quarta-feira, 22 de março de 2017

Quem ama a Jesus Cristo ama a mansidão


"A caridade é benigna". O espírito de mansidão é próprio de Deus. "Meu espírito é mais doce do que o mel"1. A pessoa que ama a Deus, ama a todos os que são amados por Deus, isto é, todos os homens. Por isso procura sempre socorrer, consolar, contentar a todos na medida do possível. Eis o que diz São Francisco de Sales, mestre e modelo da mansidão: "A humilde mansidão é a virtude das virtudes que Deus tanto nos recomendou. É necessário praticá-la sempre e em toda parte". Dá-nos ainda a seguinte regra: "Quando vedes alguma coisa que se pode fazer com amor, fazei-o; o que não se pode fazer sem discussões, deixai-o”2. Isso se refere ao que podemos deixar sem ofender a Deus, porque, quando existe ofensa a Deus, esta deve ser impedida sempre e depressa por aquele que é obrigado a impedi-la.

A mansidão deve ser praticada especialmente com os pobres, os quais normalmente, por causa da sua pobreza, são tratados asperamente pelos homens. Deve-se ainda usar da mansidão particularmente com os doentes que se encontram aflitos e, as mais das vezes, recebem pouco cuidado dos outros. Devemos exercer a mansidão principalmente com os inimigos. É preciso “vencer o mal com o bem"3, isto é, o ódio com o amor, a perseguição com a mansidão. Assim fizeram os santos e por esse meio conseguiram o afeto de seus maiores inimigos. 

Diz São Francisco de Sales: "Não há nada que tanto edifique o próximo como a caridosa benignidade no trato"4. Ele tinha ordinariamente o sorriso nos lábios. “Sua aparência, suas palavras, suas maneiras respiravam mansidão”5. São Vicente de Paulo afirmava jamais ter conhecido um homem mais manso, parecendo-lhe ver a imagem viva da bondade de Jesus Cristo. Mesmo quando sua consciência o obrigava a negar alguma coisa, o santo mostrava tanta benevolência com as pessoas, que elas iam embora contentes, embora não tivessem obtido o que desejavam6. Era manso para com todos, com os superiores e com seus iguais, com seus inferiores, com as pessoas de casa e de fora7. Era bem diferente dos que, segundo sua expressão, parecem anjos na rua e demônios em casa8. No trato com seus empregados, não se queixava nunca de suas faltas; advertia-os apenas e sempre com bondade9. Coisa muito louvável em todos os superiores!

O superior deve usar de toda mansidão com os seus súditos. Ao lhes impor alguma coisa, deve antes pedir que mandar. Dizia São Vicente de Paulo “Para os superiores, não há melhor meio de se fazer obedecer do que a mansidão"10. "Experimentei todos os meios de governar - dizia Santa Joana de Chantal - e não encontrei nenhum melhor do que o modo bondoso e paciente"11

A bondade e a mansidão

O superior deve mostrar-se benigno mesmo nas repreensões que tem a fazer. Uma coisa é repreender com energia e outra repreender com aspereza. É preciso, às vezes, repreender com energia, quando a falta é grave, principalmente em caso de repetição da falta e depois de a pessoa ter sido avisada. Mas evitemos repreender com aspereza e com raiva; quem repreende com raiva faz mais mal do que bem. Esse é o zelo errado que São Tiago reprova. Há quem se glorie de dominar assim sua família ou comunidade, e pensa que é assim que se deve governar. São Tiago não pensa assim: "Se tendes um zelo amargo, não vos glorieis”12.

Se em algum caso raro houvesse necessidade de dizer uma palavra áspera para que alguém percebesse a gravidade de seu erro, é preciso temperar a dureza, terminando com alguma palavra mais mansa. É preciso curar as feridas, a exemplo do bom samaritano, com vinho e óleo. São Francisco de Sales dizia: “Assim como o óleo fica boiando quando despejado num copo de água, assim em todos nossos atos deve ficar por cima a bondade"13. Se a pessoa a ser repreendida está alterada, convém deixar a repreensão para outra hora e esperar que passe a raiva, caso contrário mais a irritaríamos. "Quando uma casa pega fogo não se deve jogar mais lenha na fogueira"14.

"Não sabeis de que espíritos sois". Foi esta a resposta que Jesus deu a Seus discípulos Tiago e João, quando eles queriam que fossem castigados os samaritanos, que os tinham expulsado da sua cidade: 

- Que espírito é esse? Não é o Meu! O Meu espírito é de bondade e mansidão; "não vim para perder, mas para salvar as pessoas"15 e estais querendo que Eu as perca? Calai-vos e não Me façais semelhantes pedidos, porque não é esse o Meu espírito!

De fato, com que mansidão tratou Jesus a mulher adúltera: 

- "Mulher, ninguém te condenou? Nem Eu te condenarei. Vai e não peques mais"16.

Contentou-Se apenas em admoestá-la a não mais pecar e a mandou em paz. Com quanta bondade procurou converter e converteu a samaritana. Começou pedindo-lhe água. Depois lhe disse: 

- "Se soubesses quem é que te pede de beber!" 

Em seguida revelou-lhe que era o Messias esperado. 

Com quanta bondade procurou converter o traidor Judas. Deixou que ele comesse com Ele no mesmo prato. Lavou-lhe os pés e o admoestou no momento da traição: 

- "Judas, é com um beijo que Me trais? Com um beijo trais o Filho do Homem?" 

Como é que mais tarde converteu Pedro, depois de ter sido renegado por ele? "O Senhor voltou-Se e olhou para Pedro”17. Ao sair da casa do pontífice, sem censurar o seu pecado, lançou sobre ele um olhar de ternura e o converteu. E converteu de tal forma que Pedro durante toda a vida não deixou de chorar a grave ofensa que fizera ao seu Mestre. 

A força da mansidão

É certo, ganha-se mais sendo manso do que severo. Dizia São Francisco de Sales que não há nada mais amargo que a noz; mas quando bem preparada, torna-se doce e agradável. O mesmo se dá com as repreensões; embora sejam em si desagradáveis, contudo quando feitas com amor e bondade, são bem aceitas e produzem maior proveito18

São Vicente de Paulo dizia que, no governo de seu instituto, fizera apenas três repreensões severas, acreditando ter boas razões para agir assim. Mas depois sempre se arrependeu porque nenhuma surtira efeito, ao passo que as correções feitas com mansidão sempre tiveram bom resultado19

São Francisco de Sales, por sua mansidão, alcançava dos outros tudo o que desejava. Assim conseguiu levar para Deus os pecadores mais endurecidos20. A mesma coisa fazia São Vicente de Paulo que ensinava a seus missionários esta regra: "A afabilidade, o amor e a humildade têm uma força maravilhosa para ganhar os corações dos homens, e levá-los a abraçar as coisas mais desagradáveis à natureza humana"21. Uma vez mandou um grande pecador a um de seus padres para que o convertesse. Mas o missionário, vendo inúteis todos seus esforços, pediu ao santo que lhe dissesse alguma coisa. Ele o fez e o pecador se converteu. Este declarou depois que a singular bondade e extrema caridade do santo lhe ganharam o coração. Por isso o santo não admitia que seus missionários tratassem os seus penitentes com dureza, e lhes dizia que o espírito infernal se serve do rigor de alguns para causar maior dano às almas22.

É preciso praticar a benignidade com todos, em todas as circunstâncias e em todo o tempo. Adverte São Bernardo que alguns são mansos enquanto as coisas correm de acordo com sua vontade. Mas quando atingidos por alguma contrariedade ou dificuldade, logo se inflamam, e começam a fumegar como um vulcão23. Pode-se chamá-los muito bem de carvões acesos escondidos debaixo de cinzas. Quem quer ser santo, deve ser nesta vida como o lírio entre espinhos. Embora nasça entre eles, não deixa de ser lírio, isto é, sempre igualmente suave e benigno! Quem ama a Deus conserva sempre a paz no coração e a deixa transparecer no rosto, apresentando-se sempre o mesmo, tanto nas dificuldades como na prosperidade: “As várias solicitações das criaturas não o perturbam na incessante luta da vida. Seu coração é como um santuário onde vive sempre em paz, unido a Deus"24

Ser manso...

Conhecemos o espírito de uma pessoa nas horas difíceis. São Francisco de Sales amava com ternura a Ordem da Visitação que lhe custara tantos trabalhos. Muitas vezes, por causa das perseguições que sofria, viu-a em perigo. Conservou, porém, sempre a mesma paz, contente até mesmo em vê-la destruída, se essa fosse a vontade de Deus. Foi então que ele disse estas palavras: "De algum tempo para cá, as numerosas oposições e contradições que me têm acontecido me dão uma paz incomparável e muito suave. São sinais da união próxima de minha alma com Deus, e sinceramente, essa é a única ambição de meu coração"25

Quando nos acontece ter que responder a quem nos maltrata, tenhamos cuidado em responder sempre com mansidão. "Uma resposta branda aplaca o furor"26. Uma resposta suave basta para apagar todo o fogo da raiva. Se nos sentimos aborrecidos, é melhor calar, porque nesse momento nos parece justo dizer o que nos vem na cabeça, mas depois, acalmada a paixão, veremos que todas as palavras que proferimos foram erradas. 

Quando nos acontece cometer alguma falta, é preciso que usemos de mansidão para conosco mesmos; irritar-se contra nós mesmos, após uma falta, não é humildade, mas refinada soberba, como se nós não fôssemos fracas e miseráveis criaturas. Dizia Santa Teresa: “A humildade de que inquieta nunca vem de Deus, mas do demônio”27.

Zangar-se contra nós mesmos, após uma falta, é uma falta maior do que a cometida, e trará consigo muitas outras, pois nos fará deixar as práticas de piedade, a oração, a comunhão; e, se as fazemos, serão mal feitas. Dizia São Luís Gonzaga que não se enxerga na água turva e nela pesca o demônio28. Uma alma perturbada pouco conhece a Deus e aquilo que deve fazer. É preciso, portanto, quando caímos em alguma falta, voltarmo-nos para Deus com humildade e confiança e, pedindo-Lhe perdão, dizer, como Santa Catarina de Gênova: 

- Senhor, estas são as ervas do meu jardim!29. Amo-Vos de todo o coração e me arrependo de Vos ter dado esse desgosto. Não quero mais fazê-lo, dai-me o Vosso auxílio.  

ORAÇÃO


 Felizes correntes, que ligais o homem a Deus, atai-me também e uni-me a Deus de maneira que não possa mais me separar de Seu amor, Meu Jesus, eu Vos amo; sim, eu Vos amo, tesouro e vida de minha alma e a Vós me prendo e entrego todo meu ser, Não quero deixar, meu amado Senhor, de Vos amar. Para apagar os meus pecados, consentistes em ser preso como um criminoso e assim ser conduzido à morte pelas ruas de Jerusalém; quisestes ser pregado na cruz e de lá descer só depois de nela deixar a vida. Pelos méritos de tantos sofrimentos, não permitais que eu me separe de Vós. 

Arrependo-me de todo coração de ter me afastado de Vós; com Vossa graça estou resolvido a antes morrer do que Vos tornar a ofender. 

Meu Jesus, em Vós me abandono, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais do que a mim mesmo. Na vida passada eu Vos ofendi, mas agora eu me arrependo e quisera morrer de arrependimento. Eu Vos peço, atraí-me todo a Vós; renuncio a todas as consolações sensíveis, quero só a Vós e nada mais. Farei que Vos ame, farei de mim o que mais Vos agradar. 

Maria, minha esperança, uni-me a Jesus e fazei que eu passe minha vida unido a Ele, e unido com Ele morra, para assim chegar um dia no céu, onde já não existirá o medo de me ver separado do Seu santo amor!
Santo Afonso Maria de Ligório. 
A Prática do Amor a Jesus Cristo, 
Capítulo VI.

Notas:

  1. Eclo 24,27
  2. S. Francisco de Sales, Lettre 1539, Julho-outubro 1619, à Madame de Villesavin, Oeuvres, XVIII, 417; Lettre 1254, 10 de novembro 1616, à Madame Grillet de Monthoux. Oeuvres, XVII, 305, 306.
  3. Rm 12,21
  4. S. Francisco de Sales, Lettre 1223, à Mère de Bréchard. 22 de julho 1616, Oeuvres, XVII, 260
  5. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 32. (Procès d’Annecy, 1627). Vie et Oeuvres, XVII, 260
  6. Abelly, Vie, 1.3, c.12
  7. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 27. Vie et Oeuvres de la Sainte, III, 130
  8. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie dévote, p.3, c. 8 
  9. Camus (Ed. Abrégée Collet), p.5, c.10
  10. S. Vicente de Paulo, cfr. Abelly, Vie, 1.3, c. 24, s. 1
  11. Mére de Chaugy, Mémoires sur la vie et lês vertus de S. Jeanne de Chantal, p. 3, c. 19. Vie et Oeuvres de la Saint, 1, p. 466
  12. Tg 3,14
  13. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie devote, partie 3, c.8
  14. Surio, De probatis sanctorum historiis, 10 outubro, Vita S. Joannis (prior do monastério de Bridlington) 
  15. Lc 9, 55-56 
  16. Jo 8, 10-11 
  17. Lc 22,48-61
  18. Camus, Esprit de S. François de Sales (Ed. Abrégée Collet), partie 1, c.3. Lettre 2090 (Fragments), c, à la Mère de Chantal, 1615-1617. Oeuvres, XXI, 176
  19. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  20. Camus, Esprit de S. François de Sales: partie 3, c. 11 e 21, partie 10, c.2, 4,5; partie 14, c.13
  21. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  22. Acami, dell’Oratorio di Roma, Vita, Roma, 1677, I. 1, c.11
  23. S. Bernardo, De adventu Domini, sermo 4, nº 5. ML 183-49
  24. Petrucci Matteo, bispo de Jesi (1681), cardeal (1686). – Poesie sacre, morali e spirituali (Iesi, 1685), p.143
  25. S. Francisco de Sales, Oeuvres, XIV, 177, 178
  26. Pr 15,1
  27. Sta. Teresa, Livro de la Vida, c.30
  28. S. Luís Gonzaga: Vita (Cepari), 2ª parte, c. 7; c.8
  29. Sta. Catarina de Gênova, Vita (Marabotto e Vernazza, c.16)

Fonte:

segunda-feira, 20 de março de 2017

Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade

É necessário refletir sobre essas coisas, e ver as pessoas como Deus as vê, e não como o demônio quer que as vejamos

Santo Tomás expulsa, da torre em que estava preso, a moça de má vida

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Instituto do Bom Pastor, IBP-SP – 12/03/2017 – Nesta Quaresma nos parece proveitoso algumas palavras sobre os pecados capitais, suas características, os frutos ruins que produzem em nós, e o modo de combatê-los. E, pelo tema da Epístola e do Evangelho de hoje, a Providência nos dá a ocasião de iniciarmos pela luxúria, fazendo-nos vê-la por outros ângulos.
Santo Tomás enumera oito consequências da impureza: 1. Cegueira da inteligência: que faz com que a pessoa não se dê conta da gravidade do que faz. Não reflete que prejudica seriamente a sociedade, lesando a geração e a educação dos filhos, a amizade entre os esposos, o modo como vê o casamento e como o levará adiante, nem o modo como vê e considera as pessoas a sua volta; 2.Precipitação: A pessoa não recebe com docilidade os conselhos que lhe dão; 3. Inconsideração das punições que Deus dá aos impuros; 4. Inconstância: Como a pessoa está muito apegada ao prazer, desiste fácil de qualquer propósito ou atividade mais séria, porque exigem sacrifício e são desagradáveis em muitos pontos; 5. Amor sem ordem e medida aos prazeres sensuais, fazendo deles o eixo da vida; 6. Apego a esta vida, porque quer muito se beneficiar do que este mundo dá (transparecendo em medo de morrer, em pânico diante de qualquer doença, na preocupação enorme por estar em boa saúde, em jamais fazer qualquer coisa que possa comprometer um pouco que seja a saúde, etc.); 7. Horror e desespero diante da outra vida, onde não haverá mais os prazeres que busca, e onde será punida por ter desprezado a Deus nesta vida, desprezando sua Lei; 8. Ódio de Deus, vendo que não quer se corrigir e sabendo, ao mesmo tempo, que será punida por Deus, o que faz com que veja a Deus, finalmente, como um inimigo.
Cegueira, precipitação, inconsideração e inconstância,
Ama o corpo e o tempo presente, foge do tempo futuro e de Deus.
Os sacerdotes têm o dever de ensinar os remédios que devem ser usados contra a luxúria. Como já falamos em outras ocasiões, estas questões devem ser expostas com cautela, sobretudo em público, para não ofender o pudor. Ao mesmo tempo, a instrução não deve ser tão pouca que acabe sendo insuficiente em uma questão que, infelizmente, diz Santo Afonso, é tão frequente nos confessionários e que leva a maioria das almas para o inferno.
1 — O primeiro remédio é fugir do ócio. Primeiramente, porque o cansaço físico e o hábito de trabalhar duro, por si só, já diminuem as quedas e o apreço pelo prazer. Mas se só isso bastasse, não haveria pecados contra a pureza entre os trabalhadores braçais, da construção civil, e os militares. Com relação à castidade, a principal eficácia de se manter ocupado está em que isso ocupa a imaginação. A imaginação nunca está quieta. Ela sempre procura alguma coisa para se ocupar. Se a deixamos vazia, ela procurará algo para passar o tempo de acordo com a má inclinação que já tem. Como está má inclinada, bem rápido nos colocará em situação complicada.
2 — Todos os moralistas dizem que é necessário cortar com os romances, novelas, filmes. No concreto, todostêm cenas de namoros, beijos, e coisas piores, em abundância. O enredo é construído de um modo onde os personagens veem uns aos outros sob a ótica dos interesses baixos. As relações entre as personagens são regidas pelo sentimentalismo romântico e pela busca do outro como alguém pelo qual eu tenho interesse sensível. A psicologia dos personagens é defeituosa, concebida para funcionar sob a ótica do mundo, da impureza, e não da virtude. Isso dá, para quem lê e assiste essas coisas, um conceito do que é amar, e gostar de alguém, completamente carnal, nada católico, e isso é uma verdadeira catástrofe nas suas consequências reais: fuga do casamento, contracepção, aniquilação da noção de caridade, de espírito de sacrifício, coisas sem as quais é impossível existir sociedade humana e Igreja.
3 — Fugir da familiaridade com pessoas do outro sexo, mesmo se são pessoas devotas. Os rapazes, quando ficam andando com as moças com as moças e tendo familiaridades com elas, adquirem hábitos e modos de ser que são realmente desagradáveis: ou ficam efeminados, ou ficam com um modo de ser que mais parece com o de um libertino, e isso se percebe. Ou ficam com os dois defeitos ao mesmo tempo… As moças devem ter muito claro que o sentimentalismo precisa ser aniquilado. Sendo bem concreto, dessa vitória contra o sentimentalismo dependerá, muitas vezes, a sobrevivência delas. Quando um rapaz desonesto se dá conta de que uma moça é sentimental, ele se aproveita disso, alimenta isso. Depois as coisas acabam escorregando para faltas maiores, até o dia em que o rapaz vai embora. Consequência: a moça, depois de se ver enganada, concebe aversão do casamento; uma ideia de que os homens são todos desonestos; ela mesma fica com dificuldade de conseguir amar alguém de modo correto, porque a experiência passada cria nela um bloqueio para isso; fica uma pessoa irritada, de temperamento azedo, porque não consegue digerir o que passou; e tudo isso reflete em volta dela, e as pessoas à sua volta (amigos, familiares, marido e filhos, depois de casar, etc.) acabam sofrendo em muitas coisas por causa disso.
Quanto aos noivos, o conselho mais eficaz do mundo é: fujam de ficar sozinhos. O Pe. Luís Carlos Lodi, padre de muita experiência, em um de seu livros, lembra aos noivos de que eles jamais devem ficar sozinhos, nem devem andar de carro juntos, sem outra pessoa que os acompanhe.
4 — Oração frequente, porque nos dá conhecimento maior e mais claro das coisas de Deus, e maior amor por elas, tirando nosso interesse pelos prazeres deste mundo, como vemos no Evangelho de hoje, onde São Pedro, tendo maior conhecimento de Jesus Cristo pela sua transfiguração, concebeu tanto amor por Deus que não queria mais sair de lá.
5 — Confissão frequente, com o mesmo confessor (que conhecendo a alma pode ir adaptando os remédios e conselhos mais eficazes), antes e cair; comunhão frequente.
6 — Lembrar da morte e do juízo. Devoção por Nossa Senhora, que é Mãe do belo amor. Guardar os sentidos, sobretudo os olhos. Mortificação.
7 — Ver os outros de modo elevado e sobrenatural. Muita coisa na nossa vida depende de como as vemos. Uma das coisas que leva as pessoas a cometer pecados contra a pureza é o fato de que consideram os outros à sua volta de um modo muito baixo. Isso não pode ser assim. São Paulo via muito bem que o modo como vermos as pessoas é decisivo para guardar a castidade ou ir contra ela: “Que cada qual saiba tratar a própria esposa com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como os gentios, que não conhecem a Deus. Nessa matéria ninguém fira ou lese a seu irmão(…) Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade. Portanto, quem desprezar estas instruções não despreza um homem, mas Deus, que vos infundiu o seu Espírito Santo” (1Tess. 4, 4-8). Para São Paulo, guardar a castidade é algo muito ligado ao modo como vemos os outros. Queremos guardar a pureza? Então é necessário nos dar conta de que a outra pessoa é ou será uma mãe e esposa, ou um marido e um pai; de que ela tem uma alma que foi concebida por Deus desde toda a eternidade para se salvar; de que Deus a criou tendo por ela um amor infinito, e planos tão nobres que não somos capazes de conceber quais são, nem a profundidade deles; de que Cristo morreu por essa pessoa, e de que ela tem o sangue de Nosso Senhor sobre ela, de que ela participa, pela graça, da vida de Deus. É necessário refletir sobre essas coisas, e ver as pessoas como Deus as vê, e não como o demônio quer que as vejamos.
Podemos concluir com Santo Afonso: “Nesta questão, é necessário, tanto quanto possível, usar de muita firmeza. Em coisa tão fácil de cair, nenhuma cautela é demais. Muitas opiniões, sobre o que é permitido, são verdadeiras; mas na prática, por causa da fraqueza humana, não devem ser usadas. O confessor deve saber que algo, em princípio, pode não ser pecado grave, mas vendo que oferece perigo real ao fiel, não deve permitir que seja feito” (Homo apost., trat. IX).
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Grandeza de São José

Um orador famoso tecia um dia, no areópago, o elogio de Felipe o Macedônio. Depois de decantar as nobres origens, as riquezas, o poder, a coragem, as vitorias de seu herói; calou-se um instante como se nada mais tivesse a acrescentar. Mas depois subitamente gritou: "Tudo isto não é nada. Ele foi o pai de Alexandre. o conquistador do mundo: Eis ai a sua gloria imensa".

Eu também, se vos fizesse passar diante dos olhos uma a uma as virtude de São José, poderia no fim concluir: "Tudo isto não é nada; a sua gloria eterna é ter sido o pai custódio de Jesus, salvador do mundo, e ter sido o casto esposo da Virgem Maria, Mãe de Deus". Por isto ele está acima dos Santos. Estes são os seus títulos de nobreza: Consideremo-los um por um.

 a) Esposo de Maria- Se bem que José e Maria permanecessem virgens por toda a vida, vivendo juntos como viveriam os anjos, todavia contraíram um legitimo matrimonio; e assim assim São José foi verdadeiramente esposo de Maria. Ora, a esposa - como diz também São Paulo- é sujeira ao esposo: Maria, pois, foi sujeita a São José. Pensai, quanta honra!
 Esposo de Maria significa esposo da criatura maria que jamais houve no céu e na terra, da criatura que foi mãe de Deus.

 Esposo de Maria significa esposo da rainha dos anjos, dos arcanjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, da rainha sem macula da rainha da paz.

b) Pai de Jesus- José não foi, é verdade, o pai natural de Jesus, porque o filho o Filho de Deus se fez homem encarnando-se no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espirito Santo. Contudo, no evangelho muitas vezes ele é chamado com o nome de pai. Depois de descrever o mistério da apresentação no templo, depois de recordar as profecias de Simeão, o Evangelista acrescenta: "Seu pai e sua mãe estavam maravilhados".(Lc,. II, 33). e a própria Nossa Senhora, na alegria de reencontrar o Menino entre os doutores, lembra S. José  om o nome de pai:"Teu pai e eu chorando, muito te procuramos".

 Mas, se São José não cooperou na geração de Jesus, por que então foi chamado Pai de Jesus ? Por dois motivos: porque foi esposo de Maria, e porque teve toda a autoridade e responsabilidade de pai.

 O primeiro motivo é explicado por São Francisco de Sales, dizendo:"suponde que uma pomba, voando deixe cair do bico uma tâmara num jardim. O fruto caído do alto se enterra, e sob a ação da água e do sol germina, cresce e torna-se uma bela palmeira, Esta palmeira de quem será ? Evidentemente do dono do jardim, como dele é qualquer outra coisa que ali nasça. Ora, essa pomba figura o Espirito Santo, que deixou cair a tâmara divina- O Filho de Deus-  no Jardim fechado onde toda virtude é florida- o seio de Maria; mas, pertencendo ela, de pleno direito, ao seu castíssimo esposo, também Jesus - palmeira celeste- ao menos de algum modo pertence a José ".

 O segundo motivo é explicado por São João Damasceno, dizendo: "Não é apenas a fecundidade no gerar que dá a alguém o direito de se chamar pai, mas também a autoridade no governar, e a responsabilidade da vida". E foi São José que subtraiu Jesus a todos os perigos, que o criou em sua casa, que o fez crescer. Foi São José quem ensinou o oficio ao Filho de Deus, que mandou a ele como a um empregado. E quem sabe como ele tremeria todo no coração, e como os olhos lhe umedeciam, quando Jesus lhe dizia: "PAI".

c) Maior do que os Santos.- Se Deus destina uma pessoa a algum oficio sublime, reveste-a de todas as   para bem cumpri-lo. Assim, tendo ele escolhido Maria para ser sua Mãe, encheu-a de graça acima de todas as criaturas. Do mesmo modo, em proporção, tendo escolhido São José para a dignidade de seu pai putativo e de esposo da Virgem, cumulou-o de graças imensas, como a nenhum outro Santo.

 O Evangelho chama a José "homem justo", E são Jeronimo explica que essa palavra "justo" significa que ele possuía todas as virtudes. Enquanto os outros Santos se assinalaram particularmente um por uma virtude e outro por outra, São José foi perfeito igualmente em todas as virtudes, Por isto, a 31 de dezembro de 1926 na Basílica de São Pedro Pio XI, cantando solenemente as ladainhas dos santos, imediatamente após a invocação a Nossa Senhora acrescentou a invocação a São José: - Sancte Joseph, intercede pro nobis.

(Pensamentos sobre os Evangelhos e sobre as festas do Senhor e dos santos, Pe João Colombo)

Fonte:
http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sermão: A ira santa e a paciência imprudente



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…
***

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.” “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás e quem matar será condenado em juízo. Pois eu vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão, será condenado em juízo.” (Mateus V, 21)

Neste trecho do Sermão da Montanha, que é o resumo da Lei Evangélica – lei do amor a Deus e ao próximo -, Nosso Senhor, legislador supremo, que aperfeiçoa a lei antiga e condena as interpretações erradas dadas pelos fariseus e escribas, mostra o valor profundo do quinto mandamento. Não matar é insuficiente. É preciso cortar o mal em suas origens, pela raiz, é preciso coibir a ira, causa do homicídio.
O divino legislador parece, porém, violar a própria lei por Ele estabelecida. Pouco antes de estabelecer o perfeito sentido do quinto mandamento, Nosso Senhor atacou e condenou os fariseus, dizendo que a justiça deles era insuficiente para entrar no céu. Mas não somente isso: Nosso Senhor expulsa os vendilhões do templo com ira e condena os fariseus chamando-os de hipócritas, de cegos, de serpentes, de víboras, de orgulhosos. Haveria, então, uma contradição entre o preceito dado por Cristo e a sua atitude face aos fariseus?
A contradição, claro, é somente aparente. Para resolvê-la, devemos compreender o verdadeiro sentido do preceito e conhecer quem eram os fariseus e os escribas. Como explicam todos os Padres da Igreja baseados no texto grego do Evangelho de São Mateus, o que Nosso Senhor proíbe como pecado é a ira sem motivo. A ira é o sentimento, a paixão, que nos move a agir para restabelecer a ordem lesada por uma injustiça, para defender um bem que é atacado, uma verdade que é atacada. Assim, se esse movimento de cólera se dirige contra um verdadeiro mal a fim de restabelecer a justiça, a verdade ou a virtude por meios lícitos e dentro dos devidos limites, a ira não somente não é proibida, mas é mesmo louvável porque, neste caso, ela é conforme à razão e à moral. A ira encontra sua origem no amor do bem e da justiça. Quando o bem ou a justiça são atacados, nada mais virtuoso do que defendê-los dentro dos devidos limites. A ira deve, então, ser dirigida pela razão e voltar-se contra o mal, contra o vício, contra o pecado, que são uma ofensa a Deus, nosso maior bem. E face ao pecado e ao vício, a ausência de ira pode ser um pecado porque mostra a falta de amor por Deus.

O preceito de Nosso Senhor – “todo aquele que se irar contra seu irmão, será condenado em juízo” – encontra seu verdadeiro sentido quando se compreende desse modo: todo aquele que se irar contra seu irmão, sem motivo, será condenado em juízo.

Resta saber se a ira de Nosso Senhor relativa aos fariseus é justa ou não. Para tanto, é preciso conhecê-los. Fariseu quer dizer separado e comumente se pensa que os fariseus são aqueles que cumprem com exatidão a lei de Deus. Com frequência, católicos sérios são acusados de serem fariseus por buscarem, apesar de suas inúmeras fraquezas e defeitos, praticar bem a lei de Cristo, opondo-se às leis desse mundo. Ora, se os fariseus fossem simplesmente fiéis observadores da Lei de Deus, Nosso Senhor não teria razão para repreendê-los e condená-los, mas sim para elogiá-los dizendo: “servos bons e fiéis entrem na alegria do Senhor”. Nosso Senhor observou perfeitamente a Lei Mosaica e Nossa Senhora também. Seriam eles fariseus? Os fariseus não são aqueles que observam perfeitamente a lei de Deus. Ao contrário, os fariseus não praticavam a lei dada por Deus e não deixavam os outros praticá-la: em primeiro lugar porque os fariseus e escribas – seguindo tradições puramente humanas, inventadas por eles, e interpretando a Lei segundo seus gostos – violavam essa mesma lei. Sob pretexto de cumprir tais tradições, a lei dada por Deus era desprezada. Sabemos que nenhuma lei humana, nem mesmo a lei de um país pode contrariar a lei estabelecida por Deus. Assim, inventaram uma consagração de certos bens a Deus para não ajudar os pais, evitando perder, dessa forma, certa riqueza (Marcos VII, 11), e se opondo ao quarto mandamento. Em segundo lugar, os fariseus violavam a lei porque praticavam uma religião puramente exterior, em que a pureza exterior substituía a santidade interior. Assim, eles pagavam o dízimo de todas as ervas (o que era bom e louvável), mas negligenciavam a justiça e a misericórdia (Mateus XXIII, 23). Eram hipócritas, bonitos por fora como um túmulo pintado de branco, mas no interior cheio de podridão. Finalmente, os fariseus violavam a lei pelo orgulho: todas as suas boas obras eram para ser vistas pelos homens e não por amor a Deus, em franca oposição ao que é preciso fazer, pois “quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (I Cor X, 31) . Com essa doutrina, os fariseus não entravam no céu e também não deixavam os outros entrar, uma vez que eram os guias do povo. Eram, então, cegos guiando cegos. Haveria maior mal do que esse, haveria maior ofensa a Deus do que essa: impedir que os outros entrem no céu?
Nosso Senhor Jesus Cristo – que amava a Deus da maneira mais perfeita possível e que buscava a salvação das almas – não poderia ficar impassível face à péssima doutrina dos fariseus. Ele, sendo bom, amava a justiça, e a justiça lesada pede reparação. Assim, a ira de Nosso Senhor contra os fariseus é, em realidade, virtuosa porque ela tem um motivo perfeito: os direitos de Deus atacados e a salvação das almas impedida pela doutrina dos fariseus e escribas. É importante sabermos que existe uma ira santa. Muitos católicos pensam que a santidade consiste numa total indiferença face ao mal, no fato de não reagir de maneira alguma, na tolerância da diferença. Tudo isso baseado em um falso conceito de mansidão. A mansidão não impede a ira, mas a regula segundo a reta razão iluminada pela fé. De um lado, a mansidão impede a ira desordenada que pode ser pecado mortal ou venial, segundo exceda grave ou levemente os limites impostos pela razão na correção do próximo, na reparação da justiça, na defesa de um bem, de uma verdade. Do outro lado, ela impede uma excessiva brandura, originada do amor por uma falsa paz. O exemplo de santidade e de mansidão é Cristo e Ele mostrou que em determinados momentos uma ira santa é indispensável. Assim, Santo Agostinho nos diz que aquele que não se enfurece (de maneira ordenada), quando há uma causa para isso, peca por uma paciência imprudente que favorece os vícios, aumenta a negligência e encoraja o agir mal. A ausência da ira seria então pecar contra a justiça e a caridade.

Nós católicos e, sobretudo, aqueles constituídos em autoridade deveríamos, então, nos levantar para defender os direitos de Deus e nos opormos, com vigor, às leis e doutrinas iníquas: divórcio, aborto, contracepção, união contra a natureza, entre tantas outras… A nossa paciência imprudente já permitiu males enormes…

Todavia, a ira para ser santa deve ser prudente.
Ela deve ter como causa uma verdadeira injustiça. Ela deve proceder da inteligência e da vontade e não de um sentimento impetuoso e descontrolado. Ela tem que ser dominada pelo homem e não o homem ser dominado por ela. Se nossa inclinação é de falar bruscamente, com voz destemperada e expressões indevidas, com grosserias, palavras de baixo calão, nossa ira é desordenada, pecaminosa. Se nossa ira nos leva a agressões ou destruição do bem alheio, ela é pecaminosa (a não ser, claro, em caso de legítima defesa, ou em caso de exercício da legítima autoridade, mas sempre proporcionalmente ao mal que é combatido).
A ira santa deve ser exercida quando há alguma esperança de êxito e principalmente por aqueles que têm obrigação de denunciar a injustiça e de restabelecer a ordem. E, ainda que não haja a possibilidade de êxito, às vezes é preciso para não escandalizar os outros, dando a impressão de que estamos de acordo com o mal. Ela deve ser sempre proporcional ao mal causado, como já dissemos.
Ela deve ter em vista mais o bem comum e a glória de Deus do que o bem privado. A ira santa não deve ter como objeto os males e as pequenas injustiças que sofremos porque eles têm para nós algo de justo – pois merecemos ser punidos pelos nossos pecados – e de bom – porque se os aceitamos de bom grado, Deus nos conduz à vida eterna. Devemos ter muita paciência nas tribulações, unindo-nos a Nosso Senhor. Podemos, claro, buscar afastar essas adversidades e a causa do sofrimento, mas sempre com serenidade e com submissão à vontade de Deus. Diante do sofrimento e das adversidades, que nossa ira nunca se volte contra Deus, que é o autor de todo o bem.
Na ira santa, não devemos desejar o mal do pecador, mas o bem que é sua correção e o bem que é o restabelecimento da ordem violada – que no mais das vezes passa, claro, pela punição daquele que fez o mal.

Atenção. É muito fácil equivocar-se na apreciação dos justos motivos que justificam a ira e é muito fácil perder o controle no exercício dela. É preciso estar, então, muito alerta e, na dúvida, o melhor é inclinar-se à doçura e não à ira.

Assim, Nosso Senhor, verdadeiramente manso, soube perfeitamente o momento de irar-se ou e não irar-se, pois muitas vezes o remédio mais eficaz diante de um mal não é a ira. Nosso Senhor irou-se contra os fariseus, pertinazes no erro e no pecado, mostrando a falsidade da doutrina desses mestres hipócritas, a fim de conduzir o povo a Deus e a fim de tentar converter os próprios fariseus. Mas Ele não se encolerizou contra Herodes ou Pilatos no momento de sua paixão, pois não convinha que Nosso Senhor reagisse: sua ira não os tiraria do mal no qual estavam afogados e convinha que ele morresse para nos salvar. Nosso Senhor também não se encolerizou nem com os apóstolos lentos para compreender os seus ensinamentos nem com outros pecadores (Maria Madalena, Zaqueu): neste caso, Ele sabia que o melhor remédio para conduzi-los a Deus era a paciência e a doçura e não ira.
Como diz, então, o Salmo: “Irai-vos, mas não pequeis”. Irai-vos por uma causa justa, irai-vos dentro dos justos limites. Irai-vos sem deixar se levar pela ira. Irai-vos mantendo sempre o controle da razão iluminada pela fé e pela caridade. Irai-vos amando o próximo, afastando o ódio pelos outros. Na dúvida, vale mais inclinar-se à doçura.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
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Sermão para o Quinto Domingo depois de Pentecostes
23 de junho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro
[Nota do Editor: os destaques são nossos.]

terça-feira, 14 de março de 2017

AS CINCO QUALIDADES REQUERIDAS PARA TODAS AS ORAÇÕES - S. TOMÁS DE AQUINO



1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência, pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.

2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia e achar a graça para sermos socorridos no tempo oportuno.

A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé e sem hesitação.

Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras de nosso advogado».

A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os pecados veniais.

3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer, devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir».

Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque pediste mal», diz São Tiago. (4,3).

É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.

Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos ensinou o que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor, ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).

Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».

4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio desejo que a prece interpreta.

A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor (Mt, 6,33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto — o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo.

Na Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem: primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.

5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.
A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma é saciada como de fino manjar.

A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6,7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar, se vossa atenção continua fervorosa».

Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.

6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.
Para mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai nosso», e empurrados pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»

7. — Em quinto lugar, nossa oração deve ser humilde, segundo o que diz o Salmista (Sl. 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes.

Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes dos mansos.

Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está naquele que não confia em suas próprias forças, mas tudo espera do poder divino.

“O PAI NOSSO E A AVE MARIA” - SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO

segunda-feira, 13 de março de 2017

A Igreja, guardiã fiel do depósito

Mas é proveitoso que examinemos com maior diligência essa frase do Apóstolo: “Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras”. Este grito é o grito de alguém que sabe e ama. Previa os erros que iam surgir e se doía disso enormemente.


Quem é hoje Timóteo senão a Igreja universal em geral, e de modo particular o corpo dos bispos, os quais, em primeiro lugar, devem ter um conhecimento puro da religião cristã e transmiti-lo aos demais?

E que quer dizer “guarda o depósito”? “Está atento, lhe diz, aos ladrões e aos inimigos; para que não suceda que enquanto todos dormem, venham às escondidas a semear o joio em meio do bom grão do trigo que o Filho do homem semeou em seu campo”.

“Guarda o depósito”. Mas, o que é um depósito? O depósito é o que te foi confiado, não encontrado por ti, tu o recebeste, não o encontraste com tuas próprias forças. Não é o fruto de teu talento, mas da doutrina; não está reservado para um uso privado, mas, sim, pertence a uma tradição pública. Não saiu de ti, veio a ti. A seu respeito tu não podes comportar-te como se fosses seu autor, mas simplesmente como seu guardião. Não foste tu quem o iniciou: tu é que és seu discípulo. Não te cabe dirigi-lo: teu dever é segui-lo.

“Guarda o depósito”, quer dizer, conserva inviolado e sem mancha o talento da fé católica. O que te foi confiado é o que deves guardar junto a ti e transmitir. Recebeste ouro; devolve, pois, ouro. Não posso admitir que substitua uma coisa por outra. Não, tu não podes de maneira despudorada substituir o ouro pelo chumbo, ou tratar de enganar dando bronze em lugar de metal precioso. Quero ouro puro, e não algo que só tenha sua aparência.

Ó Timóteo! Ó sacerdote! Ó intérprete das Escrituras! Ó doutor da Igreja! Se a graça divina te deu o talento por engenho, experiência, doutrina, deves ser o Beseleel do Tabernáculo espiritual. Trabalha as pedras preciosas do dogma divino, reúne-as fielmente, adorna-as com sabedoria, acrescenta-lhes esplendor, graça, beleza: que tuas explicações façam que se compreenda com maior clareza o que já se cria de maneira muito obscura. Que as gerações futuras se congratulem de ter compreendido por tua mediação o que seus pais veneravam sem compreender.

Entretanto, hás de estar atento para ensinar somente o que aprendeste: não suceda que por buscar dizer a doutrina de sempre de uma maneira nova, acabes por dizer também coisas novas.




São Vicente de Lérins, na obra Comonitório