terça-feira, 25 de abril de 2017

Benevolência para com o próximo



Deus quando formou o coração do homem, plasmou-o na bondade, estas palavras do genial Bossuet se aplicam a todos nós, principalmente à mulher, a quem Deus enriqueceu com tesouros de bondade e delicadezas tais, que a torna apta para suavizar as horas amargas da vida.

Á vista da desgraça alheia, não se comove o coração da mulher muito mais depressa que o do homem? Não chora a moça e a mulher de vezes antes, sobre o infortúnio alheio? Não estendem com mais prazer sua mão benfazeja para suavizar a necessidade alheia? Em regra não resolvem dez moças consagrar-se, como irmãs de caridade, às obras de misericórdia cristã, antes que só rapaz queira prestar-se a tal sacrifício? 

Este traço de bondade e benevolência, com que Deus marcou coração feminino, deves, jovem cristã, procurar conservá-lo e avivá-lo sempre mais. Não te é apenas um adorno: também se lhe anexa um grande poder, muito salutar e benfazejo a outrem.
O conhecido escritor inglês Faber, assim se exprime sobre o poder da benevolência:

Vejo uma multidão de pequenos entes, com as faces veladas, quem em união com a graça e com os anjos executam as suas obras. Esvoaçam por toda a parte. Consolam os tristes, tranqüilizam os aflitos, acalmam os enfermos, acendem nos olhos dos moribundos um raio de esperança, mitigam as dores dos corações aflitos e desviam os homens do pecado. Parecem dotados de força surpreendente: conseguem o que os anjos não podem; insinuam-se nos corações, a cujas portas se lhes abrem, voam de novo estes pequenos mensageiros do Pai do Céu, para levar a graça. Estes pequenos, mas poderosos entes, são os atos de bondade, que da manhã à noite se acham ao serviço do bom Deus”.

Servindo-se de uma comparação tirada da vida dos animais, certo escritor francês procura expor o benefício influxo da benevolência, fazendo-nos ver como os próprios animais não são insensíveis ao toque da bondade.
É a história de um pobre cãozinho, que corre apressado ao longo do muro e se esconde quanto pode. As crianças perseguem-no. Os trausentes o repelem a ponta-pés. É um cão do campo, cujo dono o expulsou. Magro, faminto, imundo, passa as noites ao relento nos portões, de orelha em pé, receoso de ser enxotado impiedosamente. Ninguém lhe dá um olhar carinhoso, e até os outros cães o assaltam com desprezo, por não serem tão magros quanto ele. Passa um homem; o pobre animal adivinha nele um salvador e se lhe arroja aos pés, implorando alguma coisa com um olhar de amargura e tristeza.

O homem acaricia o cãozinho, toma-o consigo e o restaura novamente. Pouco tempo depois o animal adquire uma aparência tão bela, e altiva, que todos o apreciam e já ninguém o maltrata. Se tivesse permanecido faminto e desgraçado, a raiva, a loucura, se teriam apoderado dele. Como foi objeto de amor e assistência, mostrou-se tão fiel e agradecido, e recuperou aquela aparência bonita que os mesmos cães que antes o mordiam com desprezo, agora o olham com inveja. Assim acontece também entre os homens: a bondade torna-os felizes e a felicidade comunica-lhes beleza e dignidade.

1º- Sê, portanto jovem cristã, benévola e caridosa nos pensamentos, com relação ao teu próximo. 

A caridade não suspeita mal”, diz o apóstolo dos gentios. Não concede nenhum pensamento injusto, nenhuma desconfiança infundada, nenhuma prevenção. Dificilmente acredita no mal que vê; desculpa de bom grado a intenção quando não pode desculpar a ação.
Se possuíres caridade, muito mais facilmente e com maior prazer, dirigirás os teus pensamentos e a tua atenção interna, antes para as qualidades do teu próximo do que para as suas faltas. De fato, toda pessoa a par das imperfeições e defeitos, possui também boas qualidades. É o que te será fácil reconhecer e levar em consideração, sem julgar com muita severidade as faltas alheias nem demasiado te ocupar com elas.

Sê como a abelha delicada que pousa sobre as flores e delas suga o doce néctar, evitando feri-se nos espinhos. Disse um grande educador: “quem nutrir amiúde pensamentos benévolos a respeito do próximo, instigado por motivos sobrenaturais, não estará muito longe de se tornar santo”.

Numerosos cristãos, mesmo assíduos à prece, á recepção dos Sacramentos nem por isto se tornam santos, por não resistirem com bastante energia a pensamentos menos caritativos que se lhes revolvem no interior, e proferirem acerca das demais sentenças duras e inclementes.
E quantas penas severas não atrairemos sobre nós, o Purgatório, por causa desta insensibilidade! Com todas estas asperezas ser-nos-á impossível entrar no céu, e fruir da visão de Deus, que é o próprio Amor. Nem a morte as removerá do nosso coração; só restará que sejam aniquiladas em nossas almas, pelas chamas do Purgatório. E, se estas asperezas e insensibilidades forem muito graves, deveremos, então, temer que o seu peso nos arraste ainda mais a baixo, àquela tremenda profundeza, onde não reina mais nenhum amor, e da qual ninguém se poderá evadir. 

2º- Sê ainda benévola e caridosa no falar. 

Primeiro, no trato com teu próximo. Tem sério cuidado em falar , sempre com tranqüilidade e mansidão com as pessoas das tuas relações, que, destarte ganharás domínio sobre elas. É belo o provérbio alemão, que assim reza: “uma boa palavra encontra um bom eco”. – ein gutes Wort findet einem guten Ort.

Muitas amizades nobres e devotadas, que nada poderá desligar, tiveram o seu começo em palavras amáveis, saídas de um bom coração. Quantas desconfianças e preconceitos, nutridos por longo tempo contra uma pessoa, não cessam de todo, porque num encontro aparentemente fortuito com ela, se ouve de seus lábios palavras afáveis e cordiais! É como bálsamo sobre o coração; tudo se torna claro e pacífico, toda prevenção desaparece e renasce o entusiasmo. E, no entanto, foram apenas umas poucas palavras, que momentos depois o vento dissipou: mas a doçura e suavidade com que foram pronunciadas, tiveram a virtude de afastar do coração a camada de gelo e convertê-lo completamente.

Antes de tudo, guarda-te daquela nervosa irritabilidade tão comum, em nossos tempos, que se procura desculpar, com tamanha facilidade, e que ocasiona tantas amarguras, dá aso a palavras ásperas e severas observações.
 
Aprende a dominar-te, até mesmo quando pensas que possuis nervos delicados e fracos, e permite somente palavras que alegrem e edifiquem.
Deves também ser benévola quando te revelam faltas do teu próximo. É muito importante chamar atenção sobre este ponto. Que de males não causa quem discorre, com tanto prazer, sobre as faltas e defeitos dos outros! Quantos ódios e desavenças, rixas e altercações e ciúmes produz! Quanta confusão e desordem cria! Com muita razão, diz a Sagrada Escritura;Aguçam as línguas viperinas; têm veneno de áspides debaixo de seus lábios” (Sl. 139,4). 
Com muito rigor e severidade, fala São Bernardo a esse respeito, não obstante, o seu cognome de melífluo:

Não é porventura a língua a cobra mais cruel? Sem dúvida, com seu hálito ela envenena mortalmente. Não é a língua uma lança pontiaguda? Sem dúvida, a mais pontiaguda de todas, porque de um só golpe fere três homens, ao mesmo tempo; aquele a quem desonra, aquele que ouve, e aquele que fala”.

Eis porque não deves falar sobre as faltas do teu próximo, a não ser que o exija um motivo importante, e mesmo, neste caso, sem excitação apaixonada e só o necessário. Se outras pessoas em tua presença conduzem a conversa para tais assuntos, sem necessidade, esforça-te por dar à palestra outra direção, ou defende a honra do próximo com palavras pacíficas e brandas, chama a atenção dos que assim falam para a injustiça e crueldade de tais maledicências.

Deste modo desempenharás o pacífico dos anjos, suavizarás a hora da tua morte e merecerás sentença benigna no tribunal divino.

Jovem cristã, sê benévola para com os outros em todo o teu proceder, fecunda em obras de misericórdia, sobretudo se puderes dispor de tempo e folgas e dissipações, em prazeres e divertimentos. Tudo isto tornar-te-á fútil e superficial; roubar-te-á a energia da vontade, de que necessitas, a fim de poderes dominar as tuas más inclinações, criará em ti um sentimento mundano, que a seu tempo dissipará o espírito cristão e fará com que tenhas por estranhos Deus e Sua santíssima vontade.

Não percorras o caminho da vida fria, insensível e inconsideradamente. Reflete, muitas vezes, na bondade de Deus para contigo, e confronta a tua situação com a daqueles que têm de suportar um destino duro e cruel.

Teus pais desdobraram-se para proporcionar-te educação esmerada e não pouparam esforços para dar-te instrução suficiente, a fim de que enfrentes o porvir com ânimo sereno.

Outros há que, muito cedo, perderam os pais, pobres órfãos, não encontraram ninguém que se interessasse pela sua educação e subsistência.

Não poderias economizar alguma coisa nos teus vestidos e recreações, a fim de contribuir, com um óbolo para a educação de tais órfãos desamparados? Trajas roupas finas com apuro e bom gosto, alimentas-te diariamente em mesa farta, dormes em leito macio, habitas uma casa que no inverno é agradavelmente aquecida, e onde nada falta para a tua comodidade.

Muitos há que não conhecem tais coisas por experiência; tantas casas onde o pai, cuidadoso sustentáculo do lar, demasiado cedo desapareceu da vida ou jaz enfermo desde há muito, pelo que a pobre mãe se vê obrigada a dedicar-se a duro trabalho para sustentar os queridos filhos; e todavia, a despeito das suas canseiras, apenas lhe é possível saciar-lhes a fome com mesquinha alimentação e provê-los de roupa suficiente.

Não poderias, nas horas disponíveis, confeccionar para essas crianças enregeladas um agasalho quente?

O Divino Salvador, sem dúvida, haveria de recompensar-te largamente, como fez outrora a São Martinho, o qual, sendo soldado, numa noite de inverno cedeu a um mendigo que tiritava de frio a metade do seu manto.
Gozas, talvez, de saúde exuberante e sentes como o sangue circula rápido e vivo em tuas veias; no entanto, quantos doentes jazem longo tempo em seu pobre leito de dores, sem dinheiro para chamar um médico, e sem alimento que lhes possa fortalecer e restituir as energias consumidas pela doença.

Dize-me, não poderias passar pelo tugúrio destes pobres, a fim de fazeres algo por eles e alegrá-los com algum caridoso auxílio? Oh! tem certeza de que entrarias no quarto, ou melhor, no coração destes doentes, como o sol brilhante e benéfico; sentirias com isto maior alegria interna e delícias mais intensas das que gozas num baile aparatoso ou num passeio divertido.

Sim, a benevolência fazem-nos semelhantes a Deus, granjeiam-nos seus favores e destilam em nosso coração descanso e paz.

Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta passeavam certa vez ás sombras da floresta pitoresca de Versalhes. Encontraram-se com uma jovem que trazia um prato com uma só colher de estanho.

- "Que trazes tu, aí?" interrogou a Princesa.
-"Alteza, a sopa para meu pai e para minha mãe, que trabalham lá em baixo, no campo".
- "Com que foi preparada?"
- "Com água e raízes".
- "Sem carne?"
- "Ah! senhora, nós nos sentimos felizes e contentes, quando temos apenas pão".
-  "Leva, então, esta moeda de ouro a teu pai, para que vos provenha de alimentos mais substanciosos".

Cheia de alegria retirou-se a jovem, e Maria Antonieta seguiu-a com os olhos.
Viu, pouco depois, que a pobre gente se punha de joelhos no meio do campo.
- "Vês? meu querido, - exclamou a Princesa - estão rezando por nós. Oh! Deus, quanto é doce fazer o bem!"

Nunca te esqueças pois destas palavras da Sagrada Escritura:
 
 "Não se afastem de ti a misericórdia e a verdade; põe-nas ao redor do teu pescoço, e grave-as sobre as tábuas do teu coração, que assim encontrarás graça e boa opinião perante Deus e perante os homens". (Prov., 3,3-4).
 
Reflete amiúdo também sobre as palavras de São João Crisóstomo:

"Diante de Deus, mais vale ser misericordioso do que ressuscitar mortos, pois é obra melhor alimentar a Cristo faminto, do que em Seu nome ressuscitar mortos".

(Donzela cristã, Pe. Matias de Bremscheid)

Fonte:

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Maria, advogada, medianeira e corredentora

Maria é a Medianeira de todas as graças, a própria Mediação, Advogada e Corredentora da humanidade; não por Ela mesma, mas pela mesmíssima Trindade divina





Tradução Sensus fidei: Queridos irmãos, a Santíssima Virgem Maria, acima dos anjos e santos, é o paraíso especialíssimo da Santíssima Trindade. Ela sozinha, depois, o imediatamente mais próximo a Ela, que é São José, e, em seguida, em grau menor, todos os bem-aventurados que estão neles, Maria e José, como filhos, nunca acima deles ou semelhante a eles. Maria, sabendo o que Ela é pela graça de Deus, e, São José, aquele que é o que é através de Maria. Maria por Deus, José por Maria.
Que grandeza da Santíssima Virgem! Quem é Maria? Não podemos sequer imaginar. Mas imaginando algo, podemos entender que até mesmo sua própria criação, e todas as suas graças, passaram através d’Ela. Tamanha foi a sua humildade, que Deus não a rejeitou, não por Ela. Essa humildade abismal estava na mente de Deus, e, por isso, aceitou-a.
Bem, pode-se dizer que, por não querer, não quis nem a sua própria existência, somente a de Deus. O seu próprio “eu” nunca lhe sobrepujou a existência; na verdade, nunca pensou em si mesma, mas na Santíssima Trindade; nunca teve em conta a si mesma; nunca se ocupou do pensamento de si mesma, por bom e santo que fora.
Maria aceitou, sem rejeitar ao mínimo, a ideia que a própria Trindade tinha d’Ela, por isso, é Medianeira de todas as graças, até mesmo as mesmas graças que Ela traz em si. Ainda mais, Maria é a Mediação com a qual o Filho eterno torna possível a Criação, a Redenção, a Justificação, a Santificação, juntamente com o Pai e o Espírito Santo.
Ela não é somente nada de si mesma, mas jamais teve consciência senão apenas da Trindade Divina, e pela própria Trindade, e nunca por Ela. Maria é um abismo que excede as consciências de todos os bem-aventurados, anjos, seres humanos, e que nem em toda a eternidade se poderá abranger a sua grandeza. Só Deus sabe quem é Maria em toda a sua grandiosidade.
Maria foi fiel à própria ideia que Deus tinha d’Ela, e não por Ela, mas por Deus, e o plano divino de sua própria existência — de Maria —contemplou-o unicamente desde o próprio Deus. Maria sendo distinta de Deus, somente sentiu Deus em si.
Desde o primeiro momento de sua existência nunca sentiu-se a si mesma, mas somente a Deus. Tudo o que são as Três Pessoas Divinas foi concedido a Ela pela graça. De tal maneira que Maria é instrumento de Deus em tudo e para tudo, sem que Ela em nada se tivesse em conta. Toda a sua inteligência era como se fosse a inteligência de Deus. Toda a sua consciência — sem deixar de ser consciência de criatura, como a inteligência — como se não fosse criatura, mas de Deus.
Nunca foi um abismo de conhecimento humano, mas um abismo humano de todos os conhecimentos divinos, pela graça máxima criada por Deus, que é Maria. Não agir como Deus é uma imperfeição, e Maria não teve nenhuma imperfeição. Porque n’Ela se realizou em toda plenitude a perfeição do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ela unicamente sentiu a Deus, e não a si mesma.
Jesus Cristo é o mediador e autor de sua própria humanidade mais sagrada e divina, seu próprio corpo e alma, e todas as graças de seu corpo e alma. Ele mesmo é por si mesmo; e pode fazer, com o Pai e o Espírito Santo, de Maria instrumento da Santíssima Trindade para todos. Como não poderia ser medianeira, advogada e corredentora? O que o Filho realizou, Ela com Ele o realiza, não por Ela, mas por Ele. Porque assim o quis a Divina Trindade. Em Maria opera apenas a vontade divina. Maria é a consciência que Deus tem d’Ela.
Maria unida à Obra redentora de seu Filho foi associada a ela, como o Pai e o Espírito Santo. À ação trinitária da Redenção Maria foi unida como Corredentora. Ao pé da Santa Cruz, enquanto seu Filho culminava a Redenção, Ela se unia a ela na plenitude divina, não porque Ela quisera por si mesma, mas porque o decretou a Santíssima Trindade. Nada é por Ela mesma, somente por Deus.
Onde está Deus está Maria. Onde está Maria está Deus. Onde está Jesus Cristo está Maria. Onde está Maria está Jesus Cristo. Onde está o Espírito Santo está Maria. Onde está Maria está o Espírito Santo.
Onde não está Maria, não está nem o Pai, nem o Filho e nem o Espírito Santo. Onde não está Maria não está Deus. Quem não tem Maria por Mãe não tem Deus por Pai.
Quem não conhece Maria não conhece o único Deus, Uno e Trino.
Maria é a Medianeira de todas as graças, a própria Mediação, Advogada e Corredentora da humanidade; não por Ela mesma, mas pela mesmíssima Trindade divina.
Ave Maria Puríssima.
Pe. Juan Manuel Rodriguez de la Rosa

sábado, 22 de abril de 2017

Tradicional estudo da Bíblia


Muitos de nós, católicos tradicionais, gastamos um enorme tempo lendo blogs, estudando os documentos de liturgia e história da Igreja. Mas sinto que não gastamos tempo suficiente lendo a Bíblia









Muitos de nós, católicos tradicionais, gastamos um enorme tempo lendo blogs, estudando os documentos de liturgia e história da Igreja. Mas sinto que não gastamos tempo suficiente lendo a Bíblia. Quando eu posto algo sobre a Bíblia, penso que as pessoas não acham muito interessante porque não há controvérsia, mas apenas a Palavra de Deus.

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Se queremos ajudar a salvar a nossa Fé Católica, precisamos ser muito bem fundamentados exatamente onde nossa fé católica proveio bem como a nossa tradição. Não estou dizendo que precisamos de memorizar versículos, a fim de ser capaz de defender a Fé Católica. Estou dizendo que é preciso ser bem versado na Palavra de Deus, de modo a ser capaz de defender a nossa fé.
Alguns exemplos simples, como quando Jesus em João 6:53 diz. “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos”. Você deve se lembrar da Carta de São Francisco a todos os fiéis, quando ele cita esta passagem para dizer que é preciso ser católico e comer o Corpo e beber o Sangue de Jesus, para alcançar a salvação.
Outro exemplo é João 3: 5: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus”. Aqui Jesus deixa claro que para ser salvos temos de ser batizados e confirmados.
Mateus 16:18 “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
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Continue estudando a sua Fé Católica, mas também supere o tédio de aprender mais sobre a Bíblia. Mais uma vez encorajo a todos que leem este blog para que tentem se reunir e estudar a Bíblia. Eu sei que você tem medo de interpretar erroneamente a Bíblia estudando por conta própria. A melhor coisa a fazer é conseguir um sacerdote tradicional para conduzi-lo. Em seguida, alguém que tenha estudado sob a direção de um bom sacerdote para ensiná-lo. Você sempre pode encontrar no google passagens difíceis à luz do entendimento tradicional das mesmas. Digite “compreensão católica tradicional do pão da vida nos escritos da Bíblia”.
Por favor, tenha cuidado em não perder muito tempo com as notícias sobre o Papa ou controvérsias tradicionais. A internet pode consumir um tempo precioso de oração importante e leitura da Bíblia. E não podemos esquecer de cumprir as obrigações diárias das nossas diferentes vocações. Muitas vezes podemos escapar de nossos deveres envolvidos em questões da Igreja. Ofereçamos os nossos deveres diários de estado como uma oração e Deus irá responder às suas orações para a restauração de Sua Igreja.

Publicado originalmente em 13 de outubro de 2013: Traditional Catholic Priest – Traditional Study of the Bible
Tradução Sensus fidei:

quinta-feira, 20 de abril de 2017

As fontes das dores da Santa Virgem



Podemos agora nos ocupar de nossa terceira questão. Quais seriam as fontes das dores da Santa Virgem? Por fontes não entendemos exatamente o mesmo que causas, mas sim os motivos íntimos de sensibilidade que se encontravam em Seu Coração e que conferiram às Suas dores aquela amargura distintiva. Quando uma mãe perde seu filho único, essa perda é para ela assaz amarga, e deve sua distinção e intensidade à circunstância de encontrar sentimentos especiais no coração materno. O menino é tão belo que sua perda parece impossível de suportar, ou então, ele promete tanto do ponto de vista intelectual e moral, ou ele morreu tão jovem, ou ainda, ele tinha alguma coisa que, humanamente falando, não lhe devia causar a morte, ou então esta se deu precisamente em um momento em que as circunstâncias a fazem mais sensível para a família do que seria em outro tempo; essas particularidades, que se poderiam multiplicar ao infinito, são como centros duma amargura particular, em torno dos quais a dor se ajunta, penetra, se estende, se dilata, se envenena, bem além da medida real da aflição. No entanto, todas essas coisas são para a mãe afligida as realidades mais cruéis, e que não se limitam a aumentar suas mágoas duma maneira imaginária ou puramente sentimental. E no que concerne à Santa Virgem, em consideração Àquele por quem Ela sofria, a aflição real jamais poderia ser além da medida. Pelo contrário, a dor humana, mesmo a dor de Maria, não poderia igualar a verdadeira causa do sofrimento nesse caso. Todavia também no Coração de Maria havia centros em torno dos quais Suas mágoas se concentravam, tornando-se ali mais penosas e produzindo dores bruscas e agudas mais violentas ainda. O que vamos agora considerar são esses centros, essas fontes especiais de amargura contínua; mas, ao mesmo tempo, não devemos nos esquecer que as perfeições do Coração de Maria ultrapassam a tal ponto a nossa inteligência, que certamente haverá várias dessas fontes de dores dilacerantes para Ela que nós não poderemos apreciar, que nós não poderemos sequer imaginar; não devemos nos esquecer que, ao atravessarmos esse país que nos é estranho, fica faltando ainda sondarmos as regiões situadas mais ao lá, regiões ainda desconhecidas, e cuja descoberta talvez constitua uma das numerosas ocupações plenas de delícias reservadas ao Céu.

A primeira das fontes de dor para Maria era o pensamento de que Ela não podia morrer com Jesus. Há não poucas mães que, em circunstâncias semelhantes, desejam vivamente a morte. Para um coração destroçado, a morte é preferível à vida. E quando a morte não constitui uma separação, mas uma união ininterrupta, uma união transferida desta terra desolada ao seio do Pai Celeste, qual mãe afligida não a consideraria um inestimável favor? Assim o foi, e no mais alto grau, para Maria. Jamais um filho foi tão querido à sua mãe terrestre quanto Jesus o foi para Maria; jamais um filho foi tão bom, tão belo, tão amável, tão verdadeiramente filho, como Ele o foi para Sua Mãe. Os direitos de pai e de mãe se concentravam à uma vez no Coração de Maria, de sorte que Jesus era duas vezes Seu Filho, duplamente Seu Filho. E quem poderia descrever os atrativos de Sua sagrada Humanidade? Quem poderia dizer como o amor de Maria se enraíza nas profundezas de Seu Coração maternal? Em outras palavras, Ele era Deus. E Ele Lhe havia obedecido durante trinta e três anos, numa união de amor tão encantadora que Maria teria mil vezes perdido a vida se Ele mesmo não A sustentasse, não moderando a doce violência do amor dEla, mas fortificando o Seu Coração com Seu poder onipotente. E Ele partia. O sol divino se escondia sob um mar de Sangue, entre nuvens pavorosas de ignomínia. Poderia Ela jamais o esquecer? Até o fim, o Calvário estará em Seu Coração. Essa seria uma lembrança que o tempo jamais apagaria, um desses horrores que a distância torna mais cortantes quando a vista os pode considerar com mais calma. E mesmo que isso não fosse assim, o fato é que Jesus já não estará junto dEla [da forma que antes], e para que viverá Ela então? O sol de Sua vida terá se posto. Foi o fim para Ela, muito mais do que teria sido se todo o mundo acabasse. Eram trevas inconcebíveis e que poderiam mesmo parecer absolutamente impossíveis, pois, como o mundo poderia continuar a existir sem Jesus? Quando Nosso Senhor fecha os olhos, pode-se figurar que todas as bênçãos são retiradas da terra e que todo o seu resplendor se muda em uma sombra fria e glacial. Quando os doces acentos de Sua voz não se puderem mais ouvir, seguramente toda a natureza guardará um silêncio que nada poderá interromper, sem os gritos hediondos do povo em delírio, que deveriam continuar a se multiplicar e a se repetir para sempre através do espaço. A terra ficaria com Pedro; Maria ficaria com João. Um seria o Apóstolo do mundo, outro o Apóstolo da Mãe. Mas Jesus teria partido.

Pode-se perguntar não somente por que Maria deveria continuar a viver, mas também como Ela viveria. Ser-Lhe-ia possível viver sem Jesus? Não, sem dúvida, se não A socorresse a Onipotência Divina. Como o amor de Maria deve ter sido prodigioso para obedecer à Vontade de Seu Filho sobre o Calvário, àquela Vontade que Lhe prescrevia a separação, àquela Vontade que Lhe obrigava a prolongar Sua vida ainda durante quinze anos dum incompreensível martírio! Ela tinha uma vez pedido a Ele para transformar a água em vinho, e Ele respondeu que Sua hora ainda não havia chegado; mas, em todo caso, cumprindo-se o desejo de Maria, o milagre foi realizado, sem que Ela tivesse necessidade de renovar Seu pedido. Ela não poderia esquecer-se disso sobre o Calvário; afinal, a prolongação de Sua vida por mais quinze anos era conforme à Vontade de Jesus, mas, se por um momento, Ela manifestasse uma vontade contrária, teria acaso de insistir com o Filho agonizante? Uma palavra, um olhar bastaria. E por que Ele não A atenderia? Amá-lA-ia menos agora do que em Caná da Galiléia? Seria melhor ficar e cumprir a Vontade de Jesus, ou partir com Ele e se alegrar com Sua glória? Sim; é Ela mais santa ficando do que partindo, pois a santidade, à medida que cresce, perde sua própria vontade na Vontade de Deus. Por outro lado, descer, como Seu Filho, os abismos da dor, não seria, por assim dizer, encantador? Assim como Jesus desejava os maiores sofrimentos e experimentou como que um desgosto divino pela insuficiência mesmo dos excessos do Calvário, assim Maria desejava sofrer mais, e Jesus concede a Ela algo que Seu Pai não concedera a Ele mesmo: uma outra Paixão de cento e oitenta meses. É preciso reconhecer, pois, que o fato de não morrer com Jesus constituiu para Maria uma dor especial, que não podemos apreciar devidamente, que não podemos contemplar senão de longe. Sua união com Jesus fôra tão habitual, tão estreita e tão essencial, que havia se tornado a Sua vida; e agora, no mais importante de todos os atos, Ela não poderia estar unida a Ele [isto é, não poderia morrer com Ele no Calvário]. Via-se obrigada a diferir dEle, quando o que Ela mais ardentemente desejava era se assemelhar a Ele. Mais ainda: essa falta de união deveria resultar numa verdadeira separação, e quem poderia apreciar o que essa separação significava para Maria? Entretanto, Seu amor pelo menos obteve a prerrogativa de sofrer por mais tempo que Nosso Senhor e de continuar a servi-lO por um espaço de tempo quase igual à metade daquele que Ele havia vivido. Teríamos de avançar bem longe na santidade mais eminente, para entender um pouco como Ela jamais esteve tão intimamente unida a Seu Filho, quanto na hora em que O deixou partir sem Ela.
Uma outra fonte de dores que aumentaram a amargura dos sofrimentos de Maria, foi o conhecimento que Ela tinha de que Suas próprias dores aumentavam as de Jesus, e faziam mesmo com que a agonia dEle se tornasse mais cruel. Entre os sofrimentos de Seu Filho não havia um sequer que, pelo alívio do qual, Ela desse o mundo. Nenhum opróbrio era infligido a Jesus sem atingir a alma de Maria, sem fazer sangrar o Seu Coração. Quando os golpes e as blasfêmias, os insultos, as zombarias e os maus tratos se multiplicavam contra Nosso Senhor, cada nova violência afigurava-se à Maria o limite do que Ela poderia suportar; parecia-Lhe então que uma gota a mais e o mar de Suas dores transbordaria. E Ela percebia que a vista de Seu Coração amargurado, sem cessar presente aos olhos de Seu Filho, era para Ele mais terrível do que a flagelação, do que a coroa de espinhos, que os escarros e bofetadas. Era Ela então, por assim dizer, o principal carrasco de Seu amado Filho. Mais Ela O amava ternamente, mais Ela se unia afetuosamente a Ele, mais Ela suportava voluntariamente Seus sofrimentos, mais profundamente também a lança afiada penetrava na alma de Jesus. Ela sabia disso, e, no entanto, não estava em Seu poder restringir Suas próprias dores; Sua santidade mesma as tornava mil vezes maiores. Em vão se esforçaria Ela por ocultá-las: o próprio esforço seria uma agonia. E uma aparência calma, uma atitude firme, olhos sem lágrimas, não poderiam esconder de Jesus os abismos secretos do Coração Imaculado de Sua Mãe.

Quem poderia dizer as torturas que sofria assim o Seu generoso devotamento? Ó crueldade aparente do amor imenso, que há querido que Maria fosse uma parte integrante e preeminente da cruel Paixão do Salvador! Quem conheceria a plenitude de graças que havia em Maria?! Que confiança perfeita Ele tinha na santidade dEla! A vida não havia sido para Jesus sem alegrias, mesmo alegrias terrestres.Sua Mãe havia sido um mundo de doçuras para o Homem das dores; e agora, justamente no amor dEle pelo Pai, no amor dEle por Sua Mãe, no amor dEle por nós, Ele encontra todas aquelas doçuras mudadas num oceano de amargura, o único para estancar-Lhe a sede em meio aos mistérios de Sua terrível Paixão. Ele conhecia tão o amor de Maria, conhecia-Lhe tão bem a coragem, que não hesitou em entregar-Lhe uma cruz cujo peso se aproximava o mais possível do peso da dEle. Mas o que isso significou para Ela, apesar da conformidade de Seu Coração com a Vontade de Seu Filho, qual o excesso de aflição, qual a dor sem igual que daí resultou, somos incapazes de o dizer. Quando estão em questão as dores de Maria, perto da margem mesma o mar já é bem profundo.

Mas Maria deveria em tudo isso ser simplesmente passiva? Se, por vontade de Seu Filho, Ela devia ser uma parte da Paixão, não seria permitido a Ela pensar que, pelo menos, o carinho de Seu amor traria algum alívio aos sofrimentos de Seu Filho? Ela estava muito perto do Verbo Encarnado para não compreender a estranha união da mais viva pena com a mais viva alegria, que foi sempre o estado regular da alma de Jesus sobre a terra; e o amor duma tal Mãe, amor mais profundo que as fontes mesmas da aflição, não poderia tornar-se uma fonte de alegria para o Coração de Seu Filho? O devotamento heróico da Mãe deveria certamente causar ao Filho a mais deliciosa satisfação. E, no entanto, nos aventuramos a supor que não foi assim. As analogias da Paixão nos parecem todas indicar o contrário. Jesus afasta, então, de Sua natureza inferior a felicidade sensível resultante da visão beatífica; Ele se despoja e se separa de tudo aquilo que possa consolá-lO. O desamparo por parte do Pai é um abismo no qual Jesus se lança voluntariamente; Ele não poderia, pois, permitir que o amor de Sua Mãe O ajudasse e O consolasse. Seria difícil de imaginar como Ele poderia conservar, em meio àquelas trevas, a mais grande alegria terrestre de Sua Humanidade sagrada. Seria, com efeito, uma falta de harmonia com a Paixão, com aquela desolação tão completa e sombria em que Ele se encontrava, e que foi a mais terrível das desolações espirituais que um homem jamais conheceu, mais terrível para Ele, o Salvador sem pecado, do que havia sido para Caim a terra inóspita com todas as suas formas e suas sombras de horror, quando, com as mãos tintas de sangue e o coração apodrecido, ele a vagava torturado pelos remorsos. Não, Maria não podia pensar que, naquela hora, Seu amor fosse algum consolo ao Coração sagrado de Seu Filho. Mas não poderia Ela, ao menos, dispensar-Lhe algum cuidado maternal? Oh! Seus desvelos não poderiam ser outros que aqueles dispensados pela mãe dos Macabeus. Os espinhos faziam correr lenta e penosamente o Sangue sobre os olhos de Jesus, e Maria não podia se aproximar para enxugar o Sangue dAquele cuja função especial era enxugar, para sempre, as lágrimas de todos os olhos. Os lábios de Jesus são ressequidos pela sede, descorados, rachados; mas Ela não pode umedecer nem por um instante, com Seu véu úmido, os lábios de Seu Filho, cujo Sangue não cessará de refrescar doravante milhares de almas, entre os fogos do Purgatório. Esta cabeça dolorida, sem nenhum travesseiro para recostar-se, esta bela Cabeça, para Maria a mais bela das coisas criadas, se se apóia ela para trás, os espinhos se lhe cravam; se se inclina para frente, todo o corpo se contorce mais nos pregos. E Maria não pode sustentar com Suas mãos essa cabeça tão querida e a fazer repousar ao menos alguns instantes. Não! Não havia então alívio algum, nem para Jesus, nem para Maria. Ó Mãe! Não priveis Vosso Filho de algum ponto de Sua perfeita Paixão; e vede também quanto a cada instante Ele estende para Vós, generosamente, os limites do oceano de Vossas dores!

A terceira fonte de dor para Maria foi, como vimos, o não poder aliviar a Paixão de Seu Filho. Outra causa de aflição particular para Ela foi o ser testemunha ocular da Paixão. Revelações de pessoas santas nos afirmam que, embora a Santa Virgem estivesse ausente corporalmente aos sofrimentos do Getsêmani, Ela a assistiu em espírito, bem como seguiu interiormente as várias fases da agonia de Nosso Senhor, com uma misteriosa e sobrenatural união. Ela esteve fisicamente presente à flagelação, ao momento do Ecce Homo, à subida para o Calvário, à crucifixão inteira. Parece-nos mais provável que Maria não tenha entrado na casa de Anás e Caifás, mas de perto da porta mesma Ela poderia ouvir os insultos e os golpes dados a Jesus. Que coisa tremenda para uma mãe, sobretudo para uma Mãe tão sensível e amante, seguir o único Filho num drama sangrento, passo a passo! Já teria sido horrível para Ela só o passar essas horas recolhida em alguma casa, apenas a ouvir os gritos afastados da multidão furiosa e a receber as notícias do que se passava. Mas não foi assim. Seu Filho era Deus, e o melhor a fazer, naquele momento, era estar perto dEle. Mais perto de Deus: isso vale para todos nós, mas sobretudo valia para Ela, a Mãe de Deus. Embora Sua união com Deus fosse contínua em todos os tempos e lugares, assim Ela poderia ver melhor a Jesus. Ela não podia se conceder o alívio que as mães cristãs encontram, em semelhante ocasião, no conforto da religião. Não havia distinção entre o Seu Menino querido e o Deus santíssimo que A golpeava. Sua religião e Sua dor iam pelo mesmo caminho; o Filho sofredor e o Deus santíssimo eram o mesmo objeto; isso é o que dava uma unidade esmagadora às Suas dores. Era preciso, pois, que Maria partisse e acompanhasse os passos de Jesus; que molhasse Seus pés no Sangue por Ele derramado pelo caminho. Era preciso que Ela escutasse o tétrico barulho dos golpes de açoite cortando o ar; que Ela contasse as marcas dos mesmos; que Ela deixasse penetrar em Seu Coração a variedade de sons que eles produziam e que Lhe causavam mortais angústias ao tombarem sobre o corpo sagrado de Seu Filho. Era preciso que Maria visse Jesus irrisoriamente chamado de rei dos judeus e dos gentios. Quando Pilatos, movido por uma indigna piedade, O abandona à flagelação, Maria adora a majestade real de Seu Filho, no momento mesmo em que esta é mais aniquilada sob a violência da dor. Ela tinha de ver, sobre o Calvário, os lúgubres golpes de martelo, que fincavam os pregos, dos quais os sons, amortecidos pela terna carne das mãos e pés de Jesus, traspassavam-Lhe a alma. Era-Lhe necessário escutar as sete belas palavras pronunciadas sobre a Cruz pelo Cristo, como um canto fúnebre; essas palavras duma melancolia tão suave, que teriam bastado para arrancar a alma de Maria de Seu corpo fraco e sofredor. Todas essas coisas são terríveis. Era uma Mãe de verdade! Todavia, Ela não consentiria nem por um instante que aquilo fosse diferente. Aqui está a real sublimidade de Seu Coração. Mas foi para Ela uma indizível agravação do sofrimento. E o fato é que tudo isso já estava presente aos Seus olhos, como a mais clara revelação, pelo menos desde a profecia de Simeão. Porém a sensação é qualquer coisa de pior que a previsão. E diferente. Os sentidos então traem a assistência da razão. Eles interrompem aquela tranqüilidade interior na qual as mais sombrias visões podem tomar posse da alma sem a perturbar. A visão real turva o recolhimento, que é nossa força quando sofremos. Ela impede a alma de se defender, ou a obriga aos mais penosos esforços para conservar a coragem necessária. Ademais, os sentidos são especialmente afetados pela vista, pelos sons e pelos ataques da dor; eles penetram a carne e a fazem estremecer de dor; eles torturam os nervos, gelando e fervendo o sangue, alternadamente; ferem o cérebro como punhais, e serram como um torno o coração perturbado. Foi, assim, o espetáculo mesmo da Paixão que fez o martírio de Maria, atingindo Sua alma e Seu corpo. Algo a mais do que o simples esgotamento físico após um excesso de esforço mental, porque esse espetáculo submeteu, por assim dizer, cada membro de Maria à tortura e fez de cada pulsação de Seu Coração um instrumento de dor.
Encontraremos ainda outra fonte das dores de Maria em Sua vista distinta e Sua apreciação exata do pecado. Não podemos duvidar que, independentemente da impecabilidade e da sabedoria natural de Maria, Nosso Senhor Lhe concedeu participar do conhecimento sobrenatural do pecado, de sua excessiva malícia e da ira adorável que ele excita em Deus, conhecimento esse próprio de Jesus, e que deu aos sofrimentos de Sua Paixão aquele caráter singular. Foi a vista do pecado que crucificou a alma de Jesus no jardim das oliveiras. Foi o fardo do pecado que O prostrou por terra. E foi o cálice da cólera de Seu Pai que Ele pedia, com tanta tristeza, que se afastasse dEle. Lemos que Santa Catarina de Gênova caiu desfalecida quando aprouve a Deus lhe mostrar em visão o horror real dum só pecado venial. Desmaiar Maria não podia. Ela era muito forte, muito perfeita, muito madura para semelhantes fraquezas. Seu uso da razão, que havia começado já no momento de Sua Imaculada Conceição, e que nunca mais se interrompeu nem por um só instante, não poderia ser convenientemente suspendido por alguma letargia, por algum desvanecimento. Mas deve-se crer necessariamente que, quaisquer que tenham sido os dons sobrenaturais concedidos à Santa Catarina de Gênova ou a outros santos para ver o pecado, os dons desta sorte concedidos à Santa Virgem sobrepassam-nos a mais não poder. Em verdade, se consideramos por um instante o papel que a vista penetrantíssima do pecado teve na Paixão de Nosso Senhor, e, por outro lado, a comunicação de atributos [grifo do original], por assim dizer, entre a Sua Paixão e a Compaixão de Maria, somos obrigados a supor que nossa terna Mãe foi dotada duma considerável parte dessa vista, tão estonteante e tão esmagadora para o próprio Jesus. Pessoa alguma estimava como Maria a inocência sem mácula da Vítima. Ninguém apreciava tão bem como Ela a beleza e a sublimidade da bondade dEle. Ninguém percebia melhor do que Ela a ingratidão daqueles que por Ele foram instruídos, nutridos, curados, consolados com uma paciência tão desinteressada e uma afeição tão cheia de carinho. Pessoa alguma sentia como Ela duma forma mais penetrante os excessos de barbárie cometidos naquelas horas cruéis da noite da quinta-feira santa e da manhã que se lhe seguiu. Quando todos os Seus pensamentos foram reunidos em um só, com que clareza Maria viu a variedade, a intensidade, a malignidade do pecado especial da Paixão! Mas Ela veria ainda mais.

Aos Seus olhos apareceu, sobre os ombros curvados de Seu Filho, a visão hedionda, apavorante, gigantesca, dos pecados do mundo inteiro! E ainda não era tudo. Ela via as alturas da divindade de Jesus; Ela via que era verdadeiramente a Deus que todo o pecado atingia, atacava, cobria de opróbrios e feria de morte; era como se uma luz imensa emanasse dum outro universo mais divino e viesse brilhar no momento da Paixão, espargindo suas vivas claridades sobre o pecado, de tal modo que somente Jesus e Maria o poderia suportar ver. É-nos impossível exprimir a dor causada por essa radiante luz. Poderíamos permanecer vivos se Deus nos mostrasse a nós mesmos tal como somos? É preciso mesmo que já sejamos imortais quando a hora do juízo chegar.
Mas os pecados do mundo inteiro, que se concentravam na Paixão, Maria os via todo inteiros, e a agonia que isso Lhe causava fazia sofrer milhares de mortes interiores.
Não é fácil dizer qual teria sido o ponto culminante, qual a mais profunda escuridão da Paixão. Os instrumentos da Paixão não eram todos materiais. Entre eles se encontravam a lança, os cravos, o martelo, os espinhos e os açoites. Eles representavam tanto sofrimentos intelectuais e morais quanto físicos. E, com essas três naturezas, os instrumentos de tortura foram numerosos e variados. Cada um deles feria vivamente.
Nenhum deles deve ser considerado como maior ou menor que os demais. Cada um tinha, à sua maneira, sua preeminência. Todos se elevaram tão alto que os olhos não os podem acompanhar. A Paixão foi um excesso de excessos. Tudo o que lhe diz respeito é em excesso. Isso, em grande parte, é o que a impede de ser rebaixada a uma simples epopéia de sofrimentos humanos, independentemente mesmo da divindade de Cristo.

Mas dos fatos que nela se passaram não podemos dizer quais foram mais dolorosos que os outros. Reconhecemos a sexta fonte de dor de Maria na previsão da ingratidão que os fiéis demonstrariam para com esses excessos da Paixão de nosso Salvador. A Mãe da Igreja, a Rainha dos Apóstolos, via já tudo em Seu Coração. Com efeito, a Seus olhos se desenrolava já o imenso panorama de indiferença a respeito do pecado perdoado [e que se devia expiar], de recaída no pecado mortal, de pecados veniais se expandindo como hordas inomináveis sobre toda a alma e devastando o paraíso de Deus, de negligências provenientes da frieza do coração, de imperfeições na guarda da modéstia, de vida cientemente afastada da mortificação, de desgosto [voluntário] pelas coisas espirituais, de uso muito livre e muito leviano dos grandes Sacramentos que custaram tão caro a nosso Salvador, de caracteres ciumentos e desconfiados, de uma dureza revoltante oculta sob hipócrita vaidade, e desse número infinito de seres pusilânimes dentre os quais um Santo se eleva vez por outra, como uma palmeira em meio às nuvens de areia do deserto. E tudo isso não era, todavia, senão uma visão do futuro. Onde estava Pedro? Chorava então ao abrigo de alguma gruta fora dos muros da cidade, pela abundância de graça que havia novamente recebido? Onde estava André, ele que viria a ser o modelo de todos os amantes da Cruz? Onde estava Tiago, na diocese do qual seu Mestre era então crucificado? Havia apenas a terna Madalena, havia o coração sublime de João, e havia Maria, Ela mesma, para representar o mundo sobre o Calvário. Oh! Mesmo que depois desse dia todo ser batizado se tornasse tão santo quanto um apóstolo, a Paixão ainda estaria mal recompensada! Mas, a não poder ser assim, se pelo menos os que amam a Jesus O amassem com ardor! Essas criaturas cujo coração cuja união com Deus se reduz a aproximar-se dos sacramentos raramente; homens que não freqüentam a igreja senão em dias de festa, e que, como se fossem animais abobados, hesitam indecisos entre o pastor e o mercenário, dando seu amor aos prazeres do mundo ao mesmo tempo que sua fé a Deus quando Ele faz troar Seu trovão; esses seres que se divertem sem medida sobre a terra, limitando-se a pensar na eternidade quando se encontram no leito da morte; são esses que terão o Crucificado como pai? Oh! Para o Coração generoso e heróico de Maria esse era um espetáculo tão doloroso quanto a própria Paixão. Ela via, através do lado aberto e sangrante de Jesus sobre a Cruz, o Coração do Salvador abatido por essa visão [da ingratidão humana], e esse espetáculo dava a Seu próprio Coração materno um esgotamento e um desgosto indizíveis.

Mas que diremos à vista do que iria se perder? Pensai no valor de cada gota daquele Sangue! E por que falaremos de gotas? Maria desliza em Sangue. [Marie glisse dans le Sang.] Ele escorre sobre Suas mãos e as cobre, ao pé da Cruz. O Sangue se estende como um longo tapete de púrpura entre o pé da Cruz e a coluna da flagelação. As raízes nodosas das oliveiras do Getsêmani estão vermelhas em mais de um ponto. Vede as estrelas inumeráveis, essa poeira luminosa que resplandece em meio à noite, sobre a abóbada brilhante dos céus: um só dos golpes de açoites que Nosso Senhor recebeu bastaria para resgatá-las todas, suposto que houvessem caído milhares de vezes.

Que seria, portanto, em se tratando de seis mil golpes de açoite?! Quem calculará o infinito da Redenção? E todo esse Sangue, todos esses golpes de açoite, são oferecidos por cada alma em particular; cada alma possui sua parte nessa Redenção de valor infinito; e, no entanto, quantas almas perdidas para toda a eternidade! Eis o preço que o Cristo há pago, e do qual Lhe roubam a recompensa. Se uma só alma pela qual essa Paixão foi suportada intencionalmente e duma forma tal como o universo nunca viu igual, a saber, por um sacrifício inconcebível de Deus para Deus mesmo, se uma só alma dessas, como dizíamos, houvesse de perecer eternamente e triunfar, por suas ofensas, sobre o amor de seu Salvador; se uma só alma houvesse de dessecar nos fogos ardentes do inferno os oceanos do Sangue divino, que angústia isso já seria para o sagrado Coração de Jesus! Tal visão arrancar-Lhe-ia um grito maior que aquele que se escapou do coração terno e delicado de Jacó, quando lhe apresentaram a túnica de José coberta de manchas de sangue. Que dor sofreria, então, o Salvador, sendo que certamente não só uma alma, senão milhões e milhões deveriam se perder? E, todavia, suspenso na Cruz, Ele não se arrepende de Seu suplício. Isso é tudo o que podemos dizer. Mas Ele sofre uma outra crucificação invisível e muito mais cruel ainda do que aquela do madeiro, do ferro, do sangue, do título irrisório que Lhe afixaram. Isso tudo não foi senão crucificar um Coração já crucificado, supliciado pelo pensamento da multidão inumerável daqueles que se separariam dEle, que cessariam de ser Seus membros e se perderiam; daqueles que a inveja triunfante e a raiva de Satanás separariam dEle cruelmente, como que desmembrando-O duma maneira irremediável. ‘Não Lhe quebrarão osso algum’. [grifo do original] Mas os ossos de Sua alma foram todos quebrados por essa cruel Paixão interior. Nesta sombria agonia, neste cálice particular, Maria teve também a Sua parte. Se nesse momento Ela pode distinguir o quanto esse pensamento Lhe fazia sofrer por causa de Seu imenso amor a Jesus e o quanto Lhe fazia sofrer por causa de Seu imenso amor às almas, então Ela terá visto dois abismos separados e assustadores, e nos quais, já meio morta de angústia, Ela iria entrar voluntariamente, apesar do horror que sentia.

Tais foram as sete fontes das dores de Maria, na origem das quais está ainda a fonte principal, a raiz de todas as outras, quer dizer, a beleza incomparável de nosso querido Salvador. É dela que brotava cada um desses sofrimentos tão vivos e tão dolorosos. Ela agravava tudo, mas sem poder haver exagero, porque ela não podia fazer nada maior do que ela mesma. Maria mesma não conhecia toda essa beleza, que é de fato incompreensível, absolutamente incompreensível em si mesma. Mas o que Maria conhecia já era tão além da nossa capacidade, que nem isso o podemos compreender. E, no entanto, nós podemos dizer grandes coisas sobre a beleza de nosso Salvador, e mesmo conceber pensamentos que sobrepassam todas as palavras; e, se mesmo os pensamentos vêm a faltar, podemos então chorar, verter lágrimas numa celestial comoção. Podemos ser consumidos pelo amor e morrer da beleza de Jesus; chegaremos assim ao posto de Maria, mas não teremos nunca a inteligência que Ela tinha da infinita beleza de Jesus. Lá nas profundezas e abismos incomensuráveis do Coração de Maria, essa beleza era um oceano que, às vezes, se sublevava, transbordando em outros mares situados mais abaixo, produzindo ondas dum amargor insuportável.

Ao Pé da Cruz, Padre Faber 

Fonte:

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria



Podemos agora perguntar por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria? Seria respeitoso entregar-nos a tal pesquisa? Todas as coisas feitas com amor são feitas respeitosamente. Se procuramos sabê-lo, não é por duvidarmos, ou por querermos que Deus nos preste conta de Seus atos, nem por pensarmos que temos o direito de sabê-lo. Mas nos informamos para adquirir novos conhecimentos e transformá-los em um novo amor. Pode ser que não haja uma só obra de Deus cujos motivos nos sejam conhecidos ou ao alcance de nossa inteligência, se Ele mesmo não se digna nos instruir. As obras que Deus realiza emanam de profundezas infinitas. A experiência, porém, nos demonstra que quanto mais conhecemos, mais amamos. É por isso que nos lançamos a investigar coisas que só o amor nos dá o direito e a coragem de aprofundar. Por que Deus permitiu os sofrimentos de Sua Mãe, duma Mãe que Ele amava duma maneira inexprimível, que era sem pecado, que não tinha nada a expiar pela penitência, e da qual as lágrimas não eram necessárias para a redenção do mundo, bastando para tanto o Preciosíssimo Sangue? As razões que vemos de imediato são estas que apresentaremos aqui. Primeiramente, o Seu amor por Ela. O amor pode fazer uma oferta melhor que o dom de si mesmo?

Ora, em Jesus tudo era sofrimento. Mesmo nas grandezas terrestres, os mais altos destinos não passam sempre por gloriosos sofrimentos e provas extraordinárias? E quanto houve de humano e terrestre, embora eminentemente celeste, nesses trinta anos! A mesma lei que envolve Jesus, envolve Maria. E Ela não podia ter de outra coisa um mais ardente desejo em Sua alma tranqüila. Mas essa lei é uma lei de sofrimento, de expiação, de ignomínia, de uma abjeção que beira o aniquilamento. Ela poderia ser um simples instrumento, ou antes, uma Mãe, se Ela ficasse separada de todas essas coisas, se Ela permanecesse, como uma paisagem tranqüila e plana, iluminada pelo Sol, estranha à gloriosa tempestade do Calvário, novo Sinai, bem mais árduo e mais terrível que o antigo. Não é assim para os que estão longe de Jesus? Todavia não é o costume de Seu amor manifestar-se justamente através da Cruz? Jesus deixa o Céu porque o sofrimento Lhe é como um paraíso exclusivamente terrestre; e Ele ama tanto esse paraíso, que se pode bem entender que aqueles que O amam, amarão também o Éden do sofrimento. As grandes graças são como que cadeias de montanhas formadas pelas elevações subterrâneas da dor. As coroas dos Mártires, pois, pertencem-lhes de direito. Maria deveria, acaso, ser privada dessas coroas? Mas, por que gastar tantas palavras sendo que basta apelar para nossos instintos cristãos? A que se assemelharia Maria sem o sofrimento? Esta idéia não implicaria em nada menos do que a desaparição da Senhora do seio da Igreja. Uma Encarnação isenta da dor teria como conseqüência uma Mãe igualmente isenta da dor; mas o Infante de Belém, entregue ao sofrimento, envolveu Sua Mãe com os mesmos liames da dor que envolviam a Ele mesmo. A violência do martírio de Maria vem da perfeição do amor filial de Jesus por Ela. O aumento dos méritos da Santa Virgem foi outra razão de Seus sofrimentos; pois jamais se acumula tanto mérito nesta vida quanto no sofrimento. A qualidade de Mãe de Deus não bastaria para Maria ser elevada ao Céu sem a graça santificante que precedeu e seguiu a dignidade da maternidade divina. A grandeza desta dignidade é uma prova da grandeza da graça nEla, porque, nos desígnios de Deus, as duas coisas são inseparáveis. Assim, a dignidade que conhecemos é um sinal da graça que ignoramos. A elevação de Maria devia depender de Seus méritos, e estes deveriam ser adquiridos por meio de uma longa carreira de sofrimentos. Oh! Que dirá acerca disso a multidão arrebatada que povoa atualmente o Céu, sobretudo a alma de nossa Mãe querida, na qual Ela mesma reconhece as recompensas especiais de cada dor em particular, a coroa especial de cada ação sobrenatural! Apesar do prodigioso excesso da recompensa, Ela distingue em detalhe a correspondência entre esta e cada dor em particular; Ela vê como Suas recompensas nascem, por assim dizer, de Suas dores, duma maneira sobrenatural. Pois a graça não é outra coisa que a glória. Apenas que a graça é a glória no exílio, enquanto que a glória é a graça na pátria. A graça é o sólido tesouro; a glória é somente a alegria e o triunfo. De sorte que esta grande Compaixão de Maria é elevada à glória pelo caminho ordinário e legítimo do reino dos céus. Sessenta e três anos de alegrias extáticas não teriam, na ordem atual dos desígnios de Deus, elevado este trono maternal a uma tão extraordinária proximidade de Deus. A Rainha dos Céus deve necessariamente ser tratada como rainha [também na questão do sofrimento], para que Ela esteja o mais possível preparada quando o dia de Sua coroação chegar. O triunfo da Assunção será devido às amarguras da Compaixão.

Há sempre uma aparência de crueldade nos altos destinos. A sorte arrasta os seus favoritos através de espadas nuas. O alto destino de Maria não podia ser isento desse aspecto de crueldade, e o que parece tão cruel é a natureza divina de Seu Filho. Isso é conseqüência da infinita perfeição de Deus, que deve necessariamente se bastar a si mesmo e ser Ele mesmo Seu próprio fim. Assim Deus é também o fim supremo de todas as criaturas e não há outro fim verdadeiro além dEle. É portanto uma parte de Sua magnificência, uma parte de Seu profundo amor, que todas as coisas tenham sido feitas para Ele, e que Sua glória seja superior a toda outra glória. A maior misericórdia de Deus para com Suas criaturas é a de lhes permitir contribuir para Sua glória, e de poderem fazê-lo duma maneira inteligente e livre. Bem considerado, a criatura não pode ter uma felicidade maior que a de aumentar a glória de Seu Criador.

Eis aí a única verdadeira satisfação ao mesmo tempo da inteligência e da vontade, a única coisa que pode ser para a criatura um eterno repouso. Essa foi outra razão pela qual a permissão de sofrer foi dada a Maria: Deus pôde assim receber dEla uma glória maior, não somente do que de qualquer outra criatura, como de todas as criaturas reunidas, à exceção somente da natureza criada de Nosso Senhor. Maria teve o maravilhoso privilégio de espelhar em Sua pessoa toda a criação e de ultrapassá-la mesmo, duma forma excelente e absoluta, através do louvor e da adoração, da glória e do culto rendido ao Criador. Quando Ela escalava alturas assustadoras, situadas bem acima da capacidade dos sentimentos e da inteligência dos Santos, quando Ela vencia torrentes profundas de sangue e de lágrimas, e ultrapassava ondas semeadas de obstáculos e de rochas, Maria estava repleta de graças poderosas, que exigiam uma extrema correspondência à Vontade Divina, mas Ela não recebeu de Jesus nenhum dom ao qual atribuísse maior valor do que a Sua própria dolorosa Compaixão. Nem por um mundo Ela quereria ser privada da menor circunstância que pudesse agravar Sua dor! Mesmo no auge de Suas aflições Ela se alegrava, em espírito de profunda adoração à inexorável soberania de Deus. Esse Deus que seria suspenso, e que era Seu Filho. Era esse o Crucificado pálido, desfalecido, fraco e ensangüentado, do qual a glória, mais vasta do o mais vasto oceano que envolve o mundo, queria Ela ainda aumentar, com uma complacência incompreensível, formada por torrentes de sobrenatural bondade e de santidade consumada que as espadas afiadas da dor faziam jorrar de Seu Coração Imaculado. Foi Ela, por assim dizer, que pagou a dívida de todos os Santos para com a Paixão de Jesus, dívida que eles jamais poderiam pagar. Maria ao pé da Cruz era o mundo em adoração; pois que outra criatura adoraria então a Jesus em Seu abatimento?

E toda esta [aparente] crueldade dum Deus zeloso de Sua glória, esta sede infinita de possuir Suas criaturas, era para Maria a perfeição das delícias e o supremo exercício da realeza, ao passo que, da parte de Seu divino Filho, era a inefável efusão de amor da qual Ela receberia as torrentes depois da noite da Encarnação. A Igreja seria outra coisa diversa do que ela é se o culto das dores de Maria não formasse uma parte de sua beleza, de seu tesouro e de seu poder junto a Deus. Podemos pensar com menos confusão em nossa dívida para com a Paixão de Nosso Senhor quando consideramos a dor com a qual esta Mãe a honrou [por nós], dor que não se assemelha a nenhuma outra, a não ser àquela de Seu Filho mesmo.

Assim encontramos também a nossa alegria nessas dores. Maria sofreu por amor de nós, tanto quanto por amor de Seu Filho. Não deve ser Ela, pois, com efeito, a Mãe da consolação, o refúgio dos aflitos? Era preciso, para isso, que Ela descesse às profundezas de todas as dores que pode sentir o coração humano. Tanto quanto possível a uma simples criatura, era preciso que Ela as medisse todas e as experimentasse todas, sem exceptuar mesmo a dor que provém do pecado, ao qual nós estamos sujeitos e do qual Ela é isenta. Era preciso que Ela conhecesse o peso de nossos fardos e todo o gênero de misérias que cada um deles traz consigo. Deveria ser para Ela uma ciência o conhecer com exatidão as consolações que exigem nossos fracos corações em meio às suas diferentes provas, e de reconhecer o que alivia e acalma nossos sofrimentos nas milhares de circunstâncias diversas e desencontradas onde somos provados. Nosso Senhor não nos resgatou de nossos pecados por uma aparição brilhante nos céus, por uma visão passageira da Cruz observada apenas do Tabor no esplendor distante do firmamento, nem por uma absolvição pronunciada uma vez por todas do alto do Carmelo, voltado para o mar e para nosso distante ocidente. Para Ele a Redenção poderia ser tão fácil quanto a Criação. Todavia Ele realizou nossa salvação ao preço de longos anos, de sofrimentos infinitos, de abismos de ignomínia, através da efusão de Seu Sangue e das inexprimíveis amarguras de Sua Alma. Ele ganha nossa salvação, Ele a merece, Ele luta para a conquistar e não obtém êxito senão nos prodígios de Sua Paixão. E nada disso era necessário, sem dúvida: uma palavra, uma lágrima, um olhar Seu bastaria para nos redimir. Bastaria mesmo um simples ato da Vontade de Deus, com ou sem a Encarnação. Mas foi de Seu agrado que fosse assim. Em Sua Sabedoria Infinita, Ele não quis se apoiar apenas em Sua Onipotência, mas escolheu uma outra via.

Assim também com Maria. Ela não foi tornada duma só vez Mãe dos aflitos, como por uma nomeação. Ela não devia tornar-se a Consoladora dos que sofrem, por um simples decreto da Vontade Divina. Poderia ser assim, mas não foi. Sua qualidade de Mãe dos homens é como uma longa e penosa conseqüência de Sua divina Maternidade. Para a adquirir e a merecer, Ela trabalhou, Ela sofreu, Ela suportou enormes fardos de dor e, por fim, obteve-a sobre o Calvário. Não a mereceu estritamente falando, como Jesus mereceu a salvação do mundo, pois esta qualidade [de Mãe dos homens] é uma parte da salvação merecida pelo Salvador. Mas Ela a mereceu tanto quanto uma criatura o poderia, e quando Ela se aproximava de Sua meta, Deus veio com Sua graça ao encontro d’Ela. E como era necessário para nós, portanto, que Deus permitisse os sofrimentos de Maria! Que seria o oceano das dores humanas sem esta espécie de claridade lunar que Maria resplandece? O oceano, com as nuvens sombrias e espessas que sobre ele se abatem, não difere mais das magníficas planícies de vegetação e ondas que se atiram sobre as rochas sob o sol, do que a triste extensão das mágoas sucessivas da vida, sem a doce a atraente luz que recebe do amor de Maria, diferiria da nossa vida presente, passada ao abrigo de Seu trono maternal. Quantos prantos Ela já não enxugou de nossos olhos? Quantas lágrimas amargas Ela já não nos tornou doces? E depois, a velhice chega, o círculo daqueles que amamos diminui a cada ano, a doença, a morte nos aguardam. Questionaremos ainda o tesouro de consolações que o Coração Imaculado de Maria em si encerra para nós? Foi com inteira satisfação desse Coração, e para o nosso bem, que Deus Lhe permitiu sofrer, a fim de que Ela pudesse ser realmente a Mãe dos aflitos, pois Suas dores a cada instante Lhe lembram as nossas. A medida do que podemos sofrer é pequena, mas como foi grande o peso das dores que Ela suportou, e como as suportou nobremente!

Nosso Senhor foi nossa salvação e nosso exemplo. Ele resgatou o mundo unicamente através de Seu Preciosíssimo Sangue. Somente Seus méritos nos salvaram. Suas prerrogativas, como Redentor, são únicas. Mesmo Sua Mãe tinha de ser resgatada, e Ela o foi, duma maneira diferente e mais sublime, preventiva e não reparativa, por meio da incomparável graça da Imaculada Conceição, e não por uma regeneração após um estado de culpa. No entanto, foi a Vontade de Nosso Senhor que Sua Mãe, Sua cooperação, Seu consentimento, Suas graças, Seus sofrimentos, fossem de tal modo unidos à obra da Redenção, que não os pudéssemos separar. Ele quis que a Compaixão de Maria estivesse ligada à Sua própria Paixão. E, com efeito, sem a Compaixão, Sua Paixão teria sido diferente do que foi. Ele submete de tal modo Maria à mesma lei de expiação que assumira, que, enfim, pode-se dizer com verdade, em vários sentidos, que Ela teve parte na Redenção do mundo. Mas se o que vimos de dizer é verdadeiro de Jesus Cristo considerado como Vítima expiatória, obra para a perfeição da qual a união da natureza divina com a natureza humana era necessária, é ainda mais verdadeiro para o Cristo considerado como nosso exemplo. Com a graça de Seu Filho, Maria seria a mais capaz de cumprir essa função junto com Ele, e porque Ela não é mais do que uma simples criatura humana, este exemplo nos tocava de mais perto. Assim, podemos supor que Deus permitiu as dores de Maria, para que Ela nos servisse de exemplo duma maneira a mais excelente. A dor caracteriza mais ou menos toda a vida humana, e apesar dela encerrar em si todos os meios particulares de união com Deus, ela perturba e embaraça mais que qualquer outra coisa nossas relações com Ele. A dor ataca nossa confiança em Deus, e não pode haver verdadeira adoração sem confiança. Ela faz nascer tentações contra a fé, ou as robustece quando já as encontra. Ela nos conduz a uma espécie de mau humor e insolência a respeito de Deus, faltas que provém dos abismos mesmos de nossa natureza, desses abismos mesmos donde emanam também o amor e a adoração, que elas combatem secretamente, e dos quais almejam tomar o lugar. Reconhecemos esta revolta como um autêntico fenômeno da natureza criada, quando consideramos a maneira surpreendente com a qual Deus justifica a irreverência de Jó e encontra um pecado digno de castigo nas críticas dos amigos deste, enquanto que Ele, o perscrutador dos corações, não vê nas lágrimas ardidas do patriarca nada que possa ferir a integridade de sua paciência, vendo-as, pelo contrário, em harmonia com o respeito e o amor a Ele devidos. Suportar dores pode ser a obra mais elevada, a mais árdua que nós tenhamos a realizar, e faz parte dos desígnios de Deus que o total de dores que devemos sofrer corresponda a um grau de santidade que nos faça capazes de suportá-las. É preciso que suportemos a dor duma maneira natural, mesmo quando a suportamos duma maneira sobrenatural. Ser santo não é ter a alma insensível ou dificilmente impressionável, mesmo quando essa falta de sensibilidade resulta de que os interesses religiosos estão acima dos sentimentos e penetrando-os de elevadas abstrações. Seguramente, a espiritualidade nos impede de sentir várias dores, e ninguém negará que isso já seja, sob muitos aspectos, um privilégio. Mas é preciso não confundir essa insensibilidade com a heróica paciência de suportar sofrimentos. Para ser heróico nessa matéria, é preciso que o coração esteja vivo, para que o amor divino crave nele então mais cruelmente e mais profundamente os traços que nos ferem. Ora, em tudo isso, Maria é nosso exemplo, um exemplo que há produzido tais resultados de santidade eminente e graças sobrenaturais na Igreja, que podemos sem dúvida afirmar que essa foi uma das razões pelas quais Deus permitiu o excessivo martírio da Santa Virgem.

Ousaremos ainda sugerir uma outra razão de Suas dores. Assim como a Bíblia é uma revelação escrita, Maria é, em certo sentido, uma revelação simbólica. Deus se serve de Maria para deixar claras muitas coisas que, de outra forma, permaneceriam obscuras. É uma idéia familiar aos teólogos considerar a Santa Virgem como uma espécie de imagem da Santíssima Trindade. Como Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito Santo, Ela representa, embora limitadamente por ser uma criatura, as relações das Três Pessoas divinas. Ela é, por assim dizer, um lago de águas tranqüilas e transparentes, ao seio do qual os maravilhosos atributos de Deus e as alturas dos céus, apesar de sua distância, refletem-se duma maneira distinta e fiel. Conhecemos melhor a misericórdia de Deus, Sua condescendência, Sua intimidade com as criaturas, Suas vias particulares, graças à luz que Ele fez brilhar em Maria, e melhor do que o poderíamos conhecer por outros meios. Assim, as perfeições de Deus, Sua maneira de agir para com as criaturas, o modo pelo qual se manifestam Suas graças reparadoras, a possibilidade da santidade, a fecundidade inventiva do amor divino, a maneira pela qual Deus forma os Santos, Sua conduta para com a Igreja, Sua sociedade interior com as almas que O buscam – eis algumas das coisas escritas em Maria, como inscrições hieroglíficas fáceis de decifrar à luz da fé, através da inteligente penetração da piedade. Assim, Deus A revestiu de Suas dores, como para torná-lA uma revelação completa do mistério do sofrimento.Ele fez brilhar nEla essa doutrina fecunda, de que o sofrimento, quando tem motivo as coisas divinas, é uma verdadeira conseqüência do amor. Maria não tinha cometido nenhum pecado pelo qual devesse reparar; Ela não havia sido atingida pelo castigo da queda de Eva; não estava compreendida sob a lei do pecado. Na ordem dos desígnios do Céu, Maria fôra prevista antes do decreto que permitiu o pecado. Ela também não veio ao mundo para o resgatar. Todo o sangue de Maria, essa fonte tão doce do Preciosíssimo Sangue [de Jesus], não teria sido suficiente para lavar um só pecado venial, nem para salvar a alma dum só recém-nascido. Ela devia ser simplesmente mergulhada num mar de amor inefável, e é  por isso que o dilúvio da dor passa sobre Sua alma e a envolve, da mesma forma que os rios turbulentos vêm se jogar no mar. Seus sofrimentos fecham a boca a toda lamúria. Com uma doce violência e uma força de persuasão irresistível, eles impõem silêncio a todos os filhos sofredores do Pai celeste. Os Santos não podem duvidar, então, que o sofrimento seja a mais grande semelhança com Cristo. Em meio à nossa extrema baixeza, cuja paciência assemelha-se a um tecido tão fraco que já está gasto mesmo quando ainda é novo, nós aprendemos não apenas a nos calar, mas a sofrer com doçura; pensamos mesmo, com alegria, que tempo virá em que amaremos esses sofrimentos, que são já como uma moeda de ouro com a qual Deus paga o nosso amor.

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