segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Misericórdias do Coração de Jesus no sacramento da Penitência

O Sacramento da Penitência é o triunfo do Sagrado Coração de Jesus. Nele aparece muito mais misericordioso ainda que no sacramento do Batismo; pois neste (ao menos no Batismo de crianças) a graça do perdão não apaga mais do que uma mancha da qual o pecador não é pessoalmente responsável; enquanto no da Penitência esta mesma graça se dilata ainda mais, e não conhece outros limites que os que lhe impõe a má vontade desses infelizes sem juízos chamados pecadores impenitentes.




Mons. de Ségur (*) | O sacramento da Penitência [Confissão ou Reconciliação] pode chamar-se maravilha do Coração de Jesus. Neste, mais do que nos outros Sacramentos, o Salvador abre a todos os homens esse divino Coração que tanto os têm amado. Neste Sacramento brilha de um modo especialíssimo a onipotência de sua misericórdia e bondade, todos os dias e em toda a terra, com prodígios de todo gênero.
Santa Margarida Maria via o Sagrado Coração com suas chamas, sua cruz e sua cora de espinhos, como em um trono resplandecente de glória. Não é este trono uma formosa figura do tribunal da Penitência, em que a glória de Deus não resplandece menos em milagres de misericórdia do que no Sacramento do altar em prodígios de amor e santidade? Qual é, com efeito, na terra a glória por excelência de Deus senão a conversão dos pobres pecadores, a ressurreição e a salvação das almas?
Desde o alto deste trono de compaixão e de paciência divinas, de inefáveis misericórdias e de perdão inextinguível, o Coração de Jesus, vivo e palpitante no coração de seus sacerdotes, arde de amor pelos pobres pecadores e devora avidamente seus pecados em suas divinas chamas. Dali irradia a esperança; ali derrama em torrentes o sangue da redenção.
O sangue de Jesus, o sangue do Coração de Jesus, é como a alma deste grande Sacramento. Este é um composto de celestial santidade que purifica, de ternura que alivia e consola, de compaixão que comove e abranda os corações, de ardores sagrados que abrasam, e enfim, e sobretudo, de amorosa caridade. Isto é a Confissão, essa Confissão que tanto espanta aos que não tem a dita de “crer no amor que Deus nos tem”.[1]
Um dia, depois de confessar-se, Santa Catarina de Sena escrevia estas palavras cheias de profundidade: “Eu fui ao Sangue de Cristo: Ivi ad sanguinem Christi.” Ir ao Sangue de Jesus não é ir ao seu Coração, ou seja, à fonte e ao foco de seu amor? E há homens, há cristãos que temem aproximar-se deste Sacramento! Oh Sangue divino, Sangue de amor e de infinita misericórdia! A vós venho, precisamente porque sou pecador. Por mim fluís; a mim aguardais, como o pai do filho pródigo aguardava seu pobre filho, Sim, irei a vós, oh Sangue purificador e santificante! Irei a vós com coração contrito e humilhado, mas cheio de confiança! Que gozo possuir este rico tesouro da Confissão! E com quanta verdade é a Esposa de Jesus Cristo esta misericordiosa Igreja católica, que possui o trono da misericórdia do Coração de Jesus!
Bem podemos dizer sem reparo que o sacramento da Penitência é o triunfo do Sagrado Coração de Jesus. Nele aparece muito mais misericordioso ainda que no sacramento do Batismo; pois neste (ao menos no Batismo de crianças) a graça do perdão não apaga mais do que uma mancha da qual o pecador não é pessoalmente responsável; enquanto no da Penitência esta mesma graça se dilata, estende-se ainda mais, e não conhece outros limites que os que lhe impõe a má vontade desses infelizes sem juízos chamados pecadores impenitentes. É de fé que na Confissão o sacerdote pode perdoar tudo, absolutamente tudo, sem exceção; e a Igreja quer que o sacerdote perdoe tudo, quando o pecador dá verdadeiros sinais de arrependimento. Oh, misericórdia do Salvador! Nem para isto oferecem obstáculo as recaídas, sempre que provenham da fragilidade humana; pois Jesus chama ao perdão os fracos como os fortes, os pobres como os ricos, a todos os que têm boa vontade. Depois do altar, que é o trono do santo amor, em nenhuma parte é maior nem mais admirável o sacerdote católico que no confessionário, trono da divina misericórdia.
As chamas com que ali arde o Sagrado Coração não só aniquilam nossos pecados, mas que além disso apagam as chamas eternas do inferno que por eles merecíamos; e ainda, se nossa contrição é perfeita, a Igreja nos ensina que as chamas do Coração misericordioso de Jesus apagam também o fogo do purgatório.
Com suas amorosas chamas o Coração de Jesus abrasa, dilata e derrete de uma vez o Coração do confessor, inundando-o de caridade e de doçura, e o coração do penitente, inundando-o de contrição, purificando-o até em seus menores esconderijos e inundando-o de felicidade e de alegria.
E tudo isto é o fruto da cruz e da coroa de espinhos; o fruto da Paixão de Jesus Cristo, cujos méritos infinitos nos são aplicados no sacramento da Penitência.
Dai-me, pois, meu bom Salvador, que ame como devo este maravilhoso Sacramento, e que a ele recorra frequentemente com vivíssimos desejos de aproveitar-me das santas efusões de vosso sangue. Fazei que me confesse sempre bem, que seja muito sincero na manifestação de meus pecados, muito leal com minha consciência, que dissolva o orgulho e os respeitos humanos, e que receba sempre a absolvição com as santas disposições que vosso Coração comunica aos corações fiéis, e que neles quer que resplandeçam.
Nota
[1] 1 Et nos cognovim us, et credidimus charitati, quam habet Deus in nobis. (I, Joan. IV, 16.)

(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 121-125 Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

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