso auxílio, d’aqui em diante, não me entregar mais ao ressentimento e receber com alegria todos os opróbrios de que eu possa ser alvo.  Mereceria outros desprezos, porque desprezei a vossa divina Majestade e mereci os desprezos do inferno. E Vós, meu amado Redentor, me fizestes verdadeiramente doces e amáveis as afrontas, quando aceitastes tantas afrontas por meu amor. Proponho além disso, para Vos agradar, fazer todo o bem que eu puder àquele que me desprezar, ao menos dizer bem dele e orar por ele. Desde já Vos peço que acumuleis todas as vossas graças sobre os de quem tenha recebido alguma injúria. Amo-Vos, bondade infinita, e quero amar-Vos sempre com todas as minhas forças. – Ó minha aflita Mãe, Maria, alcançai-me a santa perseverança.
  1. Marc. 14, 50.
    2. 1 Petr. 2, 21.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso
Fonte:

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 17 - Décimo artigo : Creio na remissão dos pecados

Catecismo Ilustrado - Parte 17

O Símbolo dos Apóstolos
Décimo artigo : Creio na remissão dos pecados
1. Cremos por este artigo : 1º que podemos alcançar de Deus a remissão dos nossos pecados; 2º que Jesus Cristo deixou à sua Igreja o remédio para perdoar todo tipo de pecado.

2. Podemos alcançar o perdão de todos os pecados, por muito graves e enormes que sejam.

3. Deus perdoa os pecados por meio dos ministros da Igreja a quem Jesus Cristo conferiu esse poder. Esses ministros são os bispos e os sacerdotes.

4. Recebemos o perdão dos pecados principalmente pelos sacramentos do Batismo e da Penitência. O pecado original é-nos perdoado pelo Batismo e os pecados mortais pelo sacramento da Penitência e também pela contrição perfeita acompanhada do voto de nos confessarmos.

5. Os pecados veniais podem ser perdoados sem ministério exterior da Igreja; além dos sacramentos, as orações, as esmolas e outras boas obras podem obter a remissão deles.

6. Os pecados são perdoados pelos merecimentos de Jesus Cristo.
7. O Benefício da Remissão dos pecados é uma obra não inferior à criação do mundo, e ao ressuscitar dos mortos.

8. Só Deus é que pode perdoar os pecados. Sendo Jesus Cristo Deus, tinha também aquele poder; tinha-o também como homem, porque a natureza humana estava unida n’Ele à divindade, e vemos no Evangelho que usou muitas vezes daquele poder. Como primeiro exemplo está a cura do paralítico. “Um dia entrou Jesus outra vez em Cafarnaum, e soube-se que Ele estava em casa, juntou-se muita gente, de modo que não se cabia, nem mesmo à porta. Nisto chegaram alguns conduzindo um paralítico que era transportado por quatro homens. Como não pudessem levá-lo junto d’Ele por causa da multidão, descobriram o teto na parte debaixo do qual estava Jesus e, tendo feito uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Vendo a Fé daqueles homens, disse ao paralítico : “São te perdoados os pecados”. Estavam sentados ali alguns escribas que diziam nos seus corações : “como é que Ele fala assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?” Jesus conhecendo logo no Seu espírito que eles pensavam desta maneira dentro de si disse-lhes: “Por que pensais isto nos vossos corações? O que é mais fácil dizer ao paralítico: São-te perdoados os pecados ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados, - disse ao paralítico -: “Eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”. Imediatamente ele se levantou e, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, de maneira que se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos coisa semelhante”.” (Marcos II, 3-13)

9. Na sua infinita bondade, Nosso Senhor comunicou esse poder a São Pedro, e de seguida, no mesmo dia da sua ressurreição, a todos os Apóstolos e por eles a todos os seus sucessores legítimos. “Tendo chegado à região de Cesareia de Filipe, Jesus interrogou os seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” E eles responderam: “Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas”. Jesus disse-lhes: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Respondendo Simão Pedro, disse: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo”. Respondendo Jesus, disse-lhe: “Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela, Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligardes sobre a terra será ligado também nos Céus e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também nos Céus”.” (Mateus XVI, 13-19). “Chegada a tarde daquele mesmo dia (da ressurreição) e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos estavam juntos, por medo dos Judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor. Ele disse-lhes novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também vos envio a vós”. Tendo dito estas palavras soprou sobre eles, e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os reterdes, ser-lhes-ão retidos”.” (João XX, 19-23).

Explicação da gravura

10. A gravura representa São Pedro recebendo de Nosso Senhor as chaves, com o poder de fechar e de abrir, de ligar e de desligar, isto é de perdoar ou não os pecados.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

INSTRUÇÕES AO PAIS E MÃES DE FAMÍLIA




DOCUMENTOS COMPOSTOS POR S. CARLOS BORROMEU,
Arcebispo de Milão,


Para os Pais e Mães de Famílias,

para criar seus filhos honrando a Deus: com as bênçãos dadas por Deus para os bons, e maldições para os maus que não honram a seus pais e mães.

Tirados da sua santíssima vida por um devoto seu.

Ano de 1631
Con licença em Barcelona




DOCUMENTO I - Dos Pais e Mães de Famílias, Para Conservar a Paz Entre Si e a Família

Ofício do Pai de Família

Seja Cristão de nome e de obras. Honre e reverencie aos grandes, aos Sábios, aos Legisladores e às Leis;
Nas conversas, considere o tempo, o lugar, e as pessoas;
Procure não desagradar aos maus, procure agradar aos bons e prudentes;
Antes de travar amizade, considere com quem e qual o motivo;
Em todas as ocasiões, diga a verdade, e com poucas palavras;
Tenha à mulher para a geração e companhia; durante o dia não esteja triste nem alegre [mas sereno];
Não ponha a descoberto os seus segredos, nem os alheios;
Seja senhor absoluto de tudo o que tiver;
Não seja pródigo, para não ser vituperado;
Não seja avaro, para não ser blasfemado;
Estime a mulher nas coisas necessárias;
Não trave com ela contenda, nem a advirta em público;
Seja prudente no contratar, concluir, e obrar;
Não consinta que sua mulher vá ou se encontre "em velas", festas, e jogos;
Seja para sua mulher não apenas marido, mas também amoroso pai, irmão e mestre;
Supra no governo da família a falta da mulher;
Não torne a mulher demasiado rigorosa e desesperada, mas também não permita que ela esteja entregue aos seus gosto e seja dissoluta;
Não beije nem mime sua mulher na presença dos filhos ou filhas;
Não seja cruel em castigar, nem fácil em perdoar o erro cometido;
À mulher e família, torne-as mais temerosas com palavras do que com feridas e golpes;
Faça por vezes uma vistoria para ver se na sua casa e seus haveres não há perigos;
Dê a toda a sua casa o devido mantimento, assim como aos servos, ou o devido prêmio acordado;
Ponha fora de sua casa o servo ou criado que persevera em pecado, ou haja caído noutro mais feio que o primeiro;
Provenha adequadamente e o mais necessário em casa, deixando-o então à custódia da mulher;
Não se ocupe tanto em juntar riquezas que chegue a esquecer-se daqueles a quem deve deixá-las;
Em ocasiões de floresta, festas, ou regozijos, não deixe tudo a cargo da mulher;
Fuja da inveja e dos zelos, e não se deixe vencer pela ira;
Levante-se cedo, e deite-se tarde;
Não se habitue, nem consinta que em sua casa haja costume de manjares regalados;
Recorde-se que antes de ser pai foi filho;
Crie seus filhos com temor e reverência;
Repare o escândalo de sua casa;
Esquive, ou prive os seus filhos de serem conversa e trato de muitos;
Adorne seus filhos de santa doutrina e de cortesia de criança;
O governo e criança [criação] de seus filhos, deixe-os apenas às pessoas doutas e de bom exemplo;
Busque ou procure  o dote para as filhas, e a mulher o procure para os filhos;
Nos feitos prósperos, não se tenha elevado, nem pelos (feitos) adversos fique abatido ou se faça vil;
Não ande nem consinta andar à noite;
Seja a sua regra: desejo de honra e temor de infâmia;
Como o mar desgasta a rocha ferindo-a e batendo nela, assim o marido vagabundo faz com sua mulher;
É melhor mandar em mulher feia, que obedecer a mulher formosa.


DOCUMENTO II - Da Mãe de Família

Fazer todos os dias oração a Deus rogando pelo marido e pelos filhos;
Ler livros apurados pela Igreja;
Contentar-se pelo marido que Deus lhe deu;
Sujeitar-se ao marido como sua cabeça;
Amar o marido, e não formosura, força, ou riqueza dele;
Amar no marido a bondade, a modéstia, e a prudência;
Imitar o marido, não cuidando senão das coisas lícitas aos dois;
Não fazer coisa fora do cuidado da família sem licença do marido;
Não fazer, nem dizer uma coisa por outra ao marido [enganar];
Nunca responda mandando à cara do marido ........ [?];
Na conversação não ultraje nem faça vil o marido;
Ao marido e aos maiores não interrompa ou impeça o raciocínio ou prática;
Para o seu marido seja mansa, amorosa, e constante;
Às questões do marido responda com verdade e prontidão;
Olhe o marido e os filhos com rosto alegre;
Alimente os seus filhos com leite próprio;
Quando não há obrigações de preceito e o marido está enfermo, não deve ir à igreja;
Guarde os segredos do marido e não os conte a pessoa vivente;
Não tenha trato, nem conversações, senão com o marido e filhos;
Seja amorosa e agradável, tanto no fazer como no dizer e no ordenar;
Estime e respeite o marido ausente, como se estivesse presente;
Não aceite presentes senão dos parentes não afastados;
Fuja da curiosidade de saber dos feitos alheios;
Não fale dos homens sem que disso haja concreta necessidade;
Quando não é escusado falar, que seja com poucas palavras;
Não fale, nem consinta que se fale em segredo;
Não se afeiçoe mais a um filho que a outro;
Nunca diga nem ensine (os filhos) a dizer "isto é meu, isto é teu";
Ensine com o próprio exemplo, e não com gritos e ameaças fora da necessidade;
Não consinta praticar, ou que entrem em casa pessoas infames, de má vida e más mãos;
A criada que uma vez "errou", ou "caiu em erro", não a tenha em casa;
Não faça cara de esquiva, ou de melindrosa, e muito menos de desavergonhada;
Não escarneça, nem zombe de ninguém, fazendo gestos ou cara feia;
Não demande nem pergunte ao marido mais do que aquilo que ele possa e queira dizer;
Não escute nem fale de coisas ilícitas;
Não creia em superstições, encantamentos ou "sonhos";
Não vá a diversões, porque nem voltará melhor;
Leve cara limpa, não depilada, vestindo-se em conformidade com o seu estado;
Nunca deixe que as filhas e criadas andem ociosas, mas sim exercitadas em alguma atividade.


DOCUMENTO III - Das Bênçãos Dadas Por Deus Aos Filhos Que Honram a Seus Pais, e Mães.


Primeira Bênção

Honra teu Pai e a tua Mãe, para que tenhas larga vida, como se lê em Êxodo 20. 
Esta primeira bênção é sobre a longevidade, da qual foi exemplo Sem, filho de Noé, de quem a vida não se acha princípio nem fim na Escritura: pelo contrário Cam, viveu poucos dias, por ter desonrado seu pai, como se vê no cap. 9 dos Génesis.

Segunda Bênção

Aquele que honra Pai e a Mãe será alegre e contente, e seus filhos serão ouvidos em tempo de oração, como está escrito no cap. 3 do Eclesiástes.  
Esta bênção é sobre a alegria e contentamento que se tem relativamente aos filhos, da qual nos é dado o exemplo de José filho de Jacob, que por obediência a seu pai e pela honra que lhe prestou o fez alegre e contente entre seus filhos ... como se lê no Génesis cap. 18.

Terceira Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe, acumula um tesouro no Céu, e na terra, como se lê no Eclesiástes cap. 3. 
Esta bênção é sobre os bens Espirituais e temporais, os quais concede Deus aos bons, dos quais temos como exemplo a Salomão, o qual não apenas honrou muito seu pai como também sua mãe, e por isto viveu felizmente no Reino até muito velho, tal como se lê em Reis III cap. 2. Mas, pelo contrário, Absalão que perseguia seu pai, foi morto com três dardos de Joab, Príncipe do exército, como se vê em Reis II cap. 18.

Quarta Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe serve ao Senhor com todos seus bens, como se lê no Eclesiastes cap. 3. 
Esta bênção é relativa aos bens Espirituais, da qual é exemplo Jacob filho de Isaac, o qual foi eleito de Deus, e bendito do pai. Pelo contrário, Ezaul foi reprovado, como o indica o Génesis cap. 27.

Quinta Bênção

Honra teu pai, para que venha sobre ti a bênção de Deus, e serás bendito, como está dito em Eclesiastes cap. 27. 
Esta Bênção dá-se principalmente por Deus aos filhos bons, e obedientes. O que significa ser bendito de Deus, senão outra coisa que a Graça divina que Dele se recebe?


DOCUMENTO IV - Das Maldições Dadas Por Deus Aos Filhos Que Desonram Seus Pais e Mães

Primeira Maldição

Aquele que a seu pai, ou mãe, maldisser, seja morto, e morrerá seu sangue... como se lê em Eclesiastes cap. 20. 
Esta maldição está confirmada por Deus em Deuteronómio cap. 20, onde manda Deus que se alguém engendrar um filho desobediente e perverso, que os homens da Cidade o matem com pedras, e morra, para que saia do caminho tal pestilência do meio deles, como se lê no dito capítulo.

Segunda Maldição

Maldito seja aquele que não honra a seu pai, e sua mãe, e diz todo o povo, assim seja, como se lê em Deuteronómio cap. 27. 
Esta maldição foi dada por Deus, e por isso é de grande importância.

Terceira Maldição

Aquele que afligir Pai ou Mãe será afrontado, e infeliz, como se lê em Provérbios cap. 19. 
Esta maldição se manifestou em Absalão, coisa que já foi  dita e que agora se vê cumprida em todos os outros filhos que afligem o pai ou a mãe.

Quarta Maldição

Aquele que maldisser Pai ou Mãe verá apagar-se seu lume no meio das trevas, como se lê  em Provérbios 20.  
Todos os filhos temam esta mortal maldição, na qual se mostra, que assim são privados de toda a luz, que é a luz da graça e da glória, porque sempre estarão em trevas enquanto vivam, e na morte ouviram aquela voz de Cristo que diz: deitai-os à escuridão interior.

Quinta Maldição

Aquele que negar seu Pai ou Mãe as coisas necessárias, é um homicida, como se lê em Provérbios cap. 18. 
Este foi aquele mau e perverso costume dos Escribas, e Fariseus, os quais mandavam aos filhos que, por voto, obrigasse o Templo à fazenda de seus pais e mães, contra os quais grita e fala Cristo, por S. Mateus cap. 15 dizendo "Vós haveis anulado o preceito de Deus, com vossas ordenações, e constituições".

Os filhos obedientes foram sempre agradáveis a Deus, os filhos desobedientes foram sempre castigados, e muitos deles reprovados.


DOCUMENTO V - Dos Exemplos Para os Filhos Que não São Obedientes a Seus Pais e Mães

I Exemplo

Cesareu escreve que, no monte da Cecília, se abrasava uma montanha, cerca da qual havia algumas vilas, e havendo chegado o fogo às casas, fugiam as gentes que nelas havia e alguns (que não podiam fugir) dos filhos deixavam os pais, e outros os levavam às costas; o fogo passava adiante, e abrasava aqueles que fugiam, e deixava seus pais, e aos que livraram os pais, mesmo os que estavam cercados de fogo, não lhe fazia dano algum, porque Deus os preservava, porque guardavam o preceito de honrar pai e mãe.

II Exemplo

Também se lê que, uma parte de Itália, um filho por não querer obedecer à mãe, a mãe lhe deu, ou enviou esta maldição (maldição, ou blasfêmia) como se disséssemos, convém saber: "Sejas morto, e nem o ar, nem a terra, nem a água, nem o mar te possam receber". E assim não passou muito tempo, que lhe alcançou a maldição. Porque a Justiça o enforcou, e não podendo permanecer na forca foi deitado a um rio, o qual não o deteve, nem conservou, pelo qual o tiveram que enterrar, mas aconteceu que pareceu que nem a sepultura o queria dentro de si. Finalmente o deitaram ao mar, o qual o largava nas margens. Então a mãe lembrou-se da maldição que tinha dado, e lhe fez atar uma grande pedra ao pescoço para que fosse novamente deitado ao mar: mas não foi bastante, pois a força do mar o fez chocar contra umas rochas e o desfez em quatro partes que se foram afastando cada um para seu lado desaparecendo para longe. Eis a maldição lançada por esta mãe.

III Exemplo

Outro houve em Roma que, sendo condenado à força, quando chegou onde havia de morrer, levantando os olhos, reconhecendo o lugar, disse estas palavras: "Aí de mim! Aí de mim. Agora sei que veio a justiça de Deus sobre mim; não pelo mal feito, mas porque neste lugar, quando tive o atrevimento de levantar a mão contra minha mãe, disse-me ela "Que aqui te vejam na forca"... e agora vejo cumprida a maldição". E então foi enforcado.

IV Exemplo

Escreve também de alguém que, para deixar o seu filho com vantagem e rico lhe fez uma doação de todos os bens. E assim ficou o pai à mercê do filho, mas o filho fazia-lhe passar extremas necessidades, ao ponto de o não querer mais em casa e passando a viver de esmolas. Um dia, à hora de comer, foi a casa do filho para comer com ele. O criado deu aviso da chegada daquele pai, e aquele filho mandou uma criada retirar da mesa um prato de carne que nela estava, juntamente com o demais, ficando apenas um pão. Diante do filho, sentou-se à mesa, comeu do pão, e no final saiu, ficando o filho a murmurar de enfado e mandando à criada trazer a carne de volta. Mas, esta carne, depois de colocada na mesa volveu-se num hediondo e sujo sapo que logo lhe saltou à cara. Este bicho tinha ácidos, a cabeça era voltada para cima, as patas ácidas . Foram chamados cirurgiões [médicos] para tentar despegar o bicho, o qual parecia enfurecer-se contra eles; visto tal incógnito e horrível prodígio, optaram por abandonar o caso. Viveu durante 13 anos neste estado, e morreu. O Padre de lá foi quem deu a notícia a S. Carlos Borromeu que sucedeu naquela Diocese, quem o mandou ir por todo o Arcebispado dar exemplo disto que tinha visto, desmotivando os tíbios na desobediência aos seus pais e mães.

Laus Deo, et Mater eius.

Fonte: 


[tradução: ASCENDENS]

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A alegria no serviço de Deus


"Mas dirão alguns: se começamos agora a servir a Deus, tornaremos tristonhos.

Respondo-vos que isso não é verdade.

Andará triste quem serve ao demônio, pois que, por mais que se esforce para estar alegre, terá sempre o coração a lhe segredar entre lágrimas: És infeliz, porque és inimigo do teu Deus.

Quem mais afável e jovial que São Luís Gonzaga?

Quem mais alegre e gracioso do que São Felipe Néri e São Vicente de Paulo?

E contudo, a vida deles foi um contínuo exercício de todas as virtudes.

Ânimo pois, meus caros filhos; dedicai-vos em tempo á virtude e eu vos garanto que tereis sempre o coração alegre e contente e experimentareis quanto é doce e agradável o serviço do Senhor."


Excerto de “O Jovem Instruído”
 São João Bosco

MARIA SANTÍSSIMA É O REFÚGIO DOS PECADORES


Convenite et ingrediamur civitatem munitam; et sileamus ibi — “Ajuntai-vos, e entremos na cidade fortificada, e guardemos aí silêncio” (Ier. 8, 14).
Sumário. Nas cidades antigas de refúgio, não achavam abrigo todos os delinqüentes, nem para toda a espécie de delitos. Mas debaixo do manto da proteção de Maria, todo o pecador acha refúgio, seja qual for o crime cometido; porquanto foi esta a vontade de Deus constituindo-a Refúgio dos pecadores. Não desanimemos, pois, meu irmão; mas, seja qual for o nosso estado, chamemos a divina Mãe em nosso auxílio e acha-la-emos sempre pronta a ajudar-nos em todas as necessidades. Invoquemo-la especialmente sob o título que ela preza tanto, de Mãe do Perpétuo Socorro.
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Um dos títulos com que a santa Igreja nos manda recorrer a Maria, e que mais anima os pobres pecadores, é o titulo de Refúgio dos pecadores. Antigamente havia na Judéia umas cidades de refúgio, aonde iam parar os delinqüentes para ficarem livres do castigo que mereciam. Agora não há tantas cidades de refúgio como então, mas há uma só, que é Maria, da qual está escrito: Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei(1) — “Coisas gloriosas se têm dito de ti, ó cidade de Deus”. Há, porém, uma diferença. Nas cidades antigas não havia refúgio para todos os delinqüentes, nem para toda a espécie de delitos; mas, debaixo do manto de Maria todos os pecadores acham refúgio; seja qual for o delito que hajam cometido: basta que a ela recorram para se refugiarem. Pelo que São João Damasceno a faz dizer: “Eu sou a cidade de refúgio para todos aqueles que vêm a mim.” O Bem-aventurado Alberto Magno aplica à Virgem Maria estas palavras de Jeremias: Ajuntai-vos, e entremos na cidade fortificada.
Logo que alguém entrar nesta cidade mística, recuperará a graça divina. Nem sequer lhe é preciso falar para ser salvo. Et sileamus ibi — “Guardemos aí silêncio”. Sim, porque a Virgem piedosa, vendo-nos sem ânimo de pedir ao Senhor, falará por nós, e tão eficazmente, que, conforme a revelação de Jesus Cristo à Santa Brígida, ela obteria o perdão mesmo para Lúcifer, se (coisa aliás impossível) o espírito orgulhoso se humilhasse a pedir-lhe proteção.
Numa palavra, conclui São Bernardo, que Maria não tem horror de qualquer pecador, por imundo e abominável que seja. Contanto que recorra a Maria e lhe implore misericórdia, ela, o Refúgio dos pecadores, não hesitará em lhe dar a mão piedosa, afim de o arrancar do fundo da desesperação. Oh! seja sempre bendito e louvado nosso Deus, que nos deu uma Mãe tão doce e tão benigna. — ó Maria, infeliz de quem não vos ama! Infeliz de quem não recorre a vós, não confia em vós.
Meu irmão, seja qual for o estado da tua alma, ouve como São Basílio te anima: “Não desanimes”, diz o Santo, “mas em todas as tuas necessidades recorre a Maria; chama-a em teu auxílio, sempre a acharás pronta a te socorrer; pois que é esta a vontade de Deus, que ela socorra a todos e em todas as necessidades.
Invoca-a especialmente sob o título que lhe é tão caro, o de Mãe do Perpétuo Socorro. — Esta Mãe de misericórdia tem tão grande desejo de salvar os pecadores mais perdidos, que ela mesma os vai procurando para os auxiliar. Quanto mais, portanto, não auxiliará aos que a ela recorrem! Só se perde quem não recorre a Maria; mas quem jamais se perdeu depois de ter recorrido a ela e posto nela a sua confiança?
† Ó Mãe do Perpétuo Socorro, eis aqui a vossos pés um pobre pecador, que recorre a vós e em vós confia, ó Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim. Eu ouço como todos vos chamam refúgio e esperança dos pecadores; sede, pois, meu refúgio e esperança minha. Socorrei-me pelo amor de Jesus Cristo; estendei a mão a um pobre pecador que se vos recomenda e para sempre se consagra ao vosso serviço. Eu dou graças e louvores a Deus, que na sua misericórdia me inspirou esta confiança em vós, a qual eu considero como penhor da minha eterna salvação. Se até agora tantas vezes tenho caído, foi por não ter recorrido a vós. Sei que por meio do vosso auxílio vencerei, e também que vós me acudireis, sempre que vos invocar; mas o que temo é esquecer-me de vós nas ocasiões do pecado, e assim me perder. Eis, pois, a graça que vos peço e encarecidamente vos suplico, de recorrer sempre a vós em todos os assaltos do inferno, dizendo: Ó Maria, valei-me; ó Mãe do perpétuo socorro, não permitais que eu perca a meu Deus (2). (*I 57.)
  1. Ps. 86, 3.
    2. Indulgência de 100 dias.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso