sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A alma culpada diante do Juiz Divino

Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor 5, 10)
Sumário. Têm-se visto criminosos banhados em suor frio, na presença de um juiz terrestre. Que maior terror não deve sentir o pecador diante do tribunal de Jesus Cristo? Ó céus! Verá acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, ao outro os demônios armados para o seu suplício. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, impressionado por esta grande verdade, resolveu deixar o mundo e fez-se religioso. Meu irmão, o que farás? Continuarás a viver em teu estado de tibieza?
I. É sentimento comum entre os teólogos, que o juízo particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que não manda alguém em seu lugar, mas vem ele mesmo para a julgar. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez seu Redentor, o vir indignado!
Ante faciem indignationis eius quis stabit? (1) – “Diante da face de sua indignação quem é que poderá subsistir?” Este pensamento causava tal estremecimento ao Padre Luiz Dupont, que fazia tremer consigo a cela onde se achava. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, ouvindo cantar o Dies irae, e pensando no terror que se há de apoderar da alma ao comparecer em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. – O aspecto do Juiz indignado será o anúncio da condenação: Indignatio regis, nuntii mortis (2). Segundo São Bernardo, será maior sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.
Têm-se visto criminosos banhados em suor frio na presença de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado em traje de réu, sentiu tamanha confusão, que a si próprio se deu a morte. Que pena não é para um filho ou para um vassalo ver seu pai ou seu príncipe indignado! Que maior mágoa não deve sentir a alma à vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Videbunt in quem transfixerunt (3) – “Verão aquele a quem traspassaram”. Esse Cordeiro, tão paciente durante a vida do pecador, então mostrar-se-lhe-á irritado, sem esperança de se deixar aplacar. Pelo que a alma pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem às iras do Cordeiro indignado: Montes, cadite super nos, abscondite nos ab ira Agni (4).
II. Opinam os Doutores que o divino Juiz virá julgar a alma em forma humana, e portanto com as mesmas chagas com que deixou a terra. Estas chagas serão motivo de consolação para os justos, mas que terror e espanto não inspirarão ao pecador! A vista do Homem-Deus, que, morreu para o salvar, far-lhe-á sentir mais vivamente a sua ingratidão.
Quando José do Egito disse a seus irmãos: Eu sou José, a quem vendestes, diz a Escritura, que pelo terror perderam a fala e ficaram calados (5). Que responderá, pois, o pecador a Jesus Cristo? Terá coragem de lhe pedir misericórdia, quando, primeiro que tudo, tem de lhe dar contas do abuso que fez da misericórdia? Que fará então? Pergunta Santo Agostinho, para onde fugirá o miserável, quando vir acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, a outro os demônios armados para execução do suplício e dentro de si os remorsos de sua consciência?
Ó meu Jesus, quero chamar-Vos sempre Jesus; vosso nome me consola e me anima, recordando-me que sois o Salvador que morreu para me salvar. Aqui me tendes a vossos pés; confesso que mereci o inferno tantas vezes quantas Vos ofendi pelo pecado mortal. Sou indigno de perdão, mas Vós morrestes para me perdoar. Ah, meu Jesus, perdoai-me antes de virdes a julgar-me. Então não poderei implorar a vossa misericórdia; mas agora posso pedi-la e espero-a. Então vossas chagas me inspirarão terror, agora insipiram-me confiança. Meu querido Redentor, acima de todos os males, arrependo-me de ter ofendido a vossa bondade infinita. Estou resolvido, antes, a aceitar todas as penas, todos os sacrifícios, do que vir a perder a vossa graça. Amo-Vos de todo o coração. Tende piedade de mim, segundo a vossa grande misericórdia: Miserere mei secundum magnam misericordiam tuam (6).
– Ó Maria, Mãe de misericórdia, Advogada dos pecadores, obtentede-me uma grande dor dos meus pecados, o perdão e a perseverança no amor divino. Amo-vos, ó minha Rainha, e em vós ponho minha confiança.
Referências:
(1) Na 1, 6
(2) Pv 16, 14
(3) Jo 19, 37
(4) Ap 6, 16
(5) Gn 45, 4
(6) Sl 50, 1

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 309-311)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 27 - A Ordem



Catecismo Ilustrado - Parte 27

Os Sacramentos

A Ordem

1. A Ordem é o sacramento instituído por Jesus Cristo, pelo qual se confere o poder de consagrar, oferecer e administrar a Eucaristia, e exercer as outras funções eclesiásticas.

2. Este sacramento dá virtude e Graça aos sacerdotes e outros ministros da Igreja para bem cumprir os seus ofícios.

3. Os que abraçam o estado eclesiástico devem ter por fim a glória de Deus e a salvação eterna do próximo.

4. Somente aos bispos pertence administrar o sacramento da Ordem, porque têm a plenitude do sacerdócio.

5. As disposições necessárias para receber o sacramento da Ordem são principalmente três: 1º vocação, isto é, ser chamado por Deus para o estado eclesiástico; 2º uma vida exemplar e devota; 3º suficiente doutrina.

6. Há sete graus no sacramento da Ordem, quatro menores e três maiores. Os quatro menores graus do sacramento da Ordem são: ostiário, leitor, exorcista e acólito. As três Ordens maiores ou Ordens sacras são: Subdiácono, Diácono e Presbítero, que é o mesmo que a de epístola, de Evangelho, e de presbítero ou de Missa.

7. Há uma diferença quase infinita entre os sacerdotes e os que o não são. Basta dizer que o Filho do Altíssimo Ilhe obedece, vindo à terra realmente num instante toda vez que o sacerdote o diz na consagração.

8. Devemos pois ao sacerdote todo o respeito, pelos dois poderes que Deus lhe deu, um sobre o Filho de Deus feito homem que obedece à sua voz, e outro o de perdoar os pecados que são ofensas feitas a Deus.

9. Se o sacerdote não tiver costumes adequados a esta grande dignidade, devemos respeitar o caráter do sacramento, e ter compaixão e caridade da pessoa.

10. Para com aqueles que são promovidos às ordens, devemos: 1º orar a Deus para que se digne conceder à sua Igreja bons pastores e zelosos ministros; 2º ter-lhes particular respeito e veneração.

Explicação da gravura

11. A parte principal da gravura representa São Pedro conferindo a Ordem aos sete primeiros diáconos. Como o número de cristãos aumentasse de dia para dia, e como os Apóstolos não pudessem cumprir todas as funções do seu ministério, mandaram eleger na assembleia dos fiéis sete diáconos que os substituíssem na distribuição das esmolas às viúvas, órfãos e pobres. Rogando a Deus pelos escolhidos, os Apóstolos conferiram-lhes a Ordem do Diaconato pela imposição das mãos.

12. Na parte superior, vê-se o Bispo conferindo as ordens menores. À esquerda, confere o Bispo a Ordem do ostiário mandando tocar as chaves da igreja. A seguir, o Bispo confere a Ordem de leitor mandando tocar o missal. No ângulo direito, na parte esquerda, o Bispo confere a Ordem de exorcista, cuja função é de expulsar os demônios, mandando tocar o livro dos exorcismos. Por fim, na quarta parte, o Bispo confere a Ordem de acólito mandando tocar um castiçal com vela e as galhetas.

13. Na parte inferior divide-se em três: na primeira, à esquerda, o Bispo ordena um subdiácono, cuja função é de servir o diácono no altar, e de cantar a epístola na Missa Solene. Para ordená-lo o Bispo manda o ordinando a tocar o cálice, a patena e o livro das epístolas. O subdiácono obriga-se à castidade perpétua e à recitação quotidiana do ofício divino.

14. Na última parte, à direita, o Bispo confere a Ordem sacra do Diaconato. As funções do diácono são de ajudar o sacerdote na Missa, cantar o Evangelho, pregar e batizar. Hoje em dia, o diácono não pode pregar nem batizar sem especial licença do Bispo. Confere essa Ordem o Bispo com a imposição das mãos, dizendo: “Recebe o Espírito Santo, para teres a força de resistir ao demônio e às suas tentações”.


15. Enfim na parte do meio, o Bispo confere a Ordem de Sacerdote, cujas funções são dizer Missa, pregar e administrar os sacramentos. O Bispo confere esta Ordem com a imposição das mãos sobre os ordinandos, e com ele todos os sacerdotes presentes; manda tocar o cálice com vinho e a patena com a hóstia, dizendo ao mesmo tempo: “Recebe o poder de oferecer a Deus o Sacrifício e de celebrar a Missa pelos vivos e pelos mortos”.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Menino Jesus, sobre as palhas, ensina-nos a Mortificação


Et reclinavit eum in praesepio – “E reclinou-o numa manjedoura” (Jo 2, 7)
Sumário. Visto que Maria não tinha nem plumas nem lã, para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Menino recém-nascido. Quão duro não devia ser tal leito aos membros delicados de Jesus Cristo!… Mas Jesus quis sofrer isso afim de remediar assim os pecados, que causaram a perdição do mundo, e começar desde o berço a ensinar-nos o amor dos sofrimentos e a mortificação dos sentidos. E depois de tal exemplo continuaremos a acariciar esta carne rebelde ?

I. Jesus nasce na gruta de Belém. Já que a pobre Mãe não tem nem lã nem plumas para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, que faz? Estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Filho recém-nascido: Et reclinavit eum in praesepio. Mas, ó Deus, tal leito é duro e penoso demais para um menino que acaba de nascer. Os membros de uma criança são demasiado delicados, e especialmente os de Jesus, feitos pelo Espírito Santo extremamente delicados, afim de que fossem mais sensíveis às dores: Corpus autem aptastit nihil — “Formaste-me um corpo” (1). Pelo que lhe foi em extremo doloroso um leito tão duro.
Foi uma dor e uma ignomínia. Pois, que filho de um homem, da mais vil condição que seja, é colocado, logo depois de nascido, sobre a palha? A palha é leito próprio dos animais; e o Filho de Deus não tem na terra outro leito senão a palha! Quando um dia São Francisco de Assis estava sentado à mesa, ouviou ler estas palavras do Evangelho: “Reclinou-o numa manjedoura”; e disse: “Como? O meu Senhor está deitado sobre a palha, e eu hei de ficar sentado?“. Levantou-se logo, e terminou a sua pobre refeição sentado no chão, entre lágrimas de ternura ao contemplar o quanto devia sofrer Jesus Menino, deitado sobre a palha.
Mas porque é que Maria, que tanto tinha suspirado pelo nascimento do Filho, que tanto o amava, não o guardou nos braços em vez de o expor a tão grande sofrimento num leito tão duro? É um mistério, diz Santo Thomas de Vilanova: Neque illum tali loco posuisset, nisi magnum aliquod mysterium ageretur. Deste mistério há diversas explicações, mas entre todas mais me agrada a de São Pedro Damião. Jesus recém-nascido quis ser posto sobre a palha para nos ensinar a mortificação dos sentidos: Legem martyrii praefigurabat. O mundo havia-se perdido pelas satisfações dos sentidos; por elas se havia perdido Adão, e depois dele um sem numero dos seus descendentes até o dia de hoje. O Verbo eterno desceu do céu para nos ensinar o amor dos sofrimentos, e começou a no-lo ensinar desde criança, escolhendo para si os sofrimentos mais ásperos que uma criança pode suportar. — Foi, pois, ele mesmo quem inspirou a Maria, que em vez de o guardar nos seus tenros braços, o pusesse sobre aquele leito tão duro, afim de sentir mais o frio da gruta e as picadas da rude palha.
II. Ó terno amante das almas, ó amável Redentor meu, não Vos satisfazem a dolorosa Paixão que Vos aguarda, e a morte cruel da cruz que Vos preparam; quereis começar a padecer desde o primeiro momento da vossa existencial Sim, porque desde o vosso nascimento quereis começar a ser meu Redentor e satisfazer pelos meus pecados à divina justiça. Escolheis palha por leito, para que me livreis do fogo do inferno, onde tantas vezes mereci ser precipitado. Chorais e gemeis sobre essa palha para me obterdes do vosso Pai, pelas vossas lágrimas, o perdão das minhas faltas.
Ah! Quanto me afligem essas lágrimas e me consolam também! Afligem-me pela compaixão que sinto ao ver-Vos, Menino inocente, sofrer tanto por crimes que não cometestes. Consolam-me, porque nos vossos sofrimentos vejo a minha salvação e o vosso imenso amor para comigo. Mas, meu Jesus, não Vos quero deixar chorar e sofrer sozinho; quero chorar convosco, pois só eu é que devo chorar os desgostos que Vos causei. Já que mereci o inferno, não recuso sofrimento algum, contanto que recupere a vossa amizade.
Perdoai-me, ó Salvador meu, restitui-me a vossa amizade, fazei que Vos ame e castigai-me segundo a vossa vontade. Livrai-me das penas eternas, e depois disponde de mim como quiserdes. Não Vos peço consolações nesta vida; é indigno delas quem teve a petulância de Vos ofender, ó bondade infinita. Pronto estou a sofrer todas as cruzes que me enviardes; mas quero amar-Vos, Jesus meu.
— Ó Maria, fiel companheira de Jesus em todas as suas dores, alcançai-me a força de suportar as minhas penas com paciência. Ai de mim, se, depois de tantos pecados, não sofrer alguma coisa na vida presente. E feliz de mim, se sofrendo puder acompanhar-vos, ó minha dolorosa Mãe, e ao meu Jesus, sempre aflito e crucificado por meu amor.
Referências:
(1) Hb 10, 5

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 413-415)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

E que seria o mundo sem o sangue de Jesus Cristo?






















"E que seria o mundo sem o sangue de Jesus Cristo?

O mundo seria insuportável, a vida sem esperança, as desgraças sem consolação.

Quaisquer que sejam as pretensões da ciência; qualquer que seja a presunção do espírito moderno; é o sangue de Jesus Cristo que detém suspensa sobre o mundo a cólera divina; que permite ainda a humanidade, no meio de tantos erros, calamidades e tristezas, algumas felicidades no seu exílio.

Vinde; vinde vós todos, espíritos modernos, inchados da vossa filantropia, que pretendeis dar aos homens testemunhos ainda não vistos de fraternidade, sempre prometida, nunca realizada pelas vossas ciências, pelas vossas filosofias, pelas vossas políticas; vinde ver, vinde aprender na Agonia do Jardim como se ama a humanidade.


E vós também, falsos profetas, Messias impostores do século 19, que prometeis aos povos novas religiões, e os quereis convencer de que eles devem esperar maiores e melhores provas de amor de Deus; vinde ver na Agonia do Jardim se o amor de Jesus Cristo pode ser excedido!

Vinde vós todos, também, espíritos modernos, que na tragédia, no drama, no romance, na música, na pintura ou escultura, tendes alimentado a ardente ambição de ver realizado na terra o ideal do Amor; vinde – vinde vê-lO realizado na Agonia do Jardim!


Tudo o que a imaginação pode conceber; tudo o que o coração pode desejar; tudo o que a alma humana pode sonhar – ei-lo realizado!

Todas as ciências, todas as literaturas, todas as artes não podem traduzir um ideal igual.

A Agonia no Jardim é a última palavra do amor.

É o sacrifício completo, não imposto por uma força exterior, pelas prevaricações da justiça, pela crueldade dos judeus, pela brutalidade dos carrascos, mas pela própria vontade da vítima.

É a vitima sacrificada pelo gládio inflamado do Seu próprio amor.

Jesus Cristo tinha dito que o Seu sacrifício seria voluntário: 'voluntarie sacrificabo tibi'.


Pois bem; o que no Calvário, diz um padre, poderia parecer resultado de vontade exterior, no Jardim mostra-se como o resultado da própria vontade de Jesus Cristo.

Ali, nem tormentos, nem golpes, nem feridas.


A traição de Judas, a injustiça de Pilatos, a crueldade dos carrascos não têm parte no sacrifício. Nenhum delito desonra tão grande sacramento; nenhuma infâmia macula uma oferenda tão pura; nenhuma boca escarnece tão divina imolação.

O amor é a Sua própria vitima, o Seu próprio altar, o Seu próprio pontífice.

E o sacrifício de Jesus Cristo é completo; porque Sua vontade é o instrumento que Lhe abre as veias, Sua santidade é o altar onde corre o sangue, e o amor é o pontífice que O oferece ao Pai!"

✞ ORAÇÃO AO PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE JESUS, DE SANTA CATARINA DE SIENA

Preciosíssimo sangue; oceano da divina misericórdia:

Derramai-vos sobre nós!
Preciosíssimo sangue; a mais pura oblação:
Obtenha-nos toda a graça!
Preciosíssimo sangue; auxílio e refúgio dos pecadores:
Purificai-nos!
Preciosíssimo sangue; delícia das almas santas:
Guiai-nos! Amém!



(Fontes: 1. texto: A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, ano de 1937 - blog A Grande Guerra; 2. oração: site Derradeiras Graças)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 26 - A Extrema-Unção


Catecismo Ilustrado - Parte 26

Os Sacramentos

A Extrema-Unção

1. A Extrema-Unção é o sacramento instituído por Jesus Cristo para o alívio espiritual e corporal dos enfermos.

2. Chama-se “Unção” porque consiste em ungir o enfermo com azeite de oliveira benzido pelo Bispo.

3. Diz-se “Extrema” porque é a última entre as unções que se dão nos sacramentos da Igreja, e também porque se dá no fim da vida.

4. Chama-se também “Santos Óleos”, porque, como já se disse, a sua matéria é o óleo ou azeite benzido pelo Bispo na quinta-feira santa.

5. Este sacramento produz na alma os seguintes efeitos: apaga os vestígios dos pecados e as faltas veniais, dá Graça e fortaleza à alma para combater com o demônio naquele último momento de agonia.

6. Quanto ao corpo, a Extrema-Unção ajuda também a receber a saúde do corpo, se esta for útil para a salvação da alma.

7. O ministro deste sacramento é só o pároco, ou qualquer sacerdote por ele autorizado.

8. A Extrema-Unção deve administrar-se aos enfermos que estão em perigo de vida.

9. Não se deve esperar que estejam na iminência da morte; é muito proveitoso que estejam ainda em seu juízo e tenham alguma esperança de vida.

10. Pode dar-se aos meninos, logo que cheguem ao uso da razão, mesmo que não tenham ainda comungado.

11. Pode dar-se em toda a doença perigosa, e até na mesma doença pode receber-se mais de uma vez, se o enfermo, depois de o ter recebido, se restabelecer e depois tornar a cair em perigo de vida.

12. As disposições necessárias para receber este sacramento são: Estar na Graça de Deus, porque é um sacramento dos vivos, e é necessário recebê-lo com sentimentos de Fé, Esperança e resignação. Por consequência, se o enfermo estiver em estado de pecado mortal, deveria fazer antes uma boa confissão. Se não pudesse confessar-se, deveria fazer um ato de contrição, com voto de se confessar.

13. As unções fazem-se nos sentidos do corpo do enfermo, nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, nas palmas das mãos, nas plantas dos pés, se for possível.

14. Fazem-se as unções em todas as partes do corpo para que Nosso Senhor, por virtude deste sacramento, perdoe o que o enfermo pecou através dos olhos, ouvidos, nariz, mãos e pés.

15. O enfermo, quando recebe este sacramento, deve acompanhar com o coração as orações que diz o sacerdote, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos pelo mau uso dos sentidos.

16. O sacerdote diz certas orações quando administra a Extrema-Unção para alcançar de Deus, a favor do enfermo, a Graça do sacramento.

17. Os que assistem devem orar a Deus de coração e encomendar à sua misericórdia a vida e a salvação do enfermo.

18. Depois de recebida a Extrema-Unção, o doente deve:

1º dar graças a Deus pelo benefício que lhe concedeu com este sacramento; 2º resignar-se inteiramente à Sua vontade; 3º não pensar noutra coisa senão Deus e na eternidade.

19. O santo Concílio Tridentino diz: “Se alguém disser que a Extrema-Unção não é um verdadeiro sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anatematizado”.

20. Somos obrigados a advertir os doentes a receberem os últimos sacramentos e é o maior serviço que lhes podemos fazer, pois muitas vezes disso depende a salvação eterna. Se não pudermos adverti-los direitamente, ao menos devemos prevenir o pároco da sua freguesia.

21. Quando o doente estiver em agonia, devem os assistentes rezar as orações dos agonizantes e aspergi-lo com água benta.




Explicação da gravura

22. A gravura representa um Apóstolo administrando os santos óleos a um enfermo. Vê-se um anjo com uma inscrição: “Está entre vós algum enfermo? Que chame o sacerdote, e o que este o unja em nome do Senhor, que o aliviará e perdoará os seus pecados”. (Tiago V, 14) Vê-se outro anjo que lhe aponta o Céu, mostrando-lhe ao mesmo tempo uma coroa.

sábado, 14 de outubro de 2017

PRÁTICA DA DEVOÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA



Venerunt mihi omnia bona pariter cum illa — “Todos os bens me vieram juntamente com ela” (Sap. 7, 11).
Sumário. Para que os nossos obséquios agradem à Mãe de Deus e nos façam dignos de seu patrocínio, duas coisas são necessárias: primeiro, devemos tributá-los com coração puro ou, ao menos, com o desejo de nos emendarmos; segundo, devemos ser constantes. Ah, quanto dos que estão agora no inferno teriam sido santos se tivessem perseverado nos seus obséquios à Santa Virgem! Lancemos um olhar sobre nós mesmos. Com que coração oferecemos à Maria as nossas homenagens? Qual é a nossa perseverança em oferecê-las?
É tão liberal e grata a Rainha do céu, que, no dizer de Santo André Cretense, recompensa com riquíssimos prêmios os pequenos obséquios de seus servos. Para isto, contudo, são necessárias duas coisas: A primeira, que ofereçamos os nossos obséquios com a alma pura de pecados, ou ao menos com o desejo de sairmos dos vícios e da tibieza. Pois, se alguém quisesse continuar a pecar, com a esperança de que Maria o havia de salvar por causa daquela sombra de devoção, pela sua culpa própria se tornaria indigno e insuscetível da proteção de nossa Senhora. — A segunda condição é que se persevere na devoção à Virgem; porque, como diz São Bernardo: “Só a perseverança merece a coroa.” É muito notável a resposta que São João Berchmans deu na hora da morte a seus companheiros, quando estes lhe perguntaram o que deviam fazer para merecerem a proteção de Maria: Quidquid minimum, dummodo sit constans. — Por pouco que seja, contanto que seja constante.
Os obséquios mais agradáveis à Virgem são os seguintes: Consagrar-se-lhe de manhã e à noite, rezando três Ave-Marias. Recorrer freqüentemente à sua intercessão, mormente nos perigos de ofender a Deus e nunca recusar uma coisa que for pedida por amor dela. Alistar-se em alguma congregação da Virgem. Excitar os outros, por palavras e exemplos, a praticarem a devoção para com Nossa Senhora. Trazer sempre o santo escapulário e rezar, impreterivelmente, cada dia o Terço ao  pé de uma imagem de Maria. Jejuar no sábado e nas vésperas das festas principais. Celebrar ou fazer celebrar ou pelo menos ouvir uma missa em honra da Virgem; e honrar seus santos parentes e outros santos que mais se distinguiram em sua devoção. Finalmente celebrar com fervor as novenas de preparação para as suas festas; propondo-se a emenda de algum vício, ou a imitação de alguma virtude especialmente apropriada ao estado da alma e aproximando-se dos santos sacramentos.
Mas não te exorto tanto a praticar todos estes obséquios, como a praticares os que possas escolher ou já tenhas escolhido, com perseverança, temendo que, se te descuidares deles no futuro, percas a proteção da divina Mãe. Oh! Quantos daqueles que agora estão no inferno, teriam sido santos do paraíso, se tivessem perseverado nos obséquios a Maria, uma vez escolhidos e principiados!
Para conservação de teu fervor na devoção à grande Mãe de Deus, é utilíssimo escolheres cada ano, entre as outras, alguma festividade da Virgem, à qual tenhas maior devoção e ternura, e fazeres nesta uma preparação particular, para de novo te dedicares de modo mais especial ao seu serviço, elegendo-a por tua Senhora, Advogada e Mãe. Nesse dia, depois da comunhão, pedir-lhe-ás perdão das negligências em servi-la no ano passado e prometer-lhe-ás maior fidelidade para o ano seguinte. Rogar-lhe-ás, enfim, que te aceite por servo e te obtenha uma santa morte.
Santíssima Virgem e Mãe de Deus, Maria, eu, ainda que indigníssimo de ser vosso servo, confiado contudo na vossa admirável bondade e urgido pelo desejo de vos servir, vos escolho hoje, em presença do meu Anjo da Guarda e de toda a corte celeste, para minha particular Soberana, Advogada e Mãe. Tomo a firme resolução de vos amar e servir sempre no futuro e de fazer o que possa para que de todos sejais amada e servida.
Suplico-vos, ó Mãe de Deus e minha Mãe piedosíssima e amabilíssima, suplico-vos pelo sangue de vosso divino Filho, derramado por mim, vos digneis admitir-me entre o número de vossos devotos, para vosso filho e servo perpétuo. Assisti-me em todos os meus pensamentos, palavras e ações e em todos os instantes de minha vida; de modo que todos os meus passos, todas as minhas respirações sejam ordenados para a maior glória de Deus. Fazei pela vossa intercessão poderosíssima que nunca mais ofenda o meu amado Jesus, mas sim, o glorifique e ame durante toda a minha vida. Dai-me também grande amor para convosco, minha Mãe queridíssima, a fim de vos amar e gozar de vossa presença no paraíso, por todos os séculos. (*I 272.)
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso
Fonte:


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TRIUNFA O AMOR

Cum dilexisset suos qui erant in mundo, in finem dilexit eos — “Como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Io. 13, 1).
Sumário. Posto que o Senhor é todo-poderoso, pode-se todavia dizer que foi vencido pelo amor. O amor levou-O a não só morrer por nós, pregado num patíbulo infame, como a instituir ainda o Santíssimo Sacramento, onde se dá a cada um sem reserva, sem interesse próprio e sempre. Mas se um Deus se dá a nós de tal modo, é de toda a justiça que nós também lhe façamos semelhante oferta; protestando que queremos servi-Lo em todas as coisas e sempre, sem aspirarmos à recompensa e unicamente para Lhe agradarmos e Lhe darmos gosto no tempo e na eternidade.
***************
I. Nosso Deus é todo-poderoso: quem O poderá jamais vencer e subjugar? Todavia, diz São Bernardo, foi vencido e subjugado pelo seu amor para com os homens: Triumphat de Deo amor. Com efeito, o amor levou-O, não só a morrer condenado a um patíbulo infame; mas ainda a instituir o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, no qual se dá a nós sem reserva, sem interesse próprio e sempre.
Sem reserva: Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit. Deu-se todo, não se reservou nada — diz São Crisóstomo. E São Francisco de Sales acrescenta: “Se um príncipe enviasse a um pobre algumas iguarias de sua mesa, não haveria nisto um sinal bem distinto de afeição? Que se diria, se lhe enviasse um banquete completo? Que seria enfim, se lhe desse para sustento alguma coisa de sua própria substância? Ora, Jesus, na santa comunhão, nos dá para sustento, não só uma parte de sua substância, mas o seu corpo inteiro: Accipite et comedite: hoc est corpus meum (1) — “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. E com o corpo dá-nos também a sua alma e a sua divindade, de modo que, na palavra do Concilio de Trento, Jesus neste dom derramou todos os tesouros de seu amor para com os homens.
Nem foi Jesus levado à tamanha liberalidade por qualquer interesse próprio; porquanto, como observa São Paulo, instituiu este sacramento na mesma noite em que foi entregue: In qua nocte tradebatur (2), portanto, no mesmo tempo que os homens preparavam os açoites, os espinhos e a cruz para o fazerem morrer. Instituiu-o, além disso, sabendo a que insultos iria expô-lo este seu invento amoroso; pois que já previa que a maior parte dos homens não O quereriam reconhecer neste grande sacramento e que mesmo os que reconhecessem a sua divina presença pagar-lhe-iam o amor com irreverências e sacrilégios.
Finalmente, na santíssima Eucaristia Jesus se dá a nós sem cessar, não somente quanto à identidade de sua substância, mas também quanto ao tempo e a todos os lugares do universo; cumprindo assim à risca a sua divina promessa de fazer-se nosso companheiro perpétuo: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi (3) — “Eis que estou convosco até à consumação do mundo”. É pois com razão que Santo Tomás chama a Eucaristia: sacramento do amor, penhor do amor; e São Bernardo: amor dos amores.
II. Se na santíssima Eucaristia Jesus Cristo se dá a nós sem reserva, sem interesse próprio e sem cessar, é de toda a justiça que nós também lhe façamos semelhante oferta: protestando que queremos servi-Lo em todas as coisas e para sempre, sem aspiração à recompensa; mas unicamente para Lhe agradarmos e Lhe dar gosto no tempo e na eternidade: Dilectus meus mihi, et ego illi (4) — “Meu amado é para mim e eu para Ele”.
Redentor meu amabilíssimo, eu me ofereço e entrego todo a Vós, com minha vontade e liberdade. Meu Jesus, de hoje por diante não quero ser meu; quero ser vosso e todo vosso. A Vós consagro todos os meus sentidos, afim de que me sirvam unicamente para Vos dar gosto. Que satisfação maior se pode ter, dizia São Pedro de Alcântara, do que em Vos dar gosto a Vós, ó Deus amabilíssimo, amantíssimo e gratíssimo? Consagro-Vos todas as minhas faculdades e quero que sejam todas vossas. Quero que a memória me sirva tão somente para me recordar dos vossos benefícios e do vosso amor; o entendimento para pensar unicamente em Vós, que sempre pensais em meu bem; a minha vontade para Vos amar unicamente a Vós meu Deus, meu tudo, e para querer somente o que Vós quereis. — Meu dulcíssimo Salvador, consagro e sacrifico-Vos hoje tudo o que tenho e tudo o que sou: os meus sentidos, os meus pensamentos, os meus afetos, os meus desejos, as minhas satisfações e inclinações, a minha liberdade; numa palavra, deposito em vossas mãos todo o meu corpo e toda a minha alma.
Aceitai, ó Majestade infinita, o sacrifício que de si mesmo Vos faz o pecador mais ingrato que até hoje tenha existido na terra, mas hoje se oferece e se consagra todo a Vós. Ó meu Senhor, disponde de mim segundo a vossa vontade. Vinde, ó fogo devorador, ó amor divino, e destruí em mim tudo o que é meu e desagrade a vossos olhos puríssimos, afim de que daqui em diante eu seja todo vosso e viva unicamente para cumprir não somente os vossos mandamentos e conselhos, mas também todos os vossos santos desejos e o que Vos dê maior satisfação. — Ó Maria Santíssima! Apresentai com as vossas mãos esta minha oferta à Santissima Trindade e fazei que aceite e me conceda a graça de Lhe ser fiel até à morte. (*I 140).
  1. Math. 26, 26.
    2. I Cor. 11, 23.
    3. Matth. 28, 20.
    4. Cant. 2, 16.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 25 - A Penitência



Catecismo Ilustrado - Parte 25

Os Sacramentos

A Penitência

1. A Penitência é o sacramento instituído por Jesus Cristo para perdoar os pecados cometidos depois do Batismo.

2. Recebemos o sacramento da Penitência quando o sacerdote nos dá a absolvição. A absolvição é a sentença que o confessor pronuncia em nome de Jesus Cristo para perdoar os pecados do penitente com as devidas disposições.

3. Para recebê-la válida e frutuosamente a absolvição são necessárias três coisas que se chamam as três partes do sacramento da Penitência, e também os três atos do penitente, a saber: Contrição, confissão e satisfação. Das três, a mais necessária e indispensável é a contrição, que em certos casos pode suprir as outras.

Contrição

4. A contrição é um verdadeiro desgosto da alma, a dor de coração e uma aversão ao pecado cometido, com propósito firme de nunca mais pecar.

5. A contrição é perfeita, ou imperfeita, a qual se chama também atrição. A contrição perfeita é uma dor pelo qual nos pesa termos ofendido a Deus, por Ele se infinitamente bom, infinitamente amável, e porque o pecado Lhe desagrada. – A contrição imperfeita ou atrição é a dor de ter ofendido a Deus, causada ordinariamente pela ignomínia do pecado, pelo temor do Inferno ou pela perda do Paraíso.

6. A melhor é, sem dúvida alguma, a contrição perfeita, que provem do amor de Deus e sendo por Ele aperfeiçoada, perdoa todos os pecados, com a condição de ter intenção de confessá-los. O ato de contrição perfeita equivale pois ao ato de caridade perfeita que perdoa todos os pecados.

7. A atrição não basta para alcançar o perdão do pecados senão sendo por meio da absolvição no sacramento da Penitência, porque a atrição dispõe somente para impetrar (pedir) o perdão dos pecados e a Graça de Deus.


A Confissão

8. A confissão sacramental é a acusação dos próprios pecados, feita a um sacerdote para isso aprovado, a fim de receber a absolvição. Digo acusação, porque os pecados não se devem contar como uma história, mas com ânimo de se acusar pecador a si mesmo, e de querer tomar sobre si severa penitência.

9. Foi Nosso Senhor quem instituiu a Confissão quando deu aos seus ministros o poder de perdoar ou não os pecados, porque o sacerdote não pode julgar se deve ou não perdoá-los sem conhecê-los, e em consequência, sem os ouvir em confissão.

10. Para a confissão ser válida, o pecador deve acusar todos os pecados mortais que cometeu, com o número e as circunstâncias que mudam ou aumentam a gravidade do pecado. Para isso deve fazer-se o exame de consciência que é uma busca diligente dos pecados cometidos.

11. Não é necessária para uma boa confissão, a acusação dos pecados veniais, mas é muito útil acusá-los.

A Satisfação

12. Chama-se Satisfação a Penitência sacramental que o confessor impõe e pela qual se repara a Deus pelos pecados cometidos. Esta penitência impõe-se para castigo do pecado e para remédio das enfermidades do penitente. Quem se confessar com intenção de não cumprir a Penitência não fica absolvido.

13. Devemos também reparar o próximo, se lhe tivermos causado algum dano, como está explicado nos mandamentos da lei de Deus. Quem se confessar com intenção de não restituir ou não reparar os danos causados ao próximo, não fica absolvido.

Explicação da gravura

14. A parte principal da gravura representa Nosso Senhor instituindo o sacramento da Penitência, quando deu aos seus discípulos o poder de ligar e desligar, dizendo: “Os pecados serão perdoados àqueles a quem os perdoardes, e não serão perdoados àqueles a quem não os perdoardes.”

15. No ângulo superior direito vê-se o paralítico a quem Jesus perdoou primeiro os pecados e depois disse: “Levanta-te e anda”. No ângulo superior esquerdo, vê-se a pecadora Madalena ajoelhada e chorando aos pés de Jesus, que lhe diz: “Vai em paz, são-te perdoados os teus pecados”.

16. Na parte inferior, à direita vê-se saindo do confessionário, perdoado, um pecador que fez uma boa confissão, e do lado oposto, um pecador que não alcançou o perdão por ter feito uma confissão nula

terça-feira, 10 de outubro de 2017

MARIA SANTÍSSIMA SUAVIZA A MORTE DOS SEUS DEVOTOS

Non tanget illos tormentum mortis — “Não os tocará o tormento da morte” (Sap. 3, 1).
Sumário. Desde o grande dia em que a Santíssima Virgem teve a felicidade e ao mesmo tempo a dor de assistir no Calvário à morte de Jesus Cristo, tornou-se protetora especial dos pobres moribundos. Quando a divina Mãe vê um seu devoto nestes extremos, ordena a São Miguel que o defenda contra os assaltos do demônio e ela mesma também vai assisti-lo e socorrê-lo. Avivemos, pois, a nossa devoção para com Maria, e, ainda que pecadores, esperemos que também nós havemos de gozar da sua proteção na hora de nossa morte. Oh! Que doce consolação morrer entre os braços de Maria!
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I. Os amigos do mundo não deixam o amigo enquanto está em prosperidade; mas se vem a cair em alguma desgraça, e especialmente à hora da morte, logo os amigos o deixam. Não faz assim Maria com os seus devotos. Nas suas angústias, e em particular nas da morte, que são as maiores que se pode ter na terra, nossa boa Mãe não sabe desamparar os seus fiéis servos. Assim como ela é nossa vida no tempo de nosso desterro, assim também quer ser doçura na hora suprema, alcançando para nós uma morte doce e preciosa, pelo que a Igreja lhe conferiu o belo título de Auxilio dos agonizantes.
Desde o grande dia em que Maria teve a felicidade, e ao mesmo tempo a dor de assistir à morte de Jesus seu Filho, que foi a cabeça dos predestinados, adquiriu a graça de assistir também a todos os predestinados na sua morte. E por isso, como diz São Boaventura, ela manda que o arcanjo São Miguel vá com outros espíritos celestiais defender seus filhos moribundos das tentações do demônio e receber suas almas afim de as levar ao tribunal divino.
E não contente com isso, nossa piedosa Rainha, como prometeu à Santa Brígida, virá ela mesma e muitas vezes visivelmente assistir a todos os devotos que a serviram fielmente e se-lhe recomendaram continuamente. Assim, efetivamente, lemos que ela apareceu à Santa Clara de Montefalco, à Santa Teresa de Jesus, a São Pedro de Alcântara e a centenas e milhares de outros. Ó Deus! Que consolação será para um filho de Maria, quando no supremo momento de sua vida, em que se há de decidir a causa de sua eterna salvação, vir ao pé de si a Rainha do céu, para o defender dos assaltos dos demônios e lhe prometer a sua proteção!
II. Quando São João de Deus estava para morrer, esperava a visita de Maria Santíssima, da qual era muito devoto; mas, vendo que ela não aparecia, estava aflito e lamentoso; eis que a divina Mãe lhe aparece e, como que repreendendo-o de sua pouca confiança, lhe diz: “Meu João, não sabes que eu não desamparo os meus devotos na hora da morte?” — Animemo-nos, pois, e tenhamos confiança em que a Virgem virá assistir-nos na hora da morte e consolar-nos com a sua presença, se nós a servirmos com amor, ao menos no tempo de vida que ainda nos resta.
† Ó Maria Santíssima, Mãe de bondade e misericórdia, quando me lembro dos meus pecados e penso no momento da minha morte, estremeço de espanto. Ó Mãe terníssima, todas as minhas esperanças são fundadas nos méritos de Jesus Cristo e na vossa intercessão. Ó Consoladora dos aflitos, não me abandoneis então, não deixeis de me consolar nessa extrema aflição. Se agora estou tão atormentado pelo remorso dos pecados cometidos, pela incerteza do perdão, pelo perigo de recair e pelo rigor da justiça divina, que será de mim naquele momento?
Ah, Soberana minha! Antes que a morte chegue, dai-me uma viva dor dos meus pecados, uma verdadeira emenda e a fidelidade a Deus para o resto de minha vida. E quando soar a hora derradeira, ó Maria, minha esperança, assisti-me nas cruéis agonias em que me achar; sustentai-me para que não me desespere à vista dos pecados que o demônio me há de por diante dos olhos. Obtende-me a graça de vos invocar mais vezes então, afim de que expire tendo nos lábios o vosso dulcíssimo nome e o vosso divino Filho. Esta graça, vós a tendes feito a muitíssimas almas que vos eram dedicadas; eu a quero e espero para mim também.
“E Vós, ó meu Deus, que quisestes que a Virgem Maria, Mãe de vosso Unigênito, estivesse presente quando Ele estava pregado na cruz pela nossa salvação: concedei-me, suplico-Vos, que, achando-me no fim da vida, também eu seja socorrido pela sua intercessão e alcance a recompensa eterna. Fazei-o pelo amor de mesmo Jesus Cristo.” (1)
1. Or. Eccl.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

Fonte: