quarta-feira, 24 de maio de 2017

Virtudes para uma família cristã

O lar que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade



LEITURA MEDITADA
“Irmãos: revesti-vos como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia e paciência, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixas contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também. Mas sobre tudo isto: tende a caridade que é o vínculo da perfeição; e reine em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite em vós abundantemente a palavra de Cristo, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando em vossos corações, com a ação da  graça, louvores a Deus. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por Ele a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém ao Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes” (Colossenses, III, 12-21).
Nestas exortações de S. Paulo temos os elementos indispensáveis para a felicidade das nossas famílias. Assim, o Apóstolo, às opiniões do modernismo, destruidor dos mais sagrados vínculos, opõe os preceitos e virtudes criadores de uma felicidade e de uma paz ainda possível neste mundo. Aí está o segredo da paz familiar. Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que os filhos das trevas são mais prudentes nos seus negócios que os filhos da luz nos seus. Só para dar dois exemplos: O comerciante, aos clientes oferece prontamente suas mercadorias, ocultando a sua irritação quando as desprezam e sem ofender-se quando as recusam. Que “misericórdia”; que “paciência”; que “benignidade”; que ‘humildade”; que “perdão das ofensas”; que “que sorrisos de amabilidade!”. O político, a todos acolhe com amabilidade, tolerante com quem o importuna e prestimoso com quem lhe pede auxílio.  O comerciante faz tudo isto como se fosse um santo, mas não: é só para ganhar dinheiro. (Não quero com isto negar que há comerciante santo também). O político parece praticar virtudes heróicas, mas, na verdade, pensa só em conseguir votos, e consequentemente: honra e sobretudo, dinheiro. (Também aqui não pretendo negar que possa existir político santo: é difícil, mas para Deus nada é impossível).
Mas, caríssimos, qual destes motivos compara-se ao grande bem na paz familiar? Dádiva do céu, ela transforma o lar em um vestíbulo do paraíso, as agruras da vida em oásis de bênçãos. A paciência, a humildade, a benignidade, a misericórdia, ensinam aos cônjuges  a arte de se suportarem uns aos outros. Sigam os cônjuges os conselhos de São Paulo supracitados, e as divergências que pareciam separá-los virão a soldar ainda mais o vínculo matrimonial. Saibam os cônjuges perdoar-se mutuamente. Enquanto um momento de silêncio restituirá a bonança; um revide protrairá a tempestade por longos dias e semanas inteiras. Tal como Jesus generosamente perdoou nossos graves crimes, perdoem-se os esposos, com igual generosidade, as discrepâncias de temperamento e de caráter.
A caridade é o liame destinado a unir os fiéis entre si e com Deus. Nesta união consiste toda a perfeição cristã. O amor da paz deveria inspirar todos os sentimentos dos esposos como convém a membros de um só corpo. O lar verdadeiramente cristão deveria estar sempre agradecido a Deus pelos favores d’Ele recebidos. Os ensinamentos e máximas de Nosso Senhor Jesus deveriam ser a bússola em toda a sua conduta e empreendimentos. De um lar cristão são banidas e execradas as máximas do mundo.  “Exortai-vos uns aos outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais”, insiste o Apóstolo, assim apontando-nos na oração a maior garantia de paz para o lar. A oração é ao mesmo tempo, fonte de onde haurimos as energias necessárias para os momentos trágicos que não faltam na existência de cada indivíduo, como não faltam na vida de toda família. Repudiando os maus conselhos de um mundo colocado no Maligno, busquem os esposos na Santa Religião e no seu Deus o conforto que anima, e da prece fervorosa de um coração que sofre sairá a arma vitoriosa que tudo suporta. “Onde quer que dois ou três se acharem reunidos em meu nome – diz Jesus Cristo – estarei eu no meio deles” (S. Mateus XVIII, 20). Na verdade, nunca um lar se sente mais unido como quando todos os componentes se voltam para Deus repetindo todos a mesma prece divina: “Pai Nosso que estais no céu”. O lar, porém, que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade. Seguindo, pois, os conselhos do Apóstolo São Paulo, não será difícil aos nossos lares realizar aquela felicidade que fará das famílias cristãs outros tantos vestíbulos do céu.
Para terminar, lembremos algo sobre a MISERICÓRDIA. O Rei Davi era um homem santo. A própria Bíblia mostra-o para os outros reis, como um modelo de fidelidade a Deus. Mas, num momento de ociosidade e fraqueza cometeu o gravíssimo pecado de adultério e, em consequência o homicídio, outro pecado muito grave. Deus, através do profeta Natan, abriu-lhe os olhos e tocado de sincero arrependimento exclamou: “Pequei”.  Davi chorou a vida toda estes seus graves pecados. Não perdia oportunidade de fazer penitência e escreveu o Salmo 50,Miserere. Eis apenas alguns versículos deste belíssimo salmo de penitência: “Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade” (vers. 1-3); “O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito, não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado” (vers. 19).

terça-feira, 23 de maio de 2017

São José, Pai Virginal de Cristo e Esposo de Maria Virgem

Toda alma católica deve ser devota de São José, em virtude de sua excelência em virtude de sua função enquanto esteve em vida e em virtude de sua função agora no céu, como Patrono da Igreja, principalmente. São imensas as graças que São José pode nos alcançar



Sermão para a Festa de São José, Esposa da Santíssima Virgem Maria
20.03.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Dois títulos de São José demonstram a sua enorme grandeza. Títulos que correspondem, claro, ao que ele foi verdadeiramente. Esposo de Maria Santíssima e Pai Virginal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se consideramos essas duas coisas em São José, podemos entrever a sua grandeza. Sua grandeza que está na sua santidade. Todo o resto em São José decorre de sua paternidade e de seu matrimônio, como a fruta madura decorre da árvore boa. Por ser esposo de Maria Santíssima e Pai Virginal, adotivo, nutrício de Cristo, São José está intimamente ligado ao mistério da encarnação, atrás apenas de Nossa Senhora.
São José exerceu sobre Jesus os direitos de um verdadeiro pai, do mesmo modo que tinha os direitos e deveres de esposo para com Maria, ainda que tenha renunciado ao exercício de alguns direitos próprios do matrimônio. Nossa Senhora, ao encontrar o Menino Jesus no Templo em Jerusalém, depois de três dias buscando-o, diz: “Eis que teu pai e eu te procurávamos.” Nossa Senhora chama São José de pai, prova certa de que Cristo o chama de pai. Que glória a de São José! O Evangelho nos diz claramente que São José era o esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, chamado Cristo. Que glória a de São José: pai adotivo de Jesus Cristo e verdadeiro esposo de Maria Virgem.
Considerando essas funções de São José, podemos ter uma pálida ideia do que foi a sua santidade aqui na terra. Deus dá a cada um a graça proporcional para a missão que lhe é confiada. Depois da função de mãe de Deus, a função mais excelsa é a função de esposo da mãe de Deus e de Pai adotivo do Verbo Encarnado. Em razão dessa dupla função, a santidade de São José é imensa, a maior depois da santidade de Nossa Senhora. Além disso, Deus faz as coisas proporcionais: poderia São José ter uma santidade somente grande e conviver tão proximamente coma Santidade Encarnada e com Nossa Senhora? Uma Santidade grande seria ainda desproporcional e daria à Sagrada Família um quê de inconveniente. Portanto, a santidade de São José era imensa, a maior dos homens que já existiram, atrás apenas da santidade de Nossa Senhora. São João Batista é o maior dos homens no sentido de ser o maior dos profetas, como explicado no Evangelho de São Lucas. São José é maior dos homens, sem mais. É o mais santo.
Se o patriarca José, um dos filhos de Jacó guardava os tesouros do faraó, e por isso era estimado e reconhecido por sua sabedoria, quanto mais São José, que guardou o próprio Deus e a Mãe de Deus? Esse argumento da ordem e da proporcionalidade com que Deus faz as coisas nos permite também dizer que São José não era um idoso em idade avançada. Se fosse, a Sagrada Família seria motivo de estranheza, o que não convém. São José era um homem formado, mas com idade conveniente para casar com a jovem Maria.
Tem como descrever o progresso na santidade de São José em virtude do contato com Jesus e com Maria? Ele não recebia os sacramentos. Era o próprio autor dos sacramentos que estava em contato com ele. Que progressos não teria com esse contato tão próximo? São José é o modelo de virtude para o homem. E brilham nele, primeiramente, as virtudes da vida escondida, que levavam em Nazaré: a pureza, a humildade, o desapego dos bens desse mundo, a paciência, a prudência, a fidelidade. A fé vivíssima, a esperança firmíssima e a caridade ardentíssima.
São José, sendo o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e o esposo de Maria, é também o patrono da Igreja Universal. Foi proclamado como tal pelo Papa Pio IX no decreto Quemadmodum Deus, em razão dos pedidos insistentes dos bispos reunidos no Concílio Vaticano I. Se ele foi o protetor da Sagrada Família em Nazaré, continua sendo o protetor da família fundada por Jesus Cristo, que é a Igreja Católica. São José prossegue no seu ofício de velar por Cristo, agora em seu Corpo Místico, que é a Igreja.
São José é também o patrono dos agonizantes. Ele teve a morte mais desejável: entre os braços de Cristo e de Maria. A piedade popular rapidamente viu o patrocínio de São José para os moribundos e comprovou a sua eficácia no momento da morte de seus devotos. Na ladainha de São José, aprovada pelo Papa Pio XI, lá está o título de Padroeiro dos agonizantes ou moribundos.
Toda alma católica deve ser devota de São José, em virtude de sua excelência em virtude de sua função enquanto esteve em vida e em virtude de sua função agora no céu, como Patrono da Igreja, principalmente. São imensas as graças que São José pode nos alcançar. Graça de pureza em meio a esse mundo cada vez mais corrompido. Graça de contemplação nesse mundo cada vez mais agitado. Graça do desapego nesse mundo, para buscarmos nosso tesouro em Deus, nesse mundo cava vez mais materialista. Graça de cumprir bem nossos deveres de estado, também o nosso trabalho em um mundo cada vez mais negligente com tudo. Graça de mansidão, de paciência. Devemos, porém, pedir também grandes graças para a Igreja. Muitas vezes, pedimos s São José somente coisas materiais. Não é ruim e o glorioso pai virginal de Jesus nos atende, mas peçamos também graças mais excelentes e peçamos graças para toda a Igreja, sobretudo nesses tempos tão confusos dentro da Igreja. Devemos ser mais generosos nos nossos pedidos a São José e será ele generoso para conosco.
Ite ad Joseph. Era o que diziam no Egito no tempo das vacas magras. Ide a José, filho de Jacó rejeitado pelos seus irmãos, para alcançar aquilo que ele prudentemente guardou da época das vacas gordas. Ite ad Joseph, pois o faraó tinha confiado a administração de seu reino a José, tinha-o constituído o despenseiro de todos os seus bens. A Igreja nos diz agora: Ite ad Joseph. Ide a José. Não ao patriarca para obter somente bens desse mundo, mas ao Pai de Jesus, ao Esposo de Maria Virgem, ao Patrono da Igreja Universal. Ite ad Joseph. Ide a José, com confiança. Ele ajudará nas coisas mais simples e nas coisas mais importantes. Ele ajudará nos bens materiais. Ele ajudará no matrimônio. Ele ajudará na crise da Igreja. Ite ad JosephIte ad Joseph. Ide a José. A São José.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A SABEDORIA DESTE MUNDO X A SABEDORIA DOS SANTOS














A sabedoria deste mundo consiste em:

  • esconder com astúcia o fundo de seu pensamento,
  • a disfarçar seus sentimentos sob as palavras,
  • a persuadir que as coisas falsas são verdadeiras, e
  • a demonstrar que as verdadeiras são falsas!


O uso desta "prudência" começa na idade mais tenra; ensina-se mesmo às crianças!

 Aqueles que a aprenderam, do alto de seu orgulho têm apenas desdém por aqueles que o ignoram, e estes, subjugados e medrosos, caem de admiração diante dos outros; porque aprecia-se esta horrível duplicidade velada sob um falso nome, já que chamamos "saber viver" esta perversidade mental.


Este "saber viver" aprendem aqueles que o adotam para buscar o cimo das honras; a aproveitar com alegria a magnificência da glória mundana que se adquire; a devolver aos outros – e a que preço! – o mal que tiverem feito; a nunca ceder, quando se tem os meios, a alguém que quisesse resistir, e quando toda possibilidade virtuosa faz falta, a camuflar sob a máscara de uma acalmante bondade tudo o que a malícia é impotente para realizar.

A sabedoria dos santos, ao contrário, consiste em:
  • nunca dissimular;
  • a descobrir seus sentimentos em suas palavras;
  • a amar a verdade como ela é;
  • a fugir de todas as falsidades;
  • a fazer o bem gratuitamente;
  • a suportar o mal antes de provocá-lo;
  • a não buscar vingança pela injúria que se recebe e
  • a considerar como de um enorme proveito os opróbrios que nos vale a verdade.


Somente, zomba-se desta simplicidade dos justos, porque aos olhos dos sábios deste mundo, a inocência é taxada de insensatez; eles chamam estupidez tudo o que é feito com sinceridade, e tudo o que a verdade aprova em um comportamento humano é tido por ridículo por esta sabedoria mundana.

Não há nada mais tolo aos olhos do mundo que revelar o que se diz do fundo do coração, de nada disfarçar com artifício, de não devolver injúria por injúria, de rezar por aqueles que nos maldizem, de procurar a pobreza, de abandonar o que se possui; de não resistir àquele que nos fere e estender a outra face àquele que nos esbofeteia.


Excerto de “Morais de São Gregório o Grande.”
 (pg. 456)

domingo, 21 de maio de 2017

«DIZ-ME COM QUEM ANDAS, E TE DIREI QUEM ÉS!»

































«DIZ-ME COM QUEM ANDAS, E TE DIREI QUEM ÉS!»

Numa tarde, encontrava-se São João Bosco, que tinha profundo conhecimento das almas, percorrendo as avenidas da sua cidade natal, com o objetivo de conquistar almas para Deus. Eis que, naquele instante, avista, do outro lado da rua, um rapaz que sofria fortes tentações, pois estava sendo atormentado por uma multidão de demônios.

De repente, o santo vê ao longe um outro menino que se aproxima do rapaz. Chegando ao seu encontro, todos os demônios que ali atormentavam o jovem fogem imediatamente. Ao contemplar esta cena, o homem de Deus se pergunta:

- Que menino misterioso! Quem poderá ser, pois conseguiu enxotar todos os demônios! Será por acaso o Menino Jesus ou o Anjo da Guarda do pobre rapaz?

Talvez o leitor tenha pensado em idênticas perguntas.

Nesse mesmo momento, aparece ao justo sacerdote o seu Anjo Custódio, que lhe pergunta:

- Gostarias de saber quem é aquele menino que conseguiu afugentar o esquadrão de demônios? Obtendo uma resposta afirmativa, o Anjo prossegue:

- Aquele menino é uma má amizade, que equivale a toda aquela presença diabólica. Assim, os demônios, ao verem o menino mau se aproximar, partiram tranquilos, sabendo que aquela amizade valia pelo trabalho de todos eles.

É o caso de dizer: " Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és"!

Leia mais artigos;


Quantos jovens estão no inferno por ter dado ouvidos ás más conversas!







sábado, 20 de maio de 2017

DA FAMILIAR E VALOROSA AMIZADE COM JESUS



(Uma valiosa exortação à vida interior de Tomás de Kempis, com a oração de São Francisco de Sales)

Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada é dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isso maior dano que se perdesse o mundo inteiro?

Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te ofender. Quem acha Jesus, acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus, perde muito mais do que se perdesse a todo mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.

Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás como amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.

Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ele se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

ORAÇÃO

Ó Senhor Jesus! … estreitai, prensai e uni para sempre meu espírito ao vosso seio paternal! Oh! Uma vez que fui feito de vós, por que não estou em vós? Abismai esta gota de espírito que mês destes no mar de vossa bondade, da qual ela procede. Ah! Senhor, uma vez que o vosso coração me ama, por que não me arrebata a si, pois é o que mais quero? Levai-me e vou correr atrás de vossos atrativos, para jogar-me nos vossos braços partenos e jamais sair de lá pelos séculos dos séculos. Amém (Amour de Dieu, 1, VII, cáp. III, II, 157)



(Fonte: livro “Imitação de Cristo com Reflexões e Orações de São Francisco de Sales”, Editora Vozes, 2ª edição, excertos do Livro II, Cáp. 8, p. 104 e 105 – O título foi alterado por nós)


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Máximas e Pensamentos de Sto. Agostinho - SOBRE DEUS


“Quereis ter o coração reto? Fazei o que Deus quer e não desejeis que Ele faça o que vós quereis”



Pe. Júlio Barteris (*) — FSSPX, Capela S. Pio X, Calendário Litúrgico: Quantas vezes tereis desejado o ouro sem poder talvez consegui-lo! Desejai a Deus, e o possuireis com certeza. (Conc. 2 de 2 parte ps. 32).
A Deus não falta bem algum, Ele mesmo é o soberano bem; d’Ele igualmente procedem todos os bens. (Cap. 2 de 2 parte ps. 66).
Além das coisas que Deus indistintamente concede aos bons e aos maus, há uma que só reserva aos bons. Que lhes reserva? Ele próprio. (In ps. 72).
Quem espera de Deus um prêmio, e não quer, entretanto servir a Deus tem maior estima por esse prêmio, do que pelo próprio Deus de quem o espera. Não se pode então pedir nenhuma recompensa a Deus? Nenhuma, a não ser Ele próprio. A recompensa de Deus é Deus mesmo. (In ps. 72).
Não pode acontecer que Deus puna a obra de suas mãos. Pune o mal que fazeis, para livrar a sua obra. (In ps. 91).
Deus não me satisfaria plenamente, se não me prometesse a posse de Si mesmo. (Serm. 16).
Como ninguém pode tirar-nos os dons de Deus, só a Ele devemos temer. (In ps. 15).
Que obra de Deus poderá contentar-vos, se Ele próprio não vos pode satisfazer? (In ps. 31).
Deus não exige de vós mais do que vos deu. (In ps. 36).
Os homens queixam-se dos castigos de Deus, mas não detestam a causa do castigo. (In ps. 37).
Deus se nos dará a Si mesmo em herança; nós o possuiremos e seremos d’Ele por toda a eternidade. (In ps. 62).
Temei a Deus, e nada tereis que recear dos homens. (In ps. 63).
Quereis ter o coração reto? Fazei o que Deus quer e não desejeis que Ele faça o que vós quereis. (In ps. 124).
Vida de S. Agostinho. P. Júlio Barteris.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

CONVERTIDO POR UMA AVE-MARIA.



O Bem-aventurado João Haroldo narra a história de um homem que vivia continuamente em pecado mortal.

Sua mulher, pessoa de angélica piedade, não podendo conseguir que ele mudasse de vida, obteve, à força de pedidos e súplicas, que rezasse uma Ave-Maria cada vez que encontrasse na estrada uma imagem da Santíssima Virgem.

Mais por agradar do que por devoção, aquele desgraçado prometeu e cumpriu sua promessa.

Um dia, quando ia para uma orgia, viu brilhar uma luz a pouca distância. Aproximou-se, como que impelido por mão invisível e misteriosa, e logo se lhe deparou uma estátua de Maria com Jesus nos braços.

Segundo o seu costume, rezou a Ave-Maria. Mas quando ia acabar, reparou que o Menino Jesus estava coberto de feridas, das quais o sangue corria abundantemente. E pensou:

— Ai de mim! São meus pecados que abriram estas chagas em meu divino Redentor.

Estas reflexões arrancaram-lhe dos olhos lágrimas amargas. Mas o Menino Jesus desviou dele seu olhar. Então o pecador, com grande vergonha e confusão, dirigiu-se a Maria:

— Mãe de misericórdia, vosso Filho me rejeita. Intercedei por mim, pois vós sois meu único refúgio.

— Oh! Pecador ingrato! — respondeu-lhe Maria. — Chamais-me de mãe de misericórdia e me tornais a mais miserável das mães, renovando a Paixão de meu Filho e as angústias que nela sofri.

Contudo, como Maria não pode despedir ninguém sem consolação, pôs-se a pedir a seu Filho por aquele pecador contrito. Jesus mostrava-se pouco disposto a perdoar.

Então a Virgem compassiva, depondo o Menino Jesus no chão e ajoelhando-se a seus pés, disse:

— Oh! Meu Filho! Não me levantarei enquanto não houver obtido o perdão para este infeliz.

— Minha Mãe, nada posso negar-vos. Que este pecador chegue-se mais perto e venha beijar minhas chagas.

Aquele homem, derramando lágrimas e arrebatado pela gratidão, aproximou-se do Divino Menino, cujas chagas se fechavam à medida que ele ia encostando nelas os lábios.

Jesus dignou-se abraçá-lo, como sinal de reconciliação.

A conversão daquele pobre pecador foi sincera e duradoura. Passou ele o resto da vida na prática de todas as virtudes cristãs e salientou-se por uma afetuosa gratidão para com Aquela que lhe restituíra, por um modo tão imprevisto, a amizade de seu Deus.


Fonte: http://www.lepanto.com.br/contos/convertido-por-uma-ave-maria/

Como o Coração de Jesus nos purifica, ilumina e nos deifica em seu santo Amor na Sagrada Comunhão


Fazei-nos compreender a todos que comungar é amar-Vos; que comungar com frequência e bem dispostos é amar-Vos perfeitamente





Mons. de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: Imaginai, se podeis, toda a claridade, todos os amorosos afetos havidos e por haver em todos os corações que a onipotente mão de Deus formou e pode formar; imaginai-os unidos e como condensados em seu coração bastante capaz para abraça-los a todos; dizei-me, isto não formaria um foco de amor verdadeiramente incompreensível? Pois bem (e é de fé) isto não seria nada, por assim dizer, em comparação ao amor infinito em que arde o Filho eterno de Deus por nós, por cada um de nós, em seu Sagrado Coração, e por conseguinte, no Santíssimo Sacramento do altar.
Assim, pois, quando comungamos temos a dita de receber em nosso corpo e em nossa alma o divino Jesus com o tesouro infinito de seu Coração e de seu amor. Entra em nós todo abrasado, e o que quer senão abrasar-nos também com o fogo sagrado em que arde? “Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?”[1]
Para corresponder mais facilmente a este desejo do Coração de Jesus, entenda-se que o fogo de que fala, é um fogo que purifica, que ilumina, que santifica, que transforma, que deifica: o fogo de seu santo amor.
É um fogo que purifica. Quando temos a dita de comungar dignamente, as sagradas chamas do Coração de Jesus purificam nossa alma até de suas menores manchas. Como o ouro no crisol, nossa alma se derrete de amor no Coração de Jesus, e os mil vestígios imperceptíveis que alteravam a sua pureza são devoradas pelo fogo do divino amor. A Sagrada Comunhão foi instituída, diz o Concílio de Trento, “para preservar-nos dos pecados mortais, e para livrar-nos de nossas faltas cotidianas.”[2]Estas faltas veniais que se ocultam à humana fragilidade, longe de apartar-nos da Comunhão frequente, devem pelo contrário excitar-nos mais a ela, como a enfermidade nos faz desejar o médico e o remédio. A Sagrada Comunhão é o remédio direto que o Médico celestial nos oferece para purificarmos, para desembaraçar-nos de nossos pecados veniais; e neste Sacramento o fogo de amor é o que opera esta saudável purificação.
Em segundo lugar, o fogo do Coração eucarístico de Jesus ilumina. Na Eucaristia Jesus é como o sol, que dá luz ao mesmo tempo que aquece. A Comunhão é um fogo de amor que ilumina, que fortifica, que aumenta os esplendores da fé, que dissipa em nossa alma as ilusões e as trevas com que o inferno trata sem cessar de obscurecê-la, e que nos faz entrar cada mais na admirável luz de Jesus Cristo,[3] nas esplêndidas realidades da fé. Ao comungar, sobretudo, é quando devemos dizer com toda confiança a Jesus” “Senhor, aumentai nossa fé”.[4] E Ele nos abrirá com amor os tesouros de luz celestial de que é sol e foco seu divino Coração.
Em terceiro lugar, o fogo do amor de Deus santifica. Não sem fundamento o ato de receber o sacramento da Eucaristia, é chamado na Igreja “a Sagrada Comunhão, a Santíssima Comunhão”. Ela nos santifica, ou seja, desprende-nos da terra unindo-nos mais e mais ao Rei dos céus. Faz que viva e cresça em nós Jesus Cristo, o Santo dos Santos; e alimenta em nós todas as virtudes que constituem a santidade cristã. O amor de Jesus na Eucaristia é o verdadeiro alimento dos imperfeitos que desejam alcançar a perfeição, dos pecadores penitentes que resolvem emendar-se e ser fiéis sempre mais, dos débeis que querem fazer-se fortes. Oh, santíssimo Corpo! Oh, Santíssimo coração de meu Deus! Fazei que reporte de minhas Comunhões todos os frutos de santidade que vosso amor nelas depositou.
O fogo do Coração de Jesus na Santa Comunhão é também um fogo que transforma. Assim como o fogo material transforma o ouro, a prata, os metais mais duros, e de sólidos os volve em líquidos, de grosseiros e ásperos os converte em sutis, puros e brilhantes; assim também o fogo do santo amor de Jesus Cristo faz que nossas Comunhões operem sensivelmente em nós uma transformação maravilhosa, como que de mundanos nos fazem cristãos e espirituais; de negligentes, tíbios e dissipados que éramos antes de frequentar o sacramento do Amor, transforma-nos pouco a pouco em homens recolhidos, fervorosos, cheios de zelo; mudam nossos gostos e a direção de nossa vida, fazem-nos mansos e humildes de coração, castos, amantes de nossos irmãos até o sacrifício; em uma palavra, acabam por transformar-nos em outros tantos Cristos; e à força de alimentar-nos com a Bondade, a Pureza, a Santidade, que não são outra coisa que Jesus Cristo mesmo, fazem-nos chegar a ser bons, puros e santos de um modo sobrenatural.
Finalmente, o fogo do Sagrado Coração de Jesus que abrasa nossas almas quando recebemos Jesus Cristo na Comunhão, é um fogo que deifica. Sim, a graça e o amor de Deus chegam até o ponto de fazer-nos partícipes de sua natureza divina, como Ele mesmo o declara: Divinae consortes naturae.[5]E embora a graça já comece esta deificação no Batismo, deve compreender-se, no entanto, que sem a santa Comunhão não poderia desenvolver-se, nem ainda subsistir; como a vida que recebemos ao nascer poderia desenvolver-se nem subsistir sem o alimento que a nutre de contínuo.
“Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo”.[6] Disse-nos o Senhor: é surpreendente que deuses, que filhos de Deus se alimentem com a carne e o sangue do Unigênito de Deus, que reside real e verdadeiramente na Eucaristia sob as aparências de pão?
E todos estes prodígios, Salvador meu, não reconhecem outra causa que vosso adorável amor! Todos manam de uma fonte única, que é o vosso Sagrado Coração, presente e incendido em meio de vossa celeste humanidade, e contido juntamente com ela no grande Sacramento do altar.
Oh! Fazei que me abrase, que se abrasem também todos os vossos sacerdotes, todos os vossos fiéis, homens e mulheres, crianças e anciãos, ricos e pobres, todos sem exceção, em vivas ânsias de receber-Vos neste Sacramento de amor! Fazei-nos compreender a todos que comungar é amar-Vos; que comungar com frequência e bem dispostos é amar-Vos perfeitamente.
Gloria e amor ao Coração de Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar!
Notas
[1] Ignem veni mittere in ferram, et quid volo nisi ut accendatur? (Luc. XII, 49.)
[2] Ut á peccatis mortalibus praeservemur, et à culpis quotidianis liberumur.
[3] De tenebris vos vocavit in admirabile lumen suum. (I, Petr. 11,9.)
[4] Domine, adauge nobis fidem. (Luc. XVIII, 5.)
[5] II. Petr. 1,4.
[6] Ego dixi: Dii estis, et filii Excelsi, (Psalm . LXXX, 6.)
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 129-134. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Acerca da oração e da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras

I. Considera o Meu divino Filho, Jesus, no Jardim das Oliveiras. Dirigindo a Seu Pai uma oração muito fervorosa, entra numa agonia mortal. Cai de face contra a terra. De todas as partes do Seu sagrado corpo corre um suor de sangue tão abundante que banha todo o solo em torno dEle. Prodígio estranho e inaudito até então.

Qual foi a causa ó Minha filha? A cruel catástrofe da Sua Paixão, que neste momento se Lhe apresentou completa ao Seu espírito; as bofetadas, os desprezos, as injúrias, que os ímpios Lhe deviam fazer sofrer; os açoites, os espinhos, os pregos e a cruz que se Lhe preparava, a lança que devia abrir-Lhe o lado, a traição de Judas, a renegação de Pedro, o abandono dos discípulos e dos apóstolos, o assassino que se Lhe devia preferir, o ódio e o furor que iam desenvolver contra Ele os homens a quem esperava salvar e remir: tudo concorria a assaltá-lO com tanta força, que O teve reduzido a uma agonia mortal.

Deixando a Sua humanidade gozar as consolações que manava para ela da sua união pessoal com a divindade, teria podido impedir para Si todo sofrimento. Mas então a maldade dos homens e a raiva do inferno não mais teriam sobre ela poder algum. Ora, o sacrifício deste Cordeiro sem mancha era necessário para abrandar a justiça de Deus irritado contra o homem pecador. Deixando a Sua humanidade sentir todas dores, esta Vítima divina foi tão aterrada por um acervo de males tão espantoso, que desfaleceu dele. Teria querido distanciar dos Seus lábios um cálice tão amargo. Mas a vontade de Seu Pai e o amor do homem que devia remir, triunfaram nEle toda a repugnância e submeteu-Se dirigindo a Seu Pai estas humildes palavras “Que a Vossa vontade seja feita e não a Minha”. Assim, Aquele que devia pelo tempo adiante conceder aos mártires tão prodigiosas consolações para aliviar seus sofrimentos, obrou prodígios para aumentar os Seus.

Que dizes tu agora, Minha filha, imitas esta resignação, tu que não podes sofrer a menor dor? Confunda-te a tua extrema repugnância em sofrer enquanto tanto o mereces por causa dos teus pecados.

II. Mas esta agonia, ó Minha filha, nada era a par da angústia opressiva em que O lançaram os teus pecados. Neste momento todas as iniquidades passadas e futuras, que a Sua presciência divina Lhe tornava presentes, pesaram sobre Ele com tanto peso e força que, oprimido sob esse peso, suou um suor de sangue e água, e a Sua alma foi contristada até se sentir morrer. Pensa, ó Minha filha, na confusão que sentirias se te visses de súbito coberta em público das manchas e infâmias de outrem, e compreenderás qual foi a confusão do Meu divino Filho. Ele que conhecia perfeitamente toda a torpeza do pecado, que, como Deus de santidade, como santidade por essência, tinha por eles um horror-infinito, comparecer coberto de pecados em presença dos anjos e do Seu divino Pai! Quem pode conceber o horror e a vergonha que o Seu coração devia sentir!

Mas demais conhecia Ele a maldade infinita do pecado e concebeu dela uma dor proporcionada para compensar a ofensa feita à majestade infinita de Deus.

A dor dos pecados compreendida no momento por Meu divino Filho, excede, pois muito o arrependimento que têm se tido todos os penitentes, e os Seus sofrimentos ultrapassaram dum modo indizível todos os sofrimentos padecidos pelos mártires nos seus suplícios. Calcula agora Minha filha, se podes, o imenso peso de dores, tormentos e angústias que Ele suportou. Oh! que grande parte têm tido as tuas impiedades nesta dolorosa agonia. Enquanto uma compaixão natural leva a aliviar as dores dos que sofrem, tu não te tens aplicado até ao presente senão aumentar as de Jesus por teus contínuos pecados. Sejam-te eles confusão e vergonha, ó Minha filha, e chora a Seus pés tua crueldade.

III. Estes amargos sofrimentos teriam sido mitigados pela previsão da sua utilidade para homens reconhecidos. Mas Ele previa, sabia claramente que o Seu sangue correria sem fruto para uma infinidade de pessoas, que não serviria mais que selar a sua eterna condenação, que a sua maldade transformaria em remédio divino em veneno mortal. Quem pode exprimir, ó Minha filha, quem pode imaginar a dor que este conhecimento Lhe ajuntou a todos os outros sofrimentos?

Ingratidão humana, como tu és monstruosa! Um Deus feito homem, que morre pelos homens Seus inimigos, a fim de conciliá-los com Deus; que paga pelo derramamento do Seu sangue um preço infinito, capaz de remi-los completamente, e que se vê desprezado, calcado aos pés por homens que persistem em serem Seus inimigos para sempre, ah! Eis aí, sobretudo, Minha filha, o que Lhe deu a beber a amargura: eis aí o que Lhe roubou toda a força e vigor, e que o faz cair por terra nessa inexprimível agonia, o que O fez lamentar-se assim: a Minha alma está triste até á morte. Teve necessidade da Sua onipotência para não expirar. Uma mãe que, depois de cruéis dores, dá ao mundo um belo menino cheio de vida anima-se e olvida todos os seus sofrimentos passados com a consolação que lhe faz sentir o nascimento desse filho. Mas que horrível dor, se, depois de ter sofrido tanto, apenas dá á luz uma criança morta!

Esta comparação não pode dar-te uma fraca idéia das angústias experimentadas pelo Meu divino Filho, que previa a morte, não duma alma, mas de milhões delas, que fazem por morrer eternamente. Minha filha, que previu Ele a teu respeito? Tens mitigado os Seus sofrimentos? Tens diminuído as suas penas fazendo-Lhe prever o teu arrependimento e a tua salvação eterna, ou tens-los aumentado sem medida, fazendo-Lhe prever a tua obstinação e condenação eterna?

Afetos. Ó Mãe compassiva, o meu coração comove-se de piedade quando penso acerca dos sofrimentos de meu Redentor agonizante no Jardim das Oliveiras. Mas estorce-se de dor quando medito que os meus pecados foram a causa disso.

Não posso deixar de me voltar para Ele e dizer-Lhe: - Ó meu Salvador agonizante, eis diante de Vós a mais indigna criatura, que até ao presente não tem feito mais que derramar o mais amargo fel no cálice da Vossa dolorosa Paixão. Por minha resistência às Vossas graças, por minhas traições e ingratidões, cujas Vós bem tínheis previsto, quanto não tenho aumentado o peso cruel dos Vossos sofrimentos?

Ó Salvador amorosíssimo, já que tanto tendes feito por uma ingrata que Vos não orava, e aumentava a Vossa cólera fazendo-Vos antever os crimes que devia cometer, escutai agora as súplicas que Vos dirige com um coração traspassado pela dor, e os olhos banhados pelas amargas lágrimas do arrependimento.

Perdoai-me todas as iniquidades pelos merecimentos da Vossa agonia e desse sangue que derramastes para a minha redenção. Senhor, até ao presente não tenho sido senão muito cega e insensata. Mudarei de vida e de proceder para não mais afligir o Vosso amor, farei penitência dos meus erros passados.

Ó boa e terna Mãe que me assistis e instruis com tanta caridade, juntai às minhas lágrimas a Vossa intercessão e serei seguramente atendida.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A.Bayle, 1917)